quinta-feira, 29 de novembro de 2012

DIA 50 – UM SUCESSO INTERNACIONAL


                As aulas de música têm corrido a um ritmo meio irregular. Com as crianças de Educação Individual, às segundas e terças feiras na sede Mama Alice, é bastante fácil: dois grupos de seis miúdos, num ambiente controlado, e com a presença das duas professoras que trabalham com eles. Eles vêm a todas as aulas, conheço-os pelo nome e aprendem com bastante facilidade porque não há confusão e sou uma professora para seis alunos. Um luxo.

                Nos bairros a história é outra. Não há obrigatoriedade de presença (não há como obrigá-los), um dia vêm uns outro dia vêm outros, um dia não vêm porque têm de ficar em casa a tomar conta do irmão bébé, outro dia é porque se esqueceram das horas e chegaram no fim da aula, outro dia ainda é simplesmente porque o baloiço ou os matraquilhos são mais apetecíveis e dizem-me sem pudor: “Professora hoje não quero.”. Das cerca de trinta crianças que tive em cada centro nas primeiras aulas passei para dez ou quinze nas últimas semanas. E eu andava desanimada. Mas em cada viagem de autocarro, questionando-me quantas crianças iria ter nesse dia, pensava sempre que mesmo que fossem só três ou quatro valeria a pena ir por elas. E a verdade é que tenho alguns pouquinhos alunos fiéis, que vêm sempre, que chegam antes, que quando me vêm chegar já perguntam o que vamos fazer hoje, e que quando eu chamo para a aula (qual vendedora de mercado: “Clase de música ahorita, vamos empezar!”) deixam o baloiço, as bonecas e os matraquilhos e vêm correndo. Não se pode agradar a todos, mas se agrada a alguns, já vale a pena. E confesso que quandos as aulas correm bem nestes centros dos bairros, são muito mais entusiasmantes e divertidas que as de Educação Individual.

                Hoje tive uma surpresa feliz. No bairro de Keiko Sofia a sala de aula encheu como não enchia desde a primeira aula. Quase não cabíamos todos. Estavam os meus alunos fiéis e alguns novos. A aula correu maravilhosamente bem. Ensinei-lhes o que são sons graves e agudos e aprenderam logo à primeira. Participaram entusiastas e fartámo-nos de rir juntos. E como estamos a ensaiar a canção de Natal que eles vão cantar na Festa de Natal Mama Alice, eu decidi fazer um vídeo do ensaio para lhes mostrar como já cantam bem. O resultado foi este, e eu estava à beira das lágrimas.

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                Depois pediram-me para cantarmos a Canção do Leão (Canción del León, na versão peruana). Esta foi a primeira canção que lhes ensinei quando comecei a trabalhar aqui. E tal como para os meus alunos do ano passado na Escola Primária de Vale Flores, também aqui a Canção do Leão é um sucesso. E agora é um sucesso internacional.
                

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                 Porque as crianças são crianças em qualquer lugar do mundo, e não há criança que não goste de cantar.




quarta-feira, 21 de novembro de 2012

DIA 39 – AS CIDADES E AS PESSOAS QUE AS HABITAM

                Fim de semana em Lima é como “ir a casa”. Reconheço a mesma sensação de quando ia passar um fim de semana a casa dos meus pais na Caparica, durante os três anos que vivi em Lisboa. A sensação de sair do meu ambiente quotidiano e passar dois dias noutro lugar que também é a minha casa e onde está a minha família. É isto que eu sinto na casa dos Missionários Combonianos em Lima.

             Já vos contei da recepção que tive por parte dos combonianos. Desde o primeiro momento em que me conheceram receberam-me como membro da família e atribuíram-me, com uma generosidade impagável, uma “propriedade honorária” do quarto onde dormi pelo período da minha permanência no Perú, para voltar as vezes que quiser e ficar o tempo que quiser. Desta vez não foi diferente. Pelo contrário. Cheguei à casa comboniana com a familiaridade de quem chega à sua própria casa e todos se alegraram com a minha visita depois de um mês de ali ter estado, fizeram-me mil perguntas curiosas sobre a minha experiência em Ayacucho e convidaram-me a partilhar das suas actividades de fim de semana.

            Durante a semana os seminaristas combonianos frequentam a universidade de teologia e têm um estilo de vida típico de estudante universitário. Aos fins de semana dividem-se por várias paróquias da cidade e fazem trabalho pastoral. As paróquias onde vão estão localizadas nas zonas mais pobres de Lima, nas favelas periféricas que cobrem as colinas que rodeiam a cidade, onde as casas são feitas de contraplacado, onde não há água canalizada nem esgotos, não há estradas asfaltadas e só há pouco mais de dois anos começou a chegar a electricidade. Aproveitei a possibilidade de conhecer uma realidade tão radicalmente diferente da minha e fui com eles visitar duas favelas: uma na zona de Chorrillos e outra na zona de Pamplona.

É difícil descrever a extrema pobreza em que os habitantes das favelas limenhas vivem. Pobreza física e pobreza intelectual. Trabalham todos os minutos do dia, todos os dias da semana, porque quando não trabalham não comem. Usam a mesma roupa até estar demasiado suja para ser suportável. Só têm um par de sapatos. Não têm casa de banho, e a água chega diáriamente através de camiões cisterna. Têm de trepar encostas íngremes de colinas de areia ou rocha cobertas de pó para chegar a casa. E têm de viajar todos os dias em combis minúsculos, baixos e apertados durante mais de uma hora para chegar ao centro da cidade onde vão vender nos mercados e fazer outros trabalhos precários. O único objectivo de vida aqui é trabalhar para comer e ter o essencial para sobreviver. Sobreviver. Considero um milagre que as crianças que aqui crescem tenham desejo de ir à escola e de estudar, vivendo no meio de tal desolação.

Favela de Chorrillos



Escadas de acesso às casas 

Casas de contraplacado e chapa de zinco



 Cão de raça peruana (preto e sem pelo) vestido com roupinha



Chorrillos by night

                Fui com dois seminaristas combonianos visitar uma senhora que tem dois filhos adolescentes com um grau intermédio de paralesia cerebral. Ela e o marido trabalham no mercado central de Lima, a Parada (onde há cerca de duas semanas houve motins e confrontos que duraram vários dias e morreram muitas pessoas) e deixam os dois rapazes trancados em casa o dia todo para que não fujam. Há poucos dias a senhora ficou ferida porque um mototaxi lhe passou em cima do pé. Como é diabética teve problemas de cicatrização e tiveram de lhe amputar um dedo. Agora a senhora não pode caminhar e passa o dia fechada em casa com os dois filhos enquanto o marido vai trabalhar. Quando fomos visitá-la não podia sequer abrir-nos a porta porque não consegue sair da cama, e falámos com ela pela janela. Ao lado da cama tinha a “sanita”. E a casa não devia ser limpa há meses. E o pé, envolto em ligaduras e sacos de plástico, deixava intuir um aspecto horroroso. O que é que se pode dizer de consolo a uma mulher jovem a viver nestas condições??? Eu só pensava na sorte tremenda, enorme, inesgotável e às vezes desapreciada que eu tenho em não ser ela e ser eu. Em ser eu todos os dias da minha vida, desta vida simples e às vezes precária mas tão boa, tão boa, tão boa que é a minha vida.


Favela de Pamplona


                A natureza dotou as crianças da inconsciência e da imaginação.  É por isso que as crianças vivem brincando, jogando e SORRINDO no meio da pobreza e da desolação. Mas os traumas que guardam dentro acompanham-nas para sempre e transformam-nas em adultos que vão perpetuar o ciclo vicioso da vida desolada e violenta das favelas. Por isso a educação das crianças é tão essencial. Porque é muito difícil mudar os adultos. Mas às crianças podemos ajudá-las abrindo-lhes a mente e os horizontes, mostrando-lhes outras possibilidades para a sua vida que não sejam só trabalhar e ter filhos, e dar-lhes os instrumentos para que alcancem essas possibilidades.




                Foi um fim de semana intenso e cansativo, dois dias que pareceram uma semana. É bom sair de Ayacucho, mudar de ares, ver o mar (mesmo que seja este Pacífico cinzentão) e sentir este aconchego familiar que me surpreende ao pensar que estou no Perú. Sinto-me em casa no Perú.

O mais curioso é que Lima é, provavelmente, a cidade mais feia que eu conheço. Os lugares interessantes contam-se pelos dedos de uma mão e não me entusiasmam por aí além. E eu que adoro cidades! Mas apesar da sua imensidão caótica, da paisagem desolada e do centro histórico com pouca piada, esta cidade inspira-me um sentimento de ternura surpreendente. Talvez seja da sensação de conquista de já me orientar nas diferentes zonas, de saber onde está o quê, de saber como ir para onde, de me sentir tranquila e à-vontade nos combis (acreditem, é um conquista de valor!). Mas não é só isso. É que Lima é uma cidade feia feita de pessoas bonitas. Talvez tenha sido uma grande coincidência e sorte minha, mas até agora só conheci gente boa nesta cidade e de cada vez que cá venho custa-me mais ir embora.

Ah, lembram-se do taxista Júlio? Que me levou ao autocarro quando vim para Ayacucho a primeira vez e me enganei nas horas? Ele tinha-me deixado o número dele para quando voltasse a Lima e precisasse de um táxi. Resolvi ligar-lhe para me levar de novo ao autocarro. E ele não só se lembrava de mim como vinha, juntamente com a esposa, cheio de perguntas e curiosidade sobre a minha vida em Ayacucho. E, tal como os combonianos, perguntou-me quando planeio voltar a Lima e quando nos voltamos a ver. E eu por agora não sei. Mas fico com vontade que seja para breve.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

DIA 31 – UM MÊS DE PERÚ

                O tempo passa demasiado depressa. Por mais incrível que pareça, já estou aqui há um mês. E para mim dizer “Um mês de Perú” inclui vários dias diferentes. No dia nove de Novembro fez um mês que me despedi da minha Lisboa. No dia dez, um mês que cheguei a Lima, que pousei pé numa nova cidade, num novo país, num novo continente, num novo hemisfério. E no dia treze fará um mês que cheguei a Ayacucho.

                Quando penso na passagem do tempo, e quando começa a fazer uma semana, um mês, um ano que certos acontecimentos marcantes ocorreram, tenho sempre duas sensações contraditórias: por um lado, parece que as coisas aconteceram ontem, tal a intensidade com que ainda as sinto apesar do tempo que passou; por outro lado, parece que já foi há muito mais tempo, considerando a avalanche de outras coisas que entretanto aconteceram. Agora aqui, no Perú, sinto as mesmas duas contradições com muita força: parece que foi ontem que me despedi de vocês com o coração apertadinho e um nó na garganta, tal é a falta que me fazem e as saudades que sinto de Lisboa; ao mesmo tempo, parece que foi quase numa outra vida, tal tem sido a minha imersão nesta nova vida, a habituação ao lugar, às pessoas, aos costumes.

       Estou há um mês no Perú. Ainda tenho muito para aprender sobre este país, muitas pessoas para conhecer, muitas crianças para ensinar, muitas viagens para fazer. Mas já me estou a habituar, já me sinto menos gringa e menos extra-terrestre. Já sinto Ayacucho um bocadinho minha. E confesso que agora os dias são mais fáceis e felizes do que quando cheguei. Sinto que, se num mês cheguei até aqui, em mais nove vou sentir-me totalmente em casa e amar este país tão diferente do meu, e quando voltar para Lisboa vou deixar aqui um bocado do meu coração.

          Tenho uma intuição previsiva de que, aconteça o que acontecer, nunca me vou esquecer do que vivi no Perú. Porque no Perú tudo pode acontecer. E até agora muito tem acontecido! *



Spot promocional Turismo Marca Perú 2012

Miradouro Acuchimay - Ayacucho

Ayacucho vista de cima

Miradouro Acuchimay com Willie e Tânia

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

DIA 23 – A PRIMEIRA VIAGEM: PARACAS e HUACACHINA – UM OÁSIS NO DESERTO


                Adoro road trips. Viajar pela estrada tem uma certa aura romântica, permite ver a paisagem, observar as suas alterações ao longo do caminho, e o tempo que forçosamente se perde ajuda a desapegar progressivamente do lugar de onde se parte e aproximar do lugar para onde se viaja.

                A road trip para a região de Ica, no fim de semana grande do feriado de Todos-os-Santos, teve vários adjuvantes a estas vantagens iniciais: a estrada desde Ayacucho passa no meio das montanhas, sobe aos quatro mil metros de altura e a paisagem é deslumbrante. Desde penedos escarpados e áridos a planaltos verdejantes e cultivados, passando por rios e cascatas. Apanhámos frio e neve pelo caminho, e também sol e calor. E vento. E muitos rebanhos de ovelhas, de lamas e de alpacas, que são dos quadrúpedes mais fofos que já vi nesta vida.




O meu primeiro rebanho de lamas 



                Outra vantagem desta road trip foi o facto de termos viajado em carro próprio, e não de autocarro. Nestas circunstâncias o carro torna-se uma espécie de casa móvel, lugar conhecido e refúgio permanente numa jornada em que a paisagem em redor muda a cada instante. E também depósito de bagagens e da imensa tralha que se vai acumulando ao longo dos vários dias. Este não era um carro qualquer: era uma carrinha jipe da Cruz Vermelha Internacional. Motorista oficial: Otchoa; tripulação: Sílvia, Celsa, Juan e Willie, que acumulavam à vez a função de co-piloto e zelador do i-pod ligado ao rádio.

Willie, Otchoa, Celsa, Juan e eu, com a nossa casa móvel da Cruz Vermelha Internacional

                Chegámos à vila piscatória de Paracas na sexta-feira ao final da tarde. A estrada para a costa atravessa um deserto imenso de dunas e montanhas áridas, casinhas baixas e mal acabadas, e chega ao mar. As praias da costa sul do Perú não são em nada superiores à minha Caparica e a água é pouco mais quente, mas foi uma emoção ver o mar, depois de quase um mês rodeada de montanhas. Paracas é minúscula e demasiado turística, e interessa apenas por duas razões: as viagens de barco às Islas Ballestas, património natural protegido onde não é permitido desembarcar, e onde se pode observar uma imensidão de espécies animais marinhas – focas, pinguins, pelicanos, gaivotas, entre muitas mais; e a entrada na Reserva Natural de Paracas – o verdadeiro deserto do Saara no Perú. Outra das vantagens de irmos de jipe foi podermos percorrer as dunas fora dos caminhos traçados e subir as encostas íngremes sem risco de atolar. Nunca tinha estado num deserto e não consigo descrever a sensação com justiça. O mais aproximado que posso dizer é que me senti um grãozinho de areia nesta imensidão dunosa. E as praias são muuuuuuito bonitas. E desertas. Mas infelizmente no sábado o céu esteve nublado todo o dia, e apesar de não estar propriamente frio a temperatura ambiente não convidava ao banho. Bolas!

Baía de Paracas

Islas Ballestas





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Reserva Natural de Paracas - entrada no deserto




                Depois do deserto de Paracas seguimos para sul, em direcção a Ica, e fomos dormir à Lagoa de Huacachina. É um oásis no deserto. No verdadeiro sentido da palavra. Dunas e mais dunas, areia e pó, e de repente uma lagoa, rodeada de hosteis, restaurantes e bares. A-DO-REI. Outra vez indescritível. As minhas duas penas em relação a este lugar foi termos ficado apenas uma noite e não termos tido tempo de fazer sandboard – o ex-libris desta região. Mas tivémos tempo para um mergulho na piscina antes de jantar, e para passear à volta da lagoa, e para provar a bebida típica da zona – o Pisco Sour – e para dar um pézinho de dança na discoteca local. Huacachina tem muitos turistas e peruanos que vêm passar o fim de semana e fazer sandboard. Eu sonhava com uma festa com fogueira à beira da lagoa, mas em vez disso vi o amanhecer da encosta de umas das dunas que rodeiam o oásis. E quando partimos no domingo de manhã, eu e a Celsa tínhamos a mesma sensação: havemos de cá voltar.

 Lagoa de Huacachina - um oásis no deserto

O amanhecer a meio da duna

                A viagem de regresso foi interminável e muito cansativa. Outra vez as montanhas, os rios, as lamas e as alpacas. Quando cheguei a Ayacucho já estava nostálgica do deserto e do mar. Foi um fim de semana muito especial, por todos os lugares incríveis que vi, pelas refeições deliciosas de peixe e marisco que comi, e pelo convívio e galhofa que se gerou na nossa casa móvel, aumentando o à-vontade e confiança com algumas das pessoas que já conheço aqui e que comecei a frequentar.

                E agora a próxima viagem, quando é? :D

DIA 18 – UMA ROTINA SEMANAL


                As minhas semanas em Ayacucho começam com a reunião de coordenação que acontece todas as segundas-feiras às oito da manhã na sede da Mama Alice. Cada um dos grupos de trabalho – Educação, Assistência Psicológica e Social, Saúde e Bem-Estar, Educação Técnica e Direcção - reúne-se para avaliar a semana que passou e programar a semana que vai começar, discutir problemas e preparar actividades. Esta reunião é a oportunidade de interagir com todos os membros do grupo de Educação, ao qual pertenço, pois durante a semana estamos espalhados pela sede e pelos dois centros e nunca nos encontramos todos. Normalmente a reunião começa sempre com uma dinâmica de grupo, organizada pela coordenadora, que pode ser um pequeno jogo de equipas, uma conversa a pares ou uma tarefa qualquer, para fomentar o espírito de grupo e o à-vontade entre todos os educadores. Faz-me lembrar os escuteiros. Devia fazer-se mais disto, semanalmente, nas empresas.

                Para mim é puxadote ter uma reunião logo à segunda-feira assim tão cedo. Mas aqui é perfeitamente normal. O sol nasce às seis da manhã e a partir dessa hora começa o barulho de gente e trânsito na rua. Aliando o ruído à ausência de estores nas casas, o que faz com que (mesmo com cortinas escuras) a luz invada o meu quarto sem qualquer pudor, leva a que eu acorde invariavelmente entre as seis e meia e as sete da manhã. Sem despertador. Às segundas-feiras levanto-me para a reunião. Nos outros dias viro-me para o outro lado e fico mais um bocado na ronha. Mas só um bocadinho, porque pelas oito e meia já parece que o dia vai adiantado tal é a azafama das pessoas no seu ir e vir, e quando me levanto depois desta hora fico sempre com a sensação que é quase hora de almoço (e até é, pois aqui almoça-se ao meio-dia).

                Tenho as restantes manhãs da semana livres. Aproveito para preparar as aulas, ir às compras, limpar a casa, ir ao “meu escritório” na associação para me ligar à net e comunicar convosco. E quando não tenho nada para fazer, vou passear pelas ruas do centro da cidade. Agora descubri que há uma piscina municipal e vou começar a ir nadar.

                Pelas tardes, a partir das três, tenho as aulas de inglês e de música. Segundas e terças-feiras fico na sede, a trabalhar com as crianças de Educação Individual (dois grupos de seis meninos e meninas, uma turminha pequenina, muito familiar) e nos restantes dias apanho um microbus a rebentar de gente pelas janelas e vou para os bairros onde estão os dois centros Mama Alice (com a minha viola às costas; não bastasse ser gringa, o que já faz com a que as pessoas fiquem a olhar para mim, quando vou com a viola no bus sinto-me um autêntivo freak show. E efectivamente, sou).

Sala de Educação Individual - sede Mama Alice

Nos bairros tenho turmas maiores, entre vinte e trinta miúdos, muito sujinhos, muito pobrinhos, mas extremamente interessados, ávidos e desejosos das aulas. Até agora têm corrido muito bem, à parte a desorganização e o caos típicos sul-americanos, ao qual me vou habituando pouco a pouco. Ao contrário do que acontece com as crianças de classe média das escolas portuguesas, aqui não passo metade da aula a mandar calar, puxar orelhas ou pôr de castigo. Aqui as crianças precisam de algumas regras firmes (não só de abraços, beijinhos e festinhas na cabeça) mas têm tal carência de presença e acompanhamento adulto que são extremamente agradecidas e muito respeitadoras. E ficam histéricas quando chego, e fazem fila para me cumprimentar. É comovente :)

 Centro Mama Alice no bairro de Keiko Sofia




Centro Mama Alice no bairro de 11 de Junio



Quando regresso a casa pelas sete da tarde já está escuro como breu e normalmente acabo o meu dia a ver um filme ao jantar e a deitar-me às dez da noite. Inacreditável, pois é. Mas o ritmo aqui é deitar cedo e cedo erguer, sobretudo não tendo televisão nem internet em casa, e acordando (involuntariamente) tão cedo, ao chegar ao fim do dia já estou de rastos. Boa noite! *