sexta-feira, 28 de junho de 2013

DIA 228 – FELICIDADE É REALIZAR SONHOS – GRANDE VIAGEM PELO SUL DO PERÚ, BOLÍVIA, CAMINHO INCA E MACHU PICHU – 8 MESES DE PERÚ

                Aviso à navegação: preparem-se para o testamento. Não se ponham a ler este post se não estiverem com tempo e com paciência. Deixei de ter controlo sobre ele depois da décima página, tornou-se um ser autónomo, agora já não posso voltar atrás. Boa sorte!

Há exactamente três semanas, sexta-feira dia sete de junho de dois mil e treze, eu cheguei a Machu Pichu às sete e meia da manhã, depois de catorze dias de viagem e quatro dias de Caminho Inca. Desde então tenho estado com essa imagem gravada na mente e essa emoção cristalizada no peito, sinto que ainda estou lá. E por isso surpreende-me que já tenham passado três semanas. O regresso a Ayacucho depois desta intensa viagem não tem sido fácil, ando nostálgica e alheada, evocando continuamente as imagens, os sons e os cheiros desses dias. A realização de um sonho tão antigo traz consigo uma enorme carga emocional que eu ainda não consegui digerir, nem voltar decentemente à vida quotidiana, e os lugares e as pessoas desta viagem andam comigo pelas ruas de Ayacucho.

                Mas comecemos pelo princípio, que até costuma ser um bom lugar para começar. Eu cheguei a Lima na manhã de sábado vinte e cinco de maio para receber os meus queridos Cátia, Ricardo, Tiago e Pedro, que depois de quatro meses de planos e antecipações chegaram finalmente para me visitar e viajar comigo pelo meu país de adopção. Foi um reencontro emocionante no terminal de autocarros da Cruz del Sur. Depois de sete meses e meio longe dos meus amigos e da minha família, eu não podia crer que eles estavam ali mesmo à minha frente, e que estava a falar português de novo. A consternação que senti na noite anterior partindo de Ayacucho, sabendo que ao meu regresso só me restaria um mês e meio aqui (e o coração já apertado com essa ideia) dissipou-se completamente com o abraço dos meus amigos. Eu soube instantaneamente que iam ser duas semanas maravilhosas.
O Ricardo, o Tiago, o Pedro, eu e a Cátia pouco depois do reencontro em Lima

                A viagem começou logo com planos alterados, como eu costumo gostar tanto: a mochila da Cátia não chegou no avião dela por erro no transbordo de Lisboa para Madrid, iria chegar num voo mais tarde, o que significava que teríamos de esperar em Lima até ao final do dia em vez de viajarmos para a Lagoa de Huacachina à hora de almoço como era a ideia inicial. Por isso o passeio rápido pela Plaza de Armas que tínhamos programado transformou-se num tranquilo deambular por esta capital cinzenta, que decidiu presentear-nos com sol durante o delicioso almoço de peixe com vista para o mar num terraço do meu bairro preferido, Barranco. A meio da tarde separámo-nos: a Cátia e o Ricardo foram ao aeroporto buscar a mochila estraviada e eu fiquei com o Pedro e o Tiago passeando por Barranco e Miraflores. A nossa missão era ir para o terminal da Cruz del Sur e esperar por eles para apanhar o último autocarro para Ica, para o qual já tínhamos os bilhetes comprados. É de referir que a minha colega de casa Floor vinha viajar conosco, tinha saído nessa manhã de Ayacucho e já estava à nossa espera em Huacachina desde meio da tarde.

                Há quem diga que quando as coisas começam mal não podem acabar bem. Eu gosto mais de pensar que quando o azar acontece ao princípio, a partir daí só pode melhorar. O voo em que vinha a mochila da Cátia atrasou e o trânsito da hora de ponta fez com que ela e o Ricardo não chegassem a tempo de apanhar o último autocarro da Cruz del Sur. Não consigo descrever a tensão e o nervosismo. Explicámos a situação aos senhores no terminal e conseguimos atrasar a partida do autocarro em dez minutos, mas as minhas lágrimas em frente a toda a gente não foram suficientes para ganhar o tempo necessário. Decidimos partir eu, o Pedro e o Tiago, e a Cátia e o Ricardo foram de taxi procurar outra companhia que tivesse um autocarro mais tarde. E se não houvesse, teriam de dormir em Lima e viajar para Huacachina no dia seguinte, arruinando completamente os nossos planos de fazer sandboard pela manhã.

                Foi uma viagem de stress, e o sentimento de impotência apoderou-se de mim de tal modo que nem conseguia comer. Só pensava na Floor à nossa espera em Huacachina, o Ricardo e a Cátia em Lima, o grupo tão recentemente unido agora separado. Mas as boas notícias chegaram: eles tinham encontrado outro autocarro e chegariam uma hora e meia mais tarde do que nós. Portanto, nós os três chegámos a Ica à meia noite e apanhámos um taxi para Huacachina, e acordámos a Floor que já estava a dormir no hostel Banana’s. E à uma e meia chegaram o Ricardo e a Cátia. A minha energia já estava a fugir mas era caso para celebrar a tão esperada reunião dos seis, e às duas da manhã fomos procurar um bar que estivesse aberto e onde pudéssemos beber um pisco sour. Não só encontrámos um como fizémos amizade com o dono e os amigos (porque àquela hora já eramos os únicos clientes e eles já estavam “bem acompanhados”), e ainda tivémos direito a um pézinho de dança. Lembro-me que quando começámos a delinear o plano para a viagem tínhamos dito que esta seria a primeira noite de copos. Depois de má sorte e incidentes, o plano cumpriu-se: estávamos os seis em Huacachina a beber um pisco sour. E não tivémos mais nenhum azar até ao fim da viagem, pelo contrário – foi sempre a melhorar. Portanto as coisas que começam mal podem mesmo acabar bem. Muito bem.

Ricardo, Floor, eu, Tiago, Pedro e Cátia no bar La Sirena

                Huacachina é um oásis no meio do deserto da costa do Perú com uma lagoa e muitos hosteis, bares e restaurantes, a quatro horas para sul de Lima. Eu já lá tinha estado uma noite em novembro, na primeira viagem que fiz aqui, a roadtrip com a Celsa, o Otchoa, o Juan e o Willie (lembram-se?). Nessa altura, por falta de tempo, falhámos o ex-libris deste destino: andar de buggy car nas dunas gigantes e fazer sandboard. Este foi o primeiro lugar pelo qual eu me apaixonei no Perú e na altura decidi que havia de voltar. E voltei agora, seis meses depois. Na manhã de domingo, debaixo de um sol brilhante e um calor saboroso saímos de buggy car pelas dunas desse deserto imenso. Andar de buggy car é super fixe! É como andar na montanha russa, dá um arrepio na barriga quando subimos uma duna inclinadíssima e chegamos lá cima para cair a pique pela vertente contrária, e lembro-me de me questionar se a qualidade do carro e a destreza do condutor nos protegeriam de um trambolhão. Não houve incidentes, e nós pedíamos para ir mais depressa.     A minha ideia de fazer sandboard “morreu na praia”. Perante a inclinação das dunas e a velocidade de deslize na prancha acobardei-me e fiquei a registar as acrobacias dos meus amigos. A areia estava morna e era uma delícia andar descalça. Ainda pensei que mais tarde me iria arrepender, mas agora vejo que não. Às vezes há que enfrentar e superar os medos, outras vezes mais vale guardar a energia para medos mais condicionantes. Contentei-me em rir dos trambolhões alheios e contemplar a paisagem de dunas infinitas. Adoro o deserto.

A Lagoa de Huacachina





                O plano para a tarde era apanhar o autocarro para Nazca, onde iríamos dormir nessa noite, mas ainda tivémos tempo de passar umas horas na piscina do hostel, apanhar um solinho, beber uns pisco sours e sentir que estar de férias é fenomenal. Demos uma volta em redor da lagoa e almoçámos no bar da noite anterior (onde encontrámos o dono com uma ressaca daquelas…). Às quatro fomos de táxi para Ica, às cinco apanhámos bus para Nazca e chegámos à hora de jantar. Contrariamente ao meu costume de viagem já íamos com noite reservada porque no Banana’s tinham-nos recomendado um hostel barato mas limpo e com bom ambiente, de modo que foi tudo bastante rápido desde chegar, deixar as malas, tomar uma banhoca e ir dar uma volta. Nazca tem pouco movimento ao domingo à noite e foi difícil fugir dos restaurantes turísticos porque de resto estava quase tudo fechado, mas encontrámos uma tasca para comer uma canjinha e começou a forjar-se nessa noite o espírito que nos iria unir aos seis por toda a viagem: Pa’Nazca travellers.


                Se não fosse pelas famosas Linhas de Nazca, esta seria apenas mais uma cidade castanha e poerenta da costa do Perú. Não tem nada em si mesma que valha a pena passar por cá, e todo o turismo que se desenvolveu gira à volta das Linhas. Aqui é possível sobrevoá-las numa avioneta, ou ver algumas a partir de torres de observação espalhadas pela enormidade de área que ocupam estas misteriosas marcas na planície deserta, deixadas pelos senhores da cultura do mesmo nome que floresceu nesta região a partir do século cinco. Eram conhecidas dos residentes locais mas tornaram-se mundialmente famosas depois da senhora alemã Maria Reiche se fascinar por elas e dedicar toda a sua vida e recursos a estudá-las. Não há uma explicação comprovada sobre a sua exequibilidade, função ou propósito, mas existem muitas teorias especulativas. A minha preferida é a que atribui a autoria a extraterrestres, pois as linhas só são totalmente visíveis do ar devido às suas amplas dimensões (a maior tem trezentos metros de comprimento) e os nazqueños, na sua época, não dominavam engenhos voadores (que se saiba!). As restantes hipóteses são mais plausíveis mas muito menos divertidas.

                Das torres de observação só é possível ver as mais pequenas: a Árvore, as Mãos e o Lagarto. Todas as outras, incluindo as mais famosas como o Colibri, o Macaco ou o Alcatraz, só se podem ver mesmo de avião. Na manhã seguinte o Ricardo e a Cátia decidiram voar enquanto eu, a Floor, o Tiago e o Pedro requisitámos os serviços do Jefry, um taxista muito caricato que nos fez a visita turística às torres de observação com direito a todas as explicações técnicas e esotéricas sobre estas linhas sulcadas no solo pedregoso e árido do deserto, e que se conservam sem qualquer tipo de manutenção desde há milhares de anos, devido ao microclima propício desta região. Teorias à parte, é fascinante observar estas linhas infindáveis perfeitamente rectas e as figuras gravadas no chão, e em parte consigo perceber a loucura da senhora, apesar de achar que tinha de ter uma grande pancada para dedicar toda a vida àquilo.

O deserto de Nazca



A linha do Solstício de Inverno


Torre de observação

As mãos

A árvore

                À tarde a Cátia e a Floor decidiram ficar de passeio pelo centro da cidade e eu e os rapazes voltámos a requisitar o táxi do Jefry e fomos visitar as zonas arqueológicas em redor de Nazca que testemunham a presença de civilizações ancestrais por estas bandas: o Cemitério de Cauchilla e os Aquedutos. O nosso guia privado era muito conversador e revelou-se um interlocutor muito divertido e informativo sobre os locais que visitámos – podia estar a contar-nos uma enorme quantidade de balelas, mas fê-lo com tanta convicção que eu engoli tudo sem duvidar. Foi uma tarde muito bem passada e a paisagem do deserto pedregoso e árido ao pôr-do-sol ficou-me gravada na memória.


O nosso guia Jefry

Cemitério de Cauchilla

 




 



                A primeira viagem nocturna de autocarro foi de Nazca para Arequipa e tivemos uma lua excecionalmente grande que nos deixava ver a paisagem lá fora: o deserto, o Oceano Pacífico, e depois a entrada nas montanhas. O autocarro da Cruz del Sur ia meio vazio o que nos permitiu apoderar-nos dos últimos bancos e de todas as mantas e almofadas disponíveis, e montar um escarcéu de visita de estudo do secundário – foi uma das viagens de autocarro mais divertidas que já tive aqui no Perú. Confesso que por esta altura não andávamos a falar tanto inglês quanto devíamos para que a Floor não ficasse excluída das conversas, e admito que o prazer em falar de novo português com os meus amigos me fez esquecer demasiadas vezes esse dever. Isto aconteceu regularmente durante o resto da viagem e não foi muito correcto da nossa parte. I am sorry Floor, this is my public apologize to you!

                Chegámos a Arequipa às sete da manhã, estremunhados de sono e com um frio de rachar. Fomos directos ao Hostel The Point, uma cadeia de pousadas da juventude aqui no Perú que o Tiago e o Pedro já conheciam por lá terem ficado na primeira noite em Lima. Fomos recebidos por um recepcionista com cara de sono que nos indicou camas disponíveis num dormitório para seis no terraço do hostel. As condições não eram as melhores mas era limpo e confortável, no rés-do-chão tinha um bar, uma mesa de bilhar, casas-de-banho com duches muito limpos, um pátio com esplanada e computadores para acesso livre à internet. E a vista do terraço do nosso quarto compensou tudo. Ao longe via-se o vulcão Misti, velando sobre a cidade com o seu cume nevado.

                Arequipa é a segunda cidade do Perú em população e desenvolvimento e a primeira em cultura e beleza – assim dizem os arequipeños. Há muito tempo que eu ouvia falar desta cidade e tinha muita curiosidade em cá vir, sobretudo porque o Perú é muito rico em natureza e paisagem mas pobre em cidades interessantes, e eu como europeia que sou já tinha saudades da beleza citadina a que estou habituada no velho continente. Arequipa não desiludiu. O dia que passámos a passear pelas suas ruas, praças, pontes e miradouros transportou-me momentaneamente para casa e esqueci-me que estava no Perú. Acabámos o dia com uma experiência única no Convento de Santa Catalina, uma residência de freiras de clausura que é possível visitar à noite. Depois de um pôr-do-sol fantástico num dos terraços percorremos o emaranhado de corredores, salas, pátios e dispensas apenas iluminados por candeias de petróleo e o fogo de lareiras e fornos, e fizémos uma “sessão de fotografias de terror”. O meu medo do escuro garantiu-me uns valentes sustos, sobretudo graças aos meus queridíssimos amigos que se divertiram muito à minha custa, mas foi muito divertido e muito mais interessante do que fazer a mesma visita ao convento durante o dia. Perdemos a visita guiada mas ganhámos umas fotos geniais.

Arequipa: o vulcão Misti visto do nosso hostel

Plaza de Armas












Convento de Santa Catalina





Convento de Santa Catalina by night


A Floor e eu a tentar salvar o Tiago de ser sugado pelo poço dos espíritos!

                Nessa noite tínhamos de dormir cedo porque o dia seguinte ia começar de madrugada: íamos fazer um passeio pelo Canhão de Colca, o desfiladeiro mais profundo do mundo (ainda mais que o Grand Canyon americano) que fica ali mesmo na região de Arequipa. Fomos com um tour organizado porque só tínhamos um dia para esta visita e foi a melhor forma de ver o mais possível. Vieram buscar-nos ao hostel às três da manhã e aí conhecemos o que seria o nosso guia durante esse dia: o Juan, um rapaz novo muito amável e acessível, que respondia a todas as nossas questões e com quem criámos uma boa empatia. O melhor de viajar são os lugares e as pessoas.

                O passeio tinha de começar cedo para chegarmos ao miradouro da Cruz del Condor, a cinco horas de distância, à hora boa para ver o ex-libris voador dos Andes: o condor. O condor é uma ave necrófaga da família dos abutres, com uma envergadura excepcional (até três metros de largura de asas e um metro e meio de altura) e que apenas vive nesta cadeia montanhosa da América do Sul. Nos meus sete meses e meio aqui ainda não tinha visto nenhum, e é um espectáculo impressionante: chegamos a esta zona do Canhão de Colca onde os condores sobrevoam as montanhas sem nenhum medo ou pudor dos turistas que se amontoam nos miradouros construídos para disparar flachadas na fronha dos animais. São imensos, são enormes e aproximam-se muito. São intimidantes, e não fora a certeza de que não são caçadores e só comem carne morta eu teria receio de um ataque. Mas eles parecem apreciar a atenção das pessoas e põe-se a jeito para as fotografias, são muito engraçados. Só é pena a quantidade de turistas a acudir a este lugar, dificultando uma apreciação tranquila da beleza natural e do espectáculo animal oferecido. Com sorte consegui afastar-me da multidão e encontrar um bom ponto de observação um pouco mais isolado, e quase quase conseguia fazer-lhes uma festinha e falar com eles :)

Bem-vindos ao Canhão de Colca...depois de pagarem :)






 
Cruz del Condor



                De caminho para o almoço na aldeia de Chivay parámos num banhos termais que não são em nada superiores às furnas dos Açores mas valem pela água quentinha e pela paisagem deslumbrante das montanhas em redor. Deu para tirar o pó e relaxar. E mais uma vez me senti abençoada por estar de férias, estar no Perú e estar com os meus amigos.

                A estrada de regresso a Arequipa passa pela Reserva Natural de Salinas e Aguada Blanca, uma zona protegida com trezentos e sessenta e cinco mil hectares onde é possível observar rebanhos de lamas, alpacas e vicuñas em liberdade, espalhadas pela planície e pelos montes. O ponto mais alto desta rota é o Miradouro de los Andes, a quatro mil, novecentos e dez metros de altitude, e apesar do frio de rachar parámos para observar os vulcões ao longe e fazer um montinho de pedras tal como os incas faziam quando passavam de viagem por este lugar tão especial: cada pedra do montinho é um pedido de benção à PachaMama, e a planície em redor do miradouro está pejada deles. Daí seguimos directamente para Arequipa, onde chegámos três horas depois, ao som de uma banda sonora muito peculiar: o Juan perguntou se alguém tinha um USB com música e o Tiago passou-lhe o seu, que entre várias bandas tinha o rock português dos Diabo na Cruz. As restantes pessoas do combi não reagiram com muito entusiasmo à rocalhada cantada na língua de Camões, mas o Juan ia a abanar a cabeça ao ritmo. A experiência de viajar num combi peruano no meio do Canhão de Colca ao som de música portuguesa é indescritível! Quando viajamos a nossa casa é o mundo, e pode ser em qualquer lugar.

Vicuñas na Reserva Natural de Salinas e Aguada Blanca


Miradouro Los Andes e os montinhos dos desejos - 4910 msnm




video
Canhão de Colca ao som de Diabo na Cruz


Ricardo, eu, Cátia, o nosso guia Juan, Pedro, Tiago e Floor no regresso a Arequipa

                No final desse dia tivémos a segunda viagem nocturna de autocarro, em direcção ao Lago Titicaca para passar a fronteira para a Bolívia e chegar a Copacabana, e daí ir à Isla del Sol. Foi quando eu comecei a ficar doente, e a ranhoca e a tosse iriam acompanhar-me pelo resto da viagem até voltar a Ayacucho. Nessa noite apanhei mais uma dose de nervos: fomos em dois taxis para o terminal de autocarros e o taxista com quem foram a Catia, a Floor e o Pedro percebeu mal o destino e levou-os para o aeroporto (confundiu terrapuerto com aeropuerto). Really?!? Oh my god! Esperando por eles no terminal com o Tiago e o Ricardo e a ver chegar a hora de partida do nosso autocarro, eu não queria acreditar que aquela situação estava a acontecer outra vez! Na minha mente já desfilavam hipóteses várias de alteração de planos caso o desaire se repetisse, mas desta vez a PachaMama achou por bem dar sossego ao meu coração em risco de enfarte e eles chegaram a tempo. E apanhámos o autocarro da empresa Julsa todos juntos. Ufa!

                Para chegar à Bolívia tivemos de mudar de autocarro em Puno, na margem do Lago, onde eu já tinha estado em dezembro. Chegámos às cinco da manhã, estava um frio de queimar orelhas e no terminal a confusão era total entre vendedores tentando impingir um bilhete de autocarro da sua empresa. Eu costumo ter bastante paciência para lidar com esta pressão tão comum no Perú para vender o que quer que seja, mas estava com demasiado sono e o senhor que me abordou cometeu o erro de ser absurdamente insistente. Não levou a cabeçada que eu tinha vontade de lhe dar para que se calasse e nos deixasse em paz, mas pouco faltou, e por fim lá se foi embora. Acabámos por apanhar um autocarro às seis, e ao chegar à fronteira com a Bolívia repetimos o ritual que eu e a Celsa tínhamos feito há seis meses atrás: sair do autocarro, trocar dinheiro, carimbar o passaporte com o selo de saída do Perú, atravessar a fronteira a pé, carimbar o passaporte com o selo de entrada na Bolívia e voltar a entrar no autocarro em direcção a Copacabana. Pelo caminho a paisagem familiar do Lago Titicaca recordou-me porque queria tanto voltar aqui.

 Passagem da fronteira Perú - Bolívia



                Copacabana é um porto do lago cuja aldeia se desenvolveu unicamente por causa do turismo. Já em dezembro eu reconheci um pouco da Costa da Caparica neste lugar: um amontoado de hoteis, bares, lojas de souvenirs e restaurantes, com a sua rua rincipal que desce da colina até à água. Fora o mercado e a catedral, surpreendentemente grande para a pequena aldeia, não há muito mais coisas típicas para ver. É puro turismo. Mas tem um ambiente que me fascina. Há seis meses atrás era época alta e estava a abarrotar de hippies e de raggae, e eu e a Celsa estivémos aqui apenas um par de horas antes de apanhar o barco para a Isla del Sol. Desta vez eu tinha feito questão de sugerir aos meus companheiros passarmos aqui um dia e uma noite, para poder conhecer um pouco mais e disfrutar do sol nas esplanadas à beira do lago. Agora é época baixa e havia poucos turistas, dando um ar um pouco lúgubre ao centro desta aldeia onde os bolivianos se encontram fora das ruas turísticas, mas permitindo simultaneamente uma estadia mais tranquila.

Lago Titicaca

Copacabana



 A rua principal

                O grande atractivo de Copacabana, para além da ligação aquática à Isla del Sol, é o miradouro no cimo do monte que ladeia a aldeia sobre o lago. É possível subir ao longo de um trilho marcado com as estações da Via Sacra, e fizémo-lo na tarde de quinta-feira dia trinta de maio, depois de um pequeno-almoço tardio e abundante na esplanada de um bar na rua principal, com solinho e música de qualidade, incluindo uma canção de Camané (que não é nada mas mesmo nada conhecido por estas bandas!!). A melhor altura para ir ao miradouro é ao final do dia de modo a chegar lá cima ao pôr-do-sol. Este foi o nosso primeiro treino para o Caminho Inca, e comecei logo a acusar a dificuldade em respirar por causa da altitude (o Lago Titicaca está a três mil e oitocentos metros acima do nível do mar). É muito frustante porque a exigência do caminho nem é muita e fisicamente sinto-me bem – as pernas gostam de caminhar. O problema é mesmo a escassez de oxigénio, o coração começa a saltar do peito e os pulmões a querer sair pela boca. E considerando o nariz entupido e a tosse, ainda pior. Fui subindo a um ritmo quase vergonhoso (que seria a minha imagem de marca nos dias por vir). Mas chegando lá cima a vista é indescritível e esquece-se o cansaço. Tínhamos o pôr-do-sol mesmo à nossa frente e em redor apenas o lago de águas tranquilas, com as margens ao longe. Dali também se vê Copacabana de cima, a baía estendida para o lago, as esplanadas e os barcos que chegam e que vão.







                Depois ficou de noite e o frio começou a descer implacável sobre as nossas cabeças. Toda a minha vida tenho vivido em cidades mais ou menos amenas e o frio intenso torna-se extremo para mim. Até agora não conheço lugar mais frio do que o Lago Titicaca. Como podem imaginar, isso não ajudou em nada à minha constipação, que cada vez se tornava mais ruidosa. Nessa noite encontrámos um restaurante quentinho e acolhedor que parecia tirado de uma estação de sky nos Alpes suíços, e comemos sopa e truta. O cansaço e o frio pesavam-nos no corpo, mas Copacabana era o lugar ideal para a nossa segunda noite de copos, assim que passámos ao bar mesmo em frente, do outro lado da rua, e aproveitámos a happy hour para pedir dois cocktails pelo preço de um e provar algumas especialidades bolivianas. Foi uma noitada curta – antes das onze já estávamos a ressonar, bem enrolados no saco-cama sob os cobertores e com meias de lã de alpaca para não morrer de frio.

                Os lugares pelos quais me apaixonei no Perú até esta viagem estão todos ao pé da água, em variadas formas: Huacachina (oásis), Huanchaco (mar), Isla del Sol (lago). Quando estive no Lago Titicaca em dezembro a experiência foi tão intensa que pedi à PachaMama a possibilidade de cá voltar. E depois de Huacachina, o desejo de voltar à Isla del Sol realizou-se também. Apanhámos o barco comunal em Copacabana na sexta-feira trinta e um de maio à hora de almoço, depois de uma manhã de compras – a Bolívia é o lugar mais barato da América Latina para comprar artesanato têxtil. A viagem dura três horas, e ao contrário de há seis meses atrás o barco estava meio vazio e com tantos bolivianos como turistas. A paisagem familiar desfilava diante dos meus olhos e eu antecipava algo ansiosa a visão da baía e das colinas da parte norte da ilha. Quando chegámos havia crianças no porto à espera dos turistas para lhes ofereceram alojamento nos hosteis dos pais – tal como há seis meses atrás. Desta vez ficámos no Hostal Cultural, a meio caminho entre o porto e a praia, com quartinhos super acolhedores e a inesperada promessa de água quente – que se cumpriu, mas só para alguns de nós. Depois de nos instalarmos fomos à procura de um restaurante e encontrámos quem nos servisse truta e frango apesar de já serem quatro da tarde. Levámos mesas para o sol e almoçámos à beira do lago. Avistavam-se alguns bolivianos e quase nenhum turista, e a Isla del Sol pareceu-me ainda mais bonita do que da primeira vez. Adoro a época baixa. Foi uma benção estar naquele lugar, naquele momento, na companhia daqueles amigos. Obrigada, PachaMama.

Barco comunal


Isla del Sol


 Wilber!






                O dia seguinte amanheceu solarengo e propício aos nossos planos: fazer uma caminhada pelo trilho que atravessa a ilha de norte a sul pelo cimo das colinas. Da outra vez que cá estive com a Celsa e os espanhóis Miguel, Julia e Alex fiz o trilho baixo que segue a linha de costa e chega à aldeia na zona sul. A ideia na altura era regressar pelo trilho alto mas a chuva e as horas apanharam-nos desprevenidos (lembram-se?). Por isso desta vez propus ao pessoal fazer o percurso ao contrário. E assim tivémos oportunidade de visitar as ruínas incas no promontório mais a norte da ilha, lugar em que segundo a lenda, Inti, o deus sol, criou os dois primeiros incas (Manco Capac y Mama Ocllo) que daqui partiram para o Valle Sagrado e fundaram a cidade de Cuzco e o Império Inca. Lendas à parte, o complexo arqueológico é bastante grande e a sua localização genial. Daqui sai o trilho que serpenteia pelos cumes das colinas da ilha até chegar ao sul. Qualquer ponto de vista desta ilha é um postal e é tão fácil encher um cartão de memória com fotos. Eu não me sentia particularmente enérgica devido à constipação e confesso que foi com esforço que caminhei neste dia. O humor também não era o melhor – é difícil passar o dia a fungar e a tossir, sobretudo quando se está de férias e se quer passear. De qualquer modo, a beleza da Isla del Sol é indescritível e estar aqui outra vez fez-me muito feliz. Almoçámos pão com queijo e bolachas no cimo do monte com vista para o lago, e regressámos à aldeia norte pelo trilho baixo, ao longo da praia.






 Ruínas de Chincama, alegado berço da civilização inca



Montinho dos desejos à Pachamama

À chegada esperava-nos um banho quentinho no Hostal Cultural…mas não para todos. A água do depósito acabou e o Pedro, o Tiago, o Ricardo e a Floor já não tiveram a mesma sorte que eu e a Cátia e outro rapaz desconhecido que se intrometeu inadvertidamente na nossa linha de espera para o banho, e tiveram de esperar pela manhã seguinte. Nessa noite encontrámos outro restaurante acolhedor e ameno para comer de novo truta e ficámos a jogar às cartas e a beber cerveja – algo tão típico português que ganhou maior sabor deste lado do mundo. Fomos dormir quando já éramos os únicos e o dono dava sinais evidentes de querer fechar, mas não sem antes o convidarmos para um copito de aguardente de figo que o Tiago tinha trazido de Faro para “intercâmbios culturais”. Era a tardia hora de nove da noite, e o céu sem lua estava pejado de estrelas tão luminosas como lampiões. Teria sido mais uma noite paradisíaca, se eu não a tivesse passado acordada a assoar-me e a tossir.

Na segunda-feira dia dois de junho despedimo-nos da Isla del Sol e regressámos a Copacabana. Eu gosto de pensar que não foi uma despedida defintiva, apesar de saber que com tantos lugares ainda por conhecer neste mundo não vou gastar tempo e dinheiro (tivera eu mais!) para voltar aqui pela terceira vez. Em Copacabana passámos de novo um dia tranquilo a deambular pelas ruazinhas e apanhar sol numa esplanada à beira do lago, e a prepararmo-nos psicologicamente para a viagem nocturna de doze horas que nos levaria de volta ao Perú e até Cuzco, o ponto final da nossa viagem a seis. De novo passámos a fronteira a pé, de novo dançámos a dança dos carimbos no passaporte, e passámos grande parte da viagem a jogar às cartas – o nosso passatempo preferido. Os autocarros da empresa Huayruru são muito confortáveis e dormimos refonfonhadamente. Mais teríamos dormido se não tivéssemos chegado ao nosso destino duas horas antes do suposto (desde quando é que isto acontece no Perú?!). Noutra situação este adiantamento seria útil, mas neste caso foi um problema, simplesmente porque eram…quatro da manhã. O que é que íamos fazer àquela hora e para onde?! No terminal ainda estava tudo fechado e a ideia de ir para a cidade não era animadora. Ficamos a dormir aqui no chão até serem horas decentes? Vamos dormir para a praça até abrir algum café para tomar o pequeno-almoço? Foi então que o Pedro teve uma ideia de génio (àquela hora e com sono, foi mesmo de valor): ele e o Tiago iam dormir essa noite em Cuzco enquanto a Floor ia directamente para Machu Picchu e eu, a Cátia e o Ricardo seguíamos para o Caminho Inca; eles iam ficar alojados no mesmo hostel da cadeia The Point de Lima e Arequipa; então poderíamos ir todos para lá e pedir para ficar nos sofás do átrio que todos os hosteis The Point têm até serem horas decentes para ir tomar o pequeno-almoço. Era uma óptima possibilidade. Foi assim que demos por nós a bater à porta de um hostel às quatro e meia da manhã, ver aparecer outro recepcionista sonâmbulo, e depois de eu explicar três vezes a nossa situação no meu melhor espanhol o rapaz conseguiu conectar o tico e o teco, e lá acedeu a deixar-nos aterrar nos sofás armados de saco-camas e casacos enquanto o Pedro e o Tiago faziam o check-in mais antecipado da história. Às oito levantámos o acampamento improvisado e saímos para ver Cuzco à luz do dia.

Cuzco.

Só o nome provoca-me descargas eléctricas pelos nervos da cabeça aos pés. Para mim esta é a cidade mais bela do Perú, e qualquer lisboeta que cá venha percebe logo porquê. Não me canso de a visitar, poderia viver aqui um período da minha vida. Fomos à Starbucks tomar o último pequeno-almoço juntos por meu manifesto desejo, andava há dias a augar um “bom” café. Além disso, o edifício fica numa das esquinas da Plaza de Armas e é um óptimo ponto de observação da cidade – eu já tinha descoberto isso em dezembro com a Celsa. E foi nessa esquina que eu olhei Cuzco nos olhos pela primeira vez há sete meses e me apaixonei.

Nessa manhã começaram as despedidas que haviam de marcar a minha recordação de Cuzco até ao fim da viagem: a Floor abandonava o grupo e ia directamente para Aguas Calientes, para visitar Machu Pichu no dia seguinte e daí regressar a Ayacucho. Não seria uma despedida por aí além não fora o facto de estes serem os seus últimos dias no Perú: durante o meu Caminho Inca ela iria fazer a sua festa de despedida em Ayacucho e quando eu voltasse da viagem ela já estaria em Lima para apanhar o voo de regresso à Holanda, porque tinha acabado o projecto de voluntariado. Ou seja, aquela foi uma despedia até não sabemos quando, até à próxima vez que nos virmos na Europa ou sabe Deus onde. As despedidas são um ritual necessário para que o espírito assimile a separação mas cada vez mais me pesam, me afligem e me deixam marcas que eu não sei se estarão a cicatrizar convenientemente.  

Depois do pequeno-almoço eu, a Cátia e o Ricardo tivémos o briefing informativo sobre o Caminho Inca, e o Tiago e o Pedro foram conosco à agência Waiki Trek saber mais sobre passeios no Valle Sagrado e como ir para Machu Pichu. A ideia era eles passarem esses dias na região e encontrarem-se conosco no final do nosso trekking para passarmos juntos a última noite de viagem. Foi nessa manhã que conhecemos os nossos guias Edgar e Javier e os integrantes do grupo que seria a nossa pequena família para os quatro dias seguintes: os australianos Chloe e Troy, os canadianos Brad, Andrew e Jaff e a americana Janessa. À primeira impressão eu morri logo de susto: tinham todos um ar super experiente de trekkings e um físico super apto. Eu percebi naquele instante que o nível de exigência ia ser elevado e que eu ia ser a última do grupo. Não me enganei. O guia Javier explicou o plano para o Caminho no seu inglês surpreendentemente impecável para um peruano e eu demorei bastante tempo a desligar o meu chip de português e passar para inglês. O meu tico e o meu teco ainda estavam perdidos entre a Isla del Sol e o átrio do hostel The Point, e a clareza de espírito que aquela gente demonstrava àquela hora da manhã assustou-me indescritivelmente.

Acabado o briefing, era hora de desfazer as mochilas de duas semanas e refazê-las com o indispensável para os quatro dias de Caminho. Havia a possibilidade de contratar um carregador para levar a minha mochila, mas aliando os sessenta dólares que teria de pagar extra do balúrdio doloroso que já foi o Caminho Inca, à recordação das minhas caminhadas escutistas de mochila às costas, decidi que ia levar o mínimo possível de roupa e nenhuma tralha inútil, e carregá-la eu mesma. No final a minha mochila pesava oito quilos, e lá dentro levava uma muda de roupa, uma camisola e um casaco, gorro e cachecol, sabão, escova e pasta de dentes, desodorisante, protector solar e máquina fotográfica. E o saco-cama. E os chinelos. E o passaporte. E mais nada. E mesmo assim pesava oito quilos! Chiça!

Depois de uma banhoca e um almoço apressado começámos a nossa Waiki Experience. A agência Waiki Trek foi fundada por um senhor nativo de uma aldeia no Valle Sagrado e complementa o pacote geral que todas as agências oferecem para o Caminho Inca com um extra incluído no preço: uma tarde e uma noite nessa mesma aldeia para conhecer o estilo de vida dos camponeses e partilhar das rotinas deles. Inacreditavelmente, nós os três fomos os únicos do grupo a aceitar a experiência. Encaminhados pela Maruja, natural da aldeia e guia na Waiki Trek, apanhámos um taxi e depois um autocarro e depois um combi carregado de miúdos, e chegamos a Huayllaccocha uma hora e meia depois.

Huayllaccocha é uma aldeia típica do Valle Sagrado onde as pessoas se dedicam à agricultura, vivem de um modo singelo, trabalham de sol a sol e comem o que a terra lhes dá. A Maruja levou-nos a ver os homens no campo a arar a terra com carros de bois, as mulheres com os burros carregando sacos cheios de maçarocas de milho, e explicou-nos tudo sobre os costumes e os cultivos daquele lugar. Ajudámos a mãe dela a preparar o jantar e a adiantar o pequeno-almoço do dia seguinte (sopa de milho, milho cozido, milho tostado, bolinhos de milho frito, ponche de favas e batata - esta gente enfarda hidratos de carbono que é uma loucura), descubrimos uma casa de banho exclusiva para nós e de fazer inveja a qualquer hotal de cinco estrelas, e dormimos em colchões num antigo celeiro, depois de quase termos morrido intoxicados pelo fumo do braseiro que a Maruja lá veio pôr para aquecer o ambiente. Ou bem que morremos de frio, ou bem que morremos de fumo, mas de certeza que não morremos de aborrecimento!


 
Huayllaccocha, Valle Sagrado








A casa dos pais da Maruja



A nossa casa de banho!


Porquinho da índia!

Terça-feira dia três de junho foi o início do Caminho Inca. Os guias Javier e Edgar vieram buscar-nos numa carrinha da Waiki Trek com o resto do grupo e seguimos para Ollantaytambo, a última aldeia do Valle Sagrado antes de Aguas Calientes e Machu Pichu, onde parámos para beber um café e comprar as últimas utilidades antes de nos pormos em marcha.

O Caminho Inca era o caminho real que os incas percorriam de Cuzco ao Santuário Sagrado de Machu Pichu, onde deveriam ir em peregrinação uma vez por ano segundo os seus costumes religiosos (como Meca para os muçulmanos). Este caminho sai de Cuzco em direcção ao Valle Sagrado, passando pelas suas várias povoações, e depois de Ollantaytambo embrenha-se nas montanhas, sendo os últimos quarenta e dois quilómetros correspondentes ao Caminho Inca oficial que se pode percorrer actualmente.

Quando os espanhóis chegaram a Cuzco e derrotaram o império inca, um ano depois de terem aportado na que é agora a cidade de Lima, os incas fugiram pelo vale para a aldeia de Vilcabamba e destruíram o trilho para Machu Pichu. Por isso os conquistadores chegaram a Ollantaytambo mas não descubriram o santuário, porque tinham sido apagadas todas as evidências da sua existência. E só foi descuberto já no século passado pelo americano Hiram Bingham porque este andou a curiosar em busca de Vilcabamba, o último refúgio dos incas, e por coincidência chegou ao lugar sagrado de Machu Pichu e depois descubriu o caminho real ao fazê-lo ao contrário, em direcção a Cuzco.

Por isso, a maior parte do Caminho Inca que se pode percorrer hoje foi reconstruído, sendo apenas os últimos nove ou dez quilómetros constituídos pelos degraus e pedras originais que os incas lá puseram. O trilho está dentro do Parque Nacional do Caminho Inca, gerido pelo Instituto Nacional de Cultura do Governo Peruano, e se até ao final do século passado era possível caminhá-lo livremente, sem agências, sem guias e sem pagar, hoje em dia já não é, o número diário de pessoas está limitado e existem regras de comportamento muito restrictas por questões de conservação. E por questões de dinheiro, convenhamos também. O balúrdio que duzentos turistas diários pagam para poder entrar no parque e percorrer o trilho é uma grande fonte de lucro para o estado peruano. Entre o bilhete de entrada no parque, o bilhete de entrada em Machu Pichu e o bilhete de comboio de regresso a Cuzco, o que sobra para a agencia nem é muito, considerando que são quatro dias de “pensão completa”, onde inclusive nos dão água, fruta e bolachas para o caminho. E a um grupo de nove caminhantes correspondem cerca de catorze carregadores, que levam as tendas, os pratos, os copos, os talheres, os alguidares, o fogão e a botija de gás, os vegetais e toda a comida e material necessários para os quatro dias, desde o momento em que saímos de Cuzco. É toda uma infraestrutura impressionante, e a Waiki Trek geriu-a de forma impecável.

A reserva do Caminho Inca pode ser uma aventura, devido à limitação diária. Eu, a Cátia e o Ricardo começámos a planificar isto em janeiro e toda a restante viagem girou em redor das datas em que havia disponibilidade no trilho. Por isso é que, com cinco meses de antecedência, só conseguimos comprar entradas para a primeira semana de junho. Existe uma míriade de agências peruanas e internacionais, mais baratas e mais caras, que oferecem serviços para o Caminho Inca. Entre os vários níveis de preço as condições são todas muito parecidas entre si, e as agências incluem mais ou menos os mesmos serviços. Por isso não é nada fácil escolher. Eu baseei-me no meu guia South America Handbook, que anteriormente já me tinha prestado informações credíveis e preciosas viajando pelo Perú, e juntamente com a Cátia e o Ricardo comparámos preços, procurámos opiniões e conselhos na internet e acabámos por escolher a Waiki Trek pelos seguintes motivos: é uma agência nativa e não estranjeira, ou seja, o dinheiro que pagamos fica no Perú; não é a oferta mais barata nem a mais cara, ficando ali no meio em que se costuma dizer que está a virtude; e oferece o extra da Waiki Experience inteiramente gratis como já vos contei.

Eu não costumo gostar de tours organizados, nem de andar em rebanho atrás de um guia, nem que me condicionem o tempo e a vontade. Confesso que nesta viagem tivémos óptimas experiências com o Jefry em Nazca e o Juan no Colca Canyon, e não havendo outra alternativa para percorrer o Caminho Inca, considero que fomos verdadeiramente abençoados com sorte: o Edgar e o Javier são os melhores guias que algumas vez conheci, super profissionais mas simultaneamente humanos e muuuuuuuito divertidos e animadores; os carregadores da Waiki Trek fazem um trabalho impressionante e todo o serviço da agência tem cinco estrelas de qualidade – inclusive o menú escolhido para as refeições; a relação hierárquica na empresa está muito diluída, e o reconhecimento do trabalho é constante e mútuo. Conseguem transmitir aos caminhantes o verdadeiro sentimento de uma família, durante quatro dias fomos a Waiki Family e eu senti isso no fundo do coração. Também tivémos muita sorte com o grupo: depois do choque inicial e de algum desconforto da minha parte fomo-nos conhecendo e ganhando confiança, partilhar o caminho aproximou-nos e criou uma enorme cumplicidade entre todos. E ao fim de quatro dias éramos mesmo uma família, em que cada personalidade distinta e as manias pessoais tinham espaço para se manifestarem. Além disso, importa referir que éramos todos pessoas de mente aberta e muito divertidas. Foi um óptimo grupo e tenho muitas saudades vossas, Cátia, Ricardo, Brad, Andrew, Jaff, Chloe, Troy e Janessa.

Depois de Ollantaytambo seguimos de carrinha para o ínicio oficial do Caminho Inca, o primeiro posto de control no lugar de Piscacucho. Aí mostrámos os passaportes e recebemos um carimbo de entrada – uma espécie de “visto de turismo” para o Parque Nacional do Caminho Inca. E tirámos a nossa primeira fotografia de grupo. É curioso olhar para esta foto agora. Nessa altura ainda éramos todos estranhos uns para os outros, estávamos frescos e enérgicos e sabíamos mais ou menos o que nos esperava, mas não tínhamos nenhuma noção do que ia acontecer ao longo dos quarenta e dois quilómetros que íamos caminhar nos quatro dias seguintes.

Últimas preparações em Piscacucho

Troy, Jaff, Chloe, Janessa, Cátia, eu, Brad, Ricardo e Andrew: the very beginning!





O primeiro dia de caminhada foi relativamente fácil. Percorremos um total de onze quilómetros em cerca de seis horas, com pequenas pausas para descanso e paragem para almoço. O caminho serpenteava pelas montanhas e subia sem demasiadas inclinações até aos três mil metros de altitude onde pernoitámos no primeiro acampamento do Caminho Inca, Wayllabamba, que em quéchua significa algo como “planalto relvado”. Eu senti desde logo a escassez de oxigénio e a dificuldade em respirar, fui desde logo a mais lenta do grupo e a última a chegar às pausas e ao almoço, mas mantive um ritmo bastante bom e não sofri muito. A paisagem durante todo o dia foi indescritivelmente bela. Não era nova para mim, já estou habituada às montanhas, mas foi a primeira vez que fiz um trekking embrenhada nelas, e a sensação é muito diferente de andar de carro na estrada. O céu esteve quase sempre nublado, o que ajudou à caminhada. Não estava calor nem frio. Perfeito.







 
Qoriwayrachina 

Ao longo do caminho o Javier e o Edgar colocavam-se no princípio e no final do grupo e iam conversando conosco, contando-nos curiosidades sobre o trilho, informações sobre a história dos incas, e partilhando experiências do Caminho. Eram extremamente acessíveis para qualquer dúvida ou questão que tivéssemos e a tudo davam um tom amigável, tranquilo e divertido. Foram sem dúvida um factor imprescindível para o sucesso da nossa experiência. E avisaram-nos que no Caminho Inca existem três regras: “No whining, no crying, no dying”. Eu nunca lamuriei mas quebrei a segunda regra e quase quebrei a terceira, como vos contarei mais adiante.

Nessa noite deitámo-nos cedo depois de um jantar delicioso e uma garrafa de vinho carregada pelo Brad e partilhada entre todos. É de ressaltar com louvor a qualidade da comida que nos serviram durante os quatro dias, digna de restaurante e nunca por mim imaginada para uma situação de caminhada e acampamento. É incrível pensar que o chef cozinhava aqueles petiscos num fogão de campismo dentro de uma tenda de campanha. As porções eram algo pequenas, sobretudo para os rapazes que eram todos cavalões, mas tínhamos direito a entrada, sopa, prato, sobremesa, sumo e chá, e para o pequeno-almoço panquecas, iogurte, fruta, pão, chá, café e leite com chocolate. E às cinco era hora de chá e bolachas. A nossa rotina desses dias consistiu em acordar às cinco e meia da manhã, tomar o pequeno-almoço e arrumar as tralhas para sair de campo às sete. Entre a uma e as duas almoçávamos, às cinco da tarde tínhamos o lanchinho e às sete jantávamos, para às oito e meia já estar a dormir.

Na manhã do segundo dia eu e a Cátia acordámos com água dentro da tenda. Tinha chovido durante a noite e como a tenda não estava devidamente montada passou água do duplo tecto e pingou por cima das mochilas e da roupa. Foi o primeiro contratempo e confesso que fiquei um pouco mal-humorada, montar tendas não é uma ciência estratosférica e eles deviam ter já muita experiência naquilo! Além disso, é péssima a sensação de acordar molhada. O responsável das tendas pediu desculpa e prometeu que não voltaria a acontecer – e não aconteceu mesmo, porque o senhor passou o resto dos dias de roda da nossa tenda e cada vez que chovia vinha por-lhe plásticos extra em cima. Depois do pequeno-almoço o Javier e o Edgar apresentaram-nos a equipa de chasquis, os carregadores. Chasquis eram os mensageiros do antigo império inca que percorriam as estradas do Andes transportando mensagens de uma ponta à outra do território, subindo e descendo as montanhas a uma velocidade impressionante e integrando uma rede de comunicações muito bem montada, com pontos de controlo e descanso onde os chasquis passavam a mensagem ao seguinte. Graças a este sistema os incas podiam comunicar rapidamente entre si, desde a capital Cuzco até Santiago do Chile e Quito no Ecuador.

Em honra dos antigos mensageiros incas e pela destreza física que apresentam, os carregadores do Caminho Inca também são chamados afectuosamente de chasquis, e é graças à sua capacidade de carga e de locumoção que nós, gringos, podemos viver intensamente esta experiência. A equipa Waiki Trek é constituída por catorze chasquis, cada um com uma função específica, desde o cozinheiro ao montador de tendas, e o Javier apresentou-nos cada um deles pelo nome e explicou a importância da sua função. Foi um momento muito bonito e que nos abriu a todos os olhos para a importância do trabalho destes homens que carregam vinte a trinta quilos às costas para que nós possamos comer e dormir no final da nossa jornada. E também nos ensinou que quando os víssemos passar ao longo do Caminho, devíamos encostar-nos ao lado esquerdo do trilho para deixá-los passar à sua velocidade em muito superior à nossa, e devíamos gritar “Chasquis!” para que os caminhantes à nossa frente soubessem que vinham aí carregadores. Esta expressão tornou-se familiar na nossa rotina desses quatro dias tantas foram as vezes que passámos a utilizá-la. E ainda agora me faz sorrir.

A Waiki Family de 4 a 7 de Junho de 2013

 Chasquis!


                Este segundo dia foi o mais duro, e teve para mim um significado muito profundo de superação pessoal. Foram cinco horas seguidas a subir uma vertente muito inclinada que não amainava, até ao ponto mais alto do Caminho, Warmiwañusca ou “Passagem da Mulher Morta”, a quatro mil e duzentos metros de altura. Esse ponto é assim denominado porque olhando-o a partir da base da montanha tem a forma de uma mulher deitada (mas para mim o significado foi outro!!) O nosso grupo era bastante rápido e chegou lá cima antes do tempo, mas eu e o Ricardo estávamos a ter bastante dificuldade em respirar e fomos ficando para trás. O Javier e o Edgar iam alternando em fazer-nos companhia, mas houve muitas alturas em que segui o meu próprio ritmo e caminhei sozinha. Estes momentos de solidão no meio da montanha foram preciosos, apesar de nunca terem durado muito porque havia sempre chasquis e outros caminhantes a passar por mim. No entanto, não era a multidão que eu temia, os duzentos caminhantes e trezendos carregadores diários dispersam-se muito ao longo do Caminho permitindo uma experiência bastante individual. Senti-me envergonhada quando fui ultrapassada por um casal de setenta anos em plena forma física, mas quando o Edgar me apanhava depois de me ter dado um avanço de propósito dizia sempre que eu estava a ir muito bem e que não tinha de me preocupar. Estava sempre atento ao meu ritmo cardíaco e lembrava-me de respirar devagar, e a certa altura até pôs música no Iphone para me dar ânimo.

Warmiwañusca lá em cima à minha espera


video

DJ Edgar, obrigada pelo apoio moral

                A mochila pesava-me e eu avançava devagar. Comecei num jogo divertido com o casal de setenta anos entre ultrapassagens mútuas quando fazíamos pausas para descansar. A certa altura a dificuldade em respirar agudizou-se e eu comecei a ver as coisas mal paradas. A garganta parecia fechar-se como quando se tem um choque anafilático, e eu tinha de parar e dizer-lhe mentalmente para me deixar respirar. Ao longe via Warmiwañusca e em redor as montanhas, as lamas e as alpacas, e depois um troço embrenhado na floresta. Foram momentos que não consigo descrever em palavras. Foi muito mais duro do que eu já estava à espera, e apesar de nunca ter sentido que não ia conseguir, questionava-me quantas horas extra ia demorar, pelo ritmo lentíssimo a que avançava e as pausas frequentes que precisava de fazer. Muitas vezes praguejei em silêncio: “F*** the incas!”

                A cerca de dez metros do cume os meus colegas de grupo, já chegados há muito, começaram a chamar por mim e a dar-me ânimo. Foi quando colapsei. A minha garganta fechou-se definitivamente e sentei-me sem conseguir respirar. No sofoco tentei não entrar em pânico mas não consegui controlar-me e desatei a chorar. O Ricardo e o Edgar estavam comigo, e ele sacou da bomba de oxigénio que carregava na mochila para me dar uma drunfada. Eram quatro mil e duzentos metros de altitude, cum catano! Mas eu chorava porque só faltavam dez passos e eu estava a “morrer na praia”! Nesta altura lá em cima já estavam todos a gritar por mim e ficaram-me gravadas nos ouvidos as palavras do Javier: “Vamos, preciosa, tu puedes!” O Brad tinha descido para gentilmente se oferecer para levar a minha mochila, mas entretanto eu já estava a recuperar e declinei a oferta agradecida e lisongeada. Não podia desistir agora. Havia de chegar lá cima com a minha mochila às costas e pelo meu próprio pé. Diz quem viu que depois do dopping eu fiquei em altas e subi os últimos metros quase a voar. Chegando ao cume fui aplaudida e festejada, e tirámos a segunda foto de grupo. Tinham ficado todos à minha espera (imenso tempo, claramente) e não se foram embora sem eu chegar. E eu cheguei! Foi uma sensação brutal e precisei de algum tempo para me recompor antes de pensar no que vinha a seguir. E comecei a chorar de emoção. Segunda regra quebrada, terceira regra foi por pouco! Mas como dizia o Javier, “what happens in the Inca Trail stays in the Inca Trail”, portanto ninguém precisa de saber.

Estou a chegar!


Waiky Family em Warmiwañusca - 4200 msnm

                Quem muito sobe, muito terá de descer. Os incas foram um povo muito à frente mas desconheciam a tecnologia para construir túneis através das montanhas. Por isso, depois de cinco horas para subir mil e duzentos metros descemos durante mais duas até ao lugar do almoço, que seria também o acampamento para essa noite: Pacaymayu, a três mil e seiscentos metros de altitude. Enquanto todos se queixavam dos joelhos (é verdade que descer é muito mais violento para o corpo do que subir) eu estava feliz da vida – não me doía nada, não me custava respirar, o meu coração não me atraiçoava. E durante duas horas não fui a última do grupo.

                Depois do almoço mais tardio e mais merecido do Caminho passámos o resto da tarde a descansar no acampamento. O Troy sacou da garrafa de vinho que ele também tinha trazido e partilhou-a, o Andrew seguiu a onda e abriu uma garrafa de pisco, a Cátia ofereceu-nos marshmallows. O Javier e o Edgar contaram-nos imensas históricas cómicas ou trágicas de outros turistas com quem fizeram o Caminho, e cada um foi partilhando experiências de outras viagens e outros trekkings. Foi uma tarde feliz, com um sentimento de conquista no peito. À noite o céu estava tão estrelado que quase não havia um centímetro escuro e antes de dormir eu, a Cátia e o Brad começámos uma disputa a ver quem via mais estrelas cadentes, enquanto o Ricardo andava à volta da sua câmara a fazer longas exposições.

O segundo acampamento, em Pacaymayu - 3600 msnm

                O terceiro dia foi o mais cultural. A paisagem muda radicalmente ao entrarmos numa zona de selva húmida e luxuriante repleta de árvores, musgos e insectos. Não houve subidas pronunciadas e eu consegui manter o ritmo do grupo e não ficar para trás. Foi também o dia em que passámos por vários lugares arqueológicos, ruínas de cidades incas e postos de controlo para os antigos chasquis. É um previlégio poder visitar estes lugares de ruínas tão bem conservadas e praticamente vazias – só passa por aqui quem percorre o Caminho, ficando estes lugares vedados ao público em geral. Podemos apreciá-los com silêncio e tranquilidade e vaguear sozinhos sem mais turistas. O Javier explicava a história de cada lugar onde parávamos e respondia a toda e qualquer dúvida nossa. De novo senti que se fosse tudo invenção eu não me importava e acreditava, tal era a convicção com que ele falava. Por esta altura os guias já me chamavam “a peruana”, em virtude de falar espanhol, viver cá e partilhar da sua cultura. Este facto aumentou ainda mais o à-vontade e a confiança que desenvolvi com eles durante estes dias.

                Nessa tarde começou a chover e assim continuou por três horas seguidas, coincidindo com a última descida para o último acampamento, numa sucessão de degraus que parecia nunca mais acabar. Até eu já me queixava dos joelhos e mais uma vez amaldiçoei os incas no meu pensamento. Muito subir para depois muito descer! Tínhamos de nos concentrar tanto nos degraus escorregadios e areias resvalosas que quase não podíamos levantar a cabeça para apreciar a paisagem. Mas de vez em quando eu fazia uma pausa e ficava boquiaberta: uma bruma envolvia a montanha e não se via nada do precipício para baixo. A chuva continuava a cair sem misericórdia sobre as enormes folhas verdes da vegetação espessa. Estávamos empapados até aos ossos.




Chaquiqocha




Edgar, eu, Janessa, Ricardo, Andrew, Brad, Jaff, Catia, Triy, Chloe e Javier: almoço de luxo.

Um túnel natural

Sayaqmarca


Passagem de Runkuraqay - 3710 msnm

                À chegada ao acampamento ao final da tarde o humor era pesado. Continuava a chover e dentro das tendas era impossível secar roupa e sapatos molhados. Reunimo-nos na tenda das refeições e todos se questionavam apreensivos sobre as previsões metereológicas para o dia seguinte – é que as mudas de roupa eram poucas e sapatos eram só um par! O Javier e o Edgar tentaram elevar-nos a moral, bebemos chá e jogámos às cartas. E quando parou de chover fomos ver o sítio arquológico perto do acampamento, o último antes de Machu Pichu: Wañyawayna, em quéchua “Para sempre jovem”. Foi uma estupefacção! É impressionante! É um aglomerado extremamente bem conservado de casas e terraços agrícolas empinados numa vertente inclinadíssdima, correspondente ao último lugar de pernoita dos peregrinos antes de chegar ao santuário sagrado. E estava TO-TAL-MEN-TE vazio, ruínas incas só para nós! Foi uma surpresa fantástica que elevou a moral de todos e nos fez sentir que os sapatos molhados já não importavam assim tanto – estávamos ali os nove a presenciar aquele espectáculo. Ainda tivémos oportunidade de confraternizar com umas lamas muito simpáticas que cirandavam por ali e se punham a jeito para a foto.


Wiñaywayna

                Nessa noite jantámos cedo, despedimo-nos da nossa equipa de chasquis com discursos e fotografias, e fomos dormir ansiosos – no dia seguinte tínhamos de acordar às três e meia para ir para Machu Pichu! Estávamos às portas do nosso destino! Durante a noite voltou a chover e eu acordei muitas vezes com os nervos e o frio. Não sei quanto dormi, mas tinha aquela estranha sensação de ter estado sempre acordada.

                Na sexta-feira dia sete de junho de dois mil e treze tomámos um pequeno-almoço apressado, arrumámos a nossa tralha e rumámos ao último posto de controlo antes de Machu Pichu. O posto só abria às cinco e meia, mas a ideia era chegar lá o mais cedo possível para ganhar um lugar sentado e protegido debaixo do alpendre onde cabiam apenas trinta ou quarenta pessoas abrigadas da chuva. Tivémos, portanto, de esperar uma hora antes da abertura do posto, e passámo-la na conversa. Às cinco e meia seguimos viagem: a previsão era chegar ao Intipunku, o “Portão do Sol” em uma hora e depois caminhar mais uma até Machu Pichu. No Intipunku teríamos a primeira visão do nosso tesouro.

                Caminhámos na escuridão durante bastante tempo até começar a clarear a aurora. Não vimos o nascer do sol porque o céu estava nublado, e à nossa volta as montanhas estavam envoltas em neblina. Os últimos metros antes de chegar ao Intipunku são degraus íngremes e altos – o Caminho é sofrido até ao fim! Comentávamos entre nós que os espanhóis, na verdade, haveriam descoberto o trilho, mas com tanta subida e descida teriam mandado o santuário à fava. No cimo, o clímax: Machu Pichu no horizonte! O mais ridículo é que eu sabia que aquele era o primeiro ponto de onde o podíamos ver, mas quando cheguei lá cima nem o reconheci. Demorei alguns segundos a dar-me conta do que os meus olhos viam, enquanto à minha volta os meus companheiros explodiam em emoção e abraços. Aqui tirámos a terceira foto de grupo, e ouvimos mais uma explicação do Javier. Tínhamos chegado! Tínhamos conseguido! Estávamos em Machu Pichu!!!


Intipunku - o Portão do Sol

A primeira visão de Machu Pichu



Chegámos!!!

 Se o Javier diz, eu acredito! :)

                No caminho de descida encontrámos o Tiago e o Pedro que tinham vindo para Aguas Calientes na noite anterior e agora se juntavam a nós para o resto da tour. Entrar em Machu Pichu foi um choque: estava cheio de gente! Mesmo àquela hora precoce da manhã já havia imensos turistas, e durante o dia foi enchendo ainda mais. Depois de quatro dias longe da civilização e mal habituados a ter ruínas vazias só para nós, chegar ao nosso destino sonhado e vê-lo a abarrotar de pessoas foi um balde de água fria na nossa emoção. Sentíamo-nos especiais, sentíamo-nos superiores: nós tínhamos caminhado o Caminho Inca, nós tínhamos chegado ali A PÉ! Nós merecíamos Machu Pichu! Enquanto passávamos com os nossos mochilões no meio dos outros visitantes frescos e fofos íamos gritando “Chasquis! Chasquis!” e sentíamo-nos verdadeiramente incas como os nossos carregadores.

                Percorremos o santuário ao som das explicações do Javier, que em cada canto nos contava uma história e aumentava o nosso saber. Machu Pichu é sagrado pela sua localização especialíssima na encosta de uma montanha, pela distribuição única das montanhas em redor e pelo alinhamento do sol nos solstícios de verão e de inverno. A técnica construtiva e o engenho astronómico são impressionantes e é impossível não ficar fascinado ao pensar que esta coisa foi construída há mais de quinhentos anos atrás. Infelizmente, Machu Pichu não foi concluído devido à chegada de nuestros hermanos a Cuzco, os acessos foram destruídos e esta cidadela sagrada ficou envolta em bruma e desconhecimento até ao século passado. Imaginem a estupefacção do americano quando por acaso deu com a fronha neste tesouro! Aí não havia turistas, mais de metade do complexo estava coberto de selva e o senhor teve a sorte de ser o primeiro a sentir a aura mágica deste lugar. E durante quase um século os visitantes puderam vê-lo dessa forma também. Lembrei-me inevitavelmente do Che Guevara e da cena do filme “Diários de Motocicleta”: foi esse filme que me mostrou Machu Pichu e me pôs este sonho no coração. E agora, nove anos depois, eu cheguei para realizá-lo. Finalmente!

Brad, Ricardo, Troy, Jaff, Andrew, Chloe, eu, Catia, Janessa
Waiky Family no Machu Pichu - 7 de Junho de 2013 - never forget!









                A meio da manhã o grupo dividiu-se: eu, o Ricardo e os canadianos tínhamos bilhete para subir a Wayna Pichu, a montanha atrás do santuário, enquanto os restantes seguiam a visita às ruínas com o Javier. Marcámos ponto de encontro num restaurante em Aguas Calientes, para almoçarmos juntos e nos despedirmos dos nossos queridos guias. Depois de quatro dias acima e abaixo nas montanhas com a mochila às costas, subir aos dois mil e novecentos metros sem peso foi canja. Claro que a respiração acusou, claro que o ritmo não foi acelerado. Mas cheguei lá cima ao fim de cinquenta minutos sem precisar da minha amiga bomba de oxigénio, apesar das condições de subida, dos degraus íngremes e do perigo iminente, razão pela qual todo o visitante tem assinar, à entrada, um termo de responsabilidade pela própria integridade física ao decidir subir à montanha. Chegando lá cima, a estupefacção, o deslumbramento, Machu Pichu visto de cima! Montanhas majestosas e cumes nevados caindo a pique sobre o rio e os vales. É indescritível, é sem dúvida o lugar mais bonito do mundo onde eu já estive até agora. E em tão boa companhia!


Subindo ao Wayna Pichu

Machu Pichu visto de cima



Eu, Andrew, Ricardo, Jaff e Brad no topo do topo

                À saída de Machu Pichu carimbámos os nossos passaportes com o selo oficial, ao lado do carimbo do Caminho Inca. Estava feito! Apanhámos o autocarro que desce para Aguas Calientes, que é uma aldeola horrorosa feita de hotéis, bares e restaurantes, e que existe unicamente como estação de chegada do combóio que traz turistas de Cuzco. Encontrámos os nossos companheiros e os nossos guias em amena cavaqueira no restaurante e aí partilhámos o último almoço todos juntos. A emoção transpirava por todos os poros, sentíamo-nos como aventureiros que sobrevivem a uma expedição arriscada, e agora podíamos relaxar, comer, beber e vangloriar-nos do nosso feito. Chegou o momento da despedida, o Javier e o Edgar tinham de ir à vida deles, aquele era o ponto final da Waiki Family e daqueles quatro dias no Caminho Inca. Trocámos contactos, agradecimentos, abraços e algumas lágrimas: foram os melhores guias que tive o prazer de conhecer até agora.


Obrigada Edgar e Javier, até à próxima!

                Muitas pessoas peruanas e estranjeiras me disseram nos últimos meses que o Caminho Inca perdeu o seu encanto por se ter tornado num circuito turístico, comercial e demasiado organizado, e que existem outros trilhos alternativos para ir a Machu Pichu que são igualmente bonitos e aventurosos e que ainda se podem caminhar sem agências nem bilhetes de entrada. Eu até concordo, em parte, com esta opinião. Mas independentemente destes factores, o Caminho Inca é o Caminho Real original que os incas percorriam na sua peregrinação anual, e é o único trilho que chega directamente ao Portão do Sol e daí a Machu Pichu – todos os outros trilhos alternativos chegam a Aguas Calientes, e daí é preciso apanhar o autocarro ou subir pela estrada. E digam o que disserem, turismos e comercialismos à parte, o Caminho Inca oficial é um trilho brutal e caminhá-lo é uma experiência inesquecível. Não me venham cá com tretas.      

Depois do almoço tivémos tempo para beber um pisco sour à beira rio antes de apanhar o comboio de regresso a Cuzco. Aqui ocorreu o segundo e último contratempo acusável à Waiki Trek: por falta de organização e erro de entendimento deles há muitos meses atrás, não tinham reservado bilhete de regresso para mim e para o Ricardo no mesmo comboio em que iriam os restantes membros do grupo. Assim, tivémos de deixá-los mais cedo para nos voltarmos a reunir três horas depois na estação de Ollantaytambo, onde nos esperava a carrinha da Waiki Trek para nos levar a Cuzco. À chegada deles eu e o Ricardo tínhamos preparado uma pequena recepção com pisco, um modo de retribuir todas as partilhas de cada um deles durante o Caminho.

                Atravessámos o Valle Sagrado e chegámos a Cuzco às nove da noite. Fomos de novo para o Hostel The Point e tomámos o primeiro banho em quatro dias. Nunca me questionei se as pessoas em redor sentiam o nosso cheiro, nos meus olhos estava escrito “Caminhante do Caminho Inca” e isso respondia a todas as perguntas. Apesar do cansaço ainda tivémos energia para ir jantar com os canadianos e encontrámos um restaurante peruano sem turistas. Foi tão estranho estar numa cidade, estar num restaurante, ter outras pessoas à nossa volta que não os nossos companheiros de grupo! Eu sentia-me um burro a olhar para um palácio e já começava a ter saudades do Caminho.

                No dia seguinte, sábado, continuaram as despedidas, e desta vez pesaram-me a sério: o Tiago, o Pedro e a Cátia terminavam ali a sua viagem, era o fim dos tugas no sul do Perú. Iam apanhar avião para Lima e daí para Lisboa, enquanto o Ricardo ficava comigo mais uma semana. O Brad, o Andrew e o Jaff também iam ficar mais um dia em Cuzco, pelo que o passámos juntos a deambular sem um rumo definido pela cidade, visitando a Plaza de Armas, o bairro histórico de San Blás, o miradouro da Igreja de San Francisco, o mercado de San Pedro e o Museu do Chocolate, onde nos esperava um delicioso chocolate quente e um fondue de frutas. Nessa noite a Chloe e o Troy juntaram-se a nós para o último jantar de grupo, num restaurante típico com música ao vivo e comida local regada a pisco sour. Lembro-me de olhar para todos eles na conversa e de pensar que me sentia tão bem no meio daquela gente tão diferente de mim e que apenas cinco dias antes não conhecia de lado nenhum. É curioso o que a vida nos faz quando viajamos: põe-nos lugares e pessoas no nosso caminho que de um dia para o outro passam a fazer parte da nossa existência, e que já não podemos apagar. Sentia-me tão feliz! Desejei que aquela noite durasse para sempre. Ainda fomos a dois bares antes de nos despedirmos definitivamente: na manhã seguinte os canadianos voavam para Lima, eu e o Ricardo íamos para o Valle Sagrado, os australianos ficavam por Cuzco mais uns dias antes de seguirem viagem pela América Latina. Foi uma despedida difícil, eu senti que me arrancavam uma parte do coração. Sei que a probabilidade de os voltar a ver é pouca, e de nos juntarmos todos de novo ainda mais remota é. Mas gosto de pensar que isso pode acontecer, e seja como for, faremos sempre parte do Caminho Inca um dos outros, essa marca já ninguém nos pode tirar.

Cuzco vista desde o Miradouro da Igreja de San Francisco

Museu do Chocolate

Eu, Andrew, Jaff, Chloe, Troy, Brad e Ricardo
Último jantar waiky Family (já sem a Cátia)

                Domingo dia nove de junho amanheceu para mim cinzento e difícil. Ainda não tinha assimilado que os nossos amigos se tinham ido todos embora, que o Caminho Inca tinha acabado e que Machu Pichu estava visto (e demorei muito tempo a assimilar). Eu ainda estava lá em cima, e o meu corpo movia-se com esforço como um invólucro sem alma. A perspectiva de seguir viagem por mais dois dias pelo Valle Sagrado e depois voltar a Ayacucho parecia-me irrealizável, toda a energia se havia escoado do meu ser. Mas a PachaMama vela por mim e deixou-me o Ricardo para me “carregar emocionalmente” durante os dias seguintes, em que eu andei nostálgica, tristonha e não fui a melhor das companhias. Obrigada Ricardo, este é o meu pedido público de desculpas para ti! Depois do pequeno-almoço no mercado de San Pedro apanhámos o autocarro para uma das aldeias chave do Valle Sagrado: Pisaq, famosa pelo seu mercado dominical e pelo complexo arqueológico cuja área e nível de conservação o fazem rival de Machu Pichu. Era uma aldeia de passagem na peregrinação para o santuário, e a enorme vantagem de não vir num tour organizado desde Cuzco é a possibilidade de deambular pelas ruínas vazias depois dos turistas irem todos embora ao final da manhã. Aqui conhecemos o último guia da nossa viagem, o taxista Fredy, que passou este dia conosco e nos levou a conhecer os tesouros do Valle Sagrado: depois das ruínas de Pisaq, as salinas de Maras e os terraços agrícolas incas de Moray. Ao final do dia deixou-nos em Ollantaytambo, onde já tínhamos estado no inícío e no final do Caminho Inca mas que não tínhamos tido oportunidade de visitar.

                Ollantaytambo é uma vilazinha catita, uma espécie de Cuzco em miniatura, com a sua Plaza de Armas, o mercado e as ruas sinuosas da época inca em redor. Era a última grande cidade do Valle Sagrado antes do Caminho se embrenhar nas montanhas em direcção a Machu Pichu, e foi até aqui que os espanhóis chegaram. Hoje em dia é um centro turístico que alberga um parque arqueológico extremamente bem conservado na encosta de uma das montanhas que rodeiam a vila. Na noite de domingo dormimos no hostel Chaska Wasi (“A casa do Gato”), que nos tinha sido recomendado por um viajante inglês velhote que conhecemos no dormitório do The Point em Cuzco. Era um hostel muito quentinho e acolhedor, e a dona uma senhora bastante jovem e enérgica. No dia seguinte visitámos as ruínas incas, não só as que estão dentro do parque arquológico na montanha à direita da cidade, e que se tem de pagar bilhete de entrada, mas também as que estão na montanha à esquerda da cidade, e que inacreditavelmente estão abandonadas e não é preciso pagar para lá ir. Claro que esta segunda parte foi muito mais interessante: não havia turistas, não havia trilhos nem caminhos definidos, tínhamos de nos encavalitar nas rochas para chegar às ruínas e andámos à nossa vontade. Para mim, Ollantaytambo é o ponto alto do Valle Sagrado. Quem tiver só um dia para cá vir, tem de vir aqui.

Pisaq

Salinas de Maras

Ollantaytambo

                Foi o nosso último dia de viagem. E foi o dia em que fez oito meses que eu cheguei ao Perú. Almoçámos no mercado e à tarde voltámos a Cuzco. Tínhamos vontade de dar um último passeio antes de empreender o regresso a Ayacucho, eu queria muito despedir-me da cidade, mas o autocarro era às sete da tarde e quando fomos comprar os bilhetes já não tivémos tempo de sair do terminal. Jantámos por lá e matámos o tempo até ser hora. A viagem para Ayacucho foi interminável: trocámos de autocarro em Andahuayllas, onde tivémos de esperar duas horas durante a madrugada; ficámos parados duas horas em Chincheros por causa de obras na estrada, onde aproveitámos para almoçar às dez da manhã do dia seguinte; ficámos mais três horas parados em Ocros pelo mesmo motivo, onde vimos o jogo Perú – Colômbia de qualificação para o mundial, e jantámos às quatro da tarde. Chegámos a Ayacucho às oito da noite de terça feira dia onze de junho depois de vinte e cinco horas de autocarro. Foi um choque para mim voltar para casa depois de duas semanas e meia de uma viagem que me mudou irreversivelmente. O meu coração ficou em Cuzco, o meu corpo chegou a Ayacucho, e desde então a minha mente anda a tentar reconciliar os dois mas não está a ser tarefa fácil.

                O verdadeiro viajante tem a mente aberta para os “olás” e o espírito tranquilo para os “adeuses”. É este conceito que me tem permitido conhecer pessoas tão lindas e interessantes que enriquecem enormemente a minha experiência de vida e contribuem para o meu crescimento pessoal. Mas este adeus está a ser muito difícil! Os lugares e as pessoas desta viagem marcaram-me indelevelmente e quero guardá-las cá dentro para sempre frescas e intactas como se tivesse sido hoje. Quero protegê-las da passagem do tempo e da bruma dos anos, sobrevivê-las ao esquecimento e à distância. Como se tivesse sido sempre hoje. Como se ainda estivesse no Caminho Inca, no Intipunku, no instante da primeira vista sobre Machu Pichu. Esta esperiência marcou-me tanto que tenho vontade de escrever no meu passaporte: Sílvia Amaral, vinte e nove anos, portuguesa, caminhante do Caminho Inca.

                O Caminho faz-se caminhando, e o mais importante não é chegar: o mais importante é caminhar.