quinta-feira, 25 de julho de 2013

DIA 279 – “NO TE VAYAS, PROFESORA” – A SEMANA DAS DESPEDIDAS

              A vida é cíclica. Há momento e fases que se repetem muito tempo depois e provocam uma sensação de dejá-vu. Ou melhor, como diz uma querida amiga minha, a vida é espiralada. Porque quando essas fases ou momentos se repetem nós já não somos exactamente os mesmos, nem estamos exactamente na mesma situação, pela passagem do tempo e a sucessão inevitável dos acontecimentos. Estamos no mesmo lugar mas uns metros mais acima no caminho da nossa evolução pessoal. É o que eu estou a sentir agora.

                Saí de Ayacucho na segunda-feira dia vinte e dois de julho de dois mil e treze às dez da noite no autocarro da Cruz del Sur para Lima, depois de nove meses e nove dias nesta cidade que se tornou a minha segunda casa. Agora estou de volta ao seminário dos Missionários Combonianos aqui na capital, onde passei os meus primeiros dias no Perú. É curioso regressar aqui tantos meses depois e recordar o que senti inicialmente neste quarto, nesta casa, com estas pessoas. Foram os meus primeiros amigos aqui, e lembro-me como estava assustada, nervosa e surpreendida com tudo à minha chegada, e de como a hospitalidade e afecto destes seminaristas foi essencial para me sentir segura e confiante para me atirar de cabeça à aventura que me esperava. Voltar aqui nove meses depois com tanto Perú na bagagem, nas últimas semanas de permanência neste país e já nada assustada, nervosa nem surpreendida, tão simplesmente integrada e à-vontade, reforça-me a ideia de que de facto a vida não é cíclica, é espiralada. Porque estou no mesmo lugar, a terminar um ciclo, outra vez em Lima no final como estive ao princípio, e experimento a contradição do dejá-vu com a diferença das sensações. Eu já não sou definitivamente a mesma que era quando cheguei, nem Lima nem o Perú serão nunca mais estranhos e assustadores para mim.

                A última semana em Ayacucho foi a mais intensa e cansativa do meu tempo no Perú. Trabalhei mais nesta semana do que em todas as outras, e experimentei stress pela primeira vez. Tinha de deixar uma série de trabalhos terminados, fazer relatórios e despedir-me das crianças nos bairros. Acordei cedo e deitei-me tarde, tive almoços e jantares fora quase todos os dias e passei a semana com a clara sensação de que não me ia chegar o tempo para fazer tudo o que me faltava.

                Já há algum tempo que eu andava a preparar os miúdos para a iminência da minha partida e a lidar com refunfos e lamentos momentaneos quando fazia referência a isso, antecipando o drama da despedida com a frase “No te vayas, profesora, no te vayas!” De modo que quando chegou a última semana, já todos sabiam que não haveria “a próxima aula”. No entanto, a minha preparação não foi nem de longe suficiente para o drama efectivo da despedida. Os primeiros dias foram mais tranquilos porque os meninos do jardim de infância, com quem trabalhava às segundas e terças feiras, não têm muita consciência da ausência nem total noção da separação, o que tornou a despedida muito superficial e abstracta, e lidei bastante bem com a coisa. Na quarta-feira bateu-me em cheio no peito que era a última vez que estava a olhar para os meus alunos do bairro de Keiko Sofia, e confesso que fui indesculpavelmente covarde porque não tive coragem para me despedir convenientemente. Só disse adeus aos que vinham perguntar quando era a próxima aula, os que se foram embora sem dizer nada não chegaram a recordar-se de que eu já não voltava. Senti-me mal depois, por não ter ido falar pessoalmente com cada um deles para me despedir. Não fui capaz. Sabia o histerismo que ia provocar e naquele instante não me senti capaz de lidar com isso. E quando apanhei pela última vez o autocarro de regresso ao centro da cidade, vendo as ruas de terra batida e casas de tijolo empoeirado, sabia que não tinha estado à altura da situação, e que nas próximas semanas aqueles miúdos vão perguntar por mim aos outros professores e sentir-se enganados por eu me ter ido embora sem me despedir. Bolas :(

               Mas no bairro de Once de Junio não me deixaram fugir. Estive toda a tarde de quinta-feira a ajudar crianças e adolescentes a fazer os trabalhos de casa de Inglês, foi uma das tardes mais cansativas e mais divertidas que passei naquele bairro. Estavam lá todos os meus meninos queridos e os adolescentes que conheço melhor, e senti-me extremamente realizada por conseguir ensinar-lhes alguma coisa e ajudá-los efectivamente a aprender. Os refunfos e lamentos foram-se manifestando ao longo da tarde, de vez em quando alguém se lembrava de que era a minha última vez ali e vinha agarrar-se a mim a choramingar “No te vayas, profesora, no nos dejes, quedate com nosotros!” (e o meu coração mirrando, mirrando, até implodir numa bolinha de saudade). Uma das meninas disse-me que tinha comprado uma pintaínha para me oferecer, pediu-me para a levar para Portugal e lhe pôr o nome dela para nunca me esquecer. Depois da surpresa e da ternura tive de lhe explicar que não podia levar um frango na minha mala no avião, não só porque era proibido mas também porque obviamente morreria. Não foi fácil convencê-la, mas por fim lá aceitou em ficar ela com a bicha e lhe pôr o meu nome, para nunca se esquecer de mim.

            A certa altura saí para ir à casa de banho e de caminho fiquei à conversa com uma das minhas colegas da Mama Alice. Quando voltei à sala da biblioteca tinha uma multidão de crianças a bater palmas para mim. Foi um choque! Eu não estava nada à espera daquilo! Ver ali todos os meus alunos e os outros meninos que não estavam nas minhas aulas mas que já conheço tão bem, todos juntos a gritar por mim, fez-me cair na realidade: aquilo era uma surpresa de despedida, e dali já não saía sem abraços, beijos e lágrimas. Então o Ferreol, o professor responsável pelo centro daquele bairro, disse algumas palavras que eu já nem recordo muito bem porque já estava a chorar perdidamente, mas retive que as crianças iam ter muitas saudades minhas e tinham andado a semana toda a ensaiar (bem escondidos!) a última canção que eu lhes tinha ensinado há uns meses, uma canção em quechua, para me cantar como presente de despedida. E depois cantaram. E depois voltaram a cantar porque eu queria fazer um video para não perder nunca mais aquele momento. Foi indescritível, ainda agora me arrepio ao recordar. E depois das palmas vieram os abraços, os beijos e as lágrimas. Pediram-me infinitamente que não me fosse embora, perguntaram porque tinha de ir, e quando lhes recordei que sou voluntária e não posso viver para sempre sem um salário algumas das meninas começaram a dizer que me pagavam um sol por dia para eu poder continuar a trabalhar ali! O que é que eu posso contrapor a este argumento?! Despedir-me dos amigos e dos companheiros de trabalho foi muito difícil, mas o pior foi sem dúvida das crianças, porque não entendem as situações nem têm noção da inevitabilidade da vida. Para os meus alunos, não era obrigatório nem lógico nem inevitável que eu tivesse de me ir embora, e na cabeça deles pagar-me um sol por dia resolvia a situação. E eu estive quase quase para aceitar!! Vim embora do bairro quase às oito da noite acompanhada pelo meu aluno David até parte do caminho, enquanto atrás ficavam um grupo de meninas a olhar para mim de lágrimas nos olhos até eu virar a esquina. Nunca me esquecerei dessa imagem nem de como me doía o coração.

video







                No dia seguinte esperava-me outra tortura auto-infligida, e confesso que nesta fase da semana eu já estava a desenvolver uma recusa insconsciente às despedidas e já tinha vontade de fugir sem dizer adeus a ninguém. Foi a minha última aula de inglês com os rapazes do curso de serralharia do turno da manhã e do turno da tarde. Nos últimos meses estes adolescentes tornaram-se as “meninas dos meus olhos” e foi provavelmente o trabalho mais proveitoso de todo o meu voluntariado na Mama Alice. Desenvolvemos uma cumplicidade tal que estas amostras de homens rebeldes e durões se tornaram do mais dócil e acessível que experimentei aqui em Ayacucho. De todo o afecto que recebi estes meses, o deles foi o que mais me encheu o ego. E já queria adoptá-los a todos e levá-los comigo para Portugal. Ayacucho fez-me mãe do coração não só de crianças, mas também de adolescentes, vejam lá vocês!                                                                                                   

         Nesta última aula fizémos um video deles a cantar “Hey Jude” dos Beattles, que andávamos a praticar há duas semanas para ficar de recordação destes meses de aulas. Foi uma espécie de “exame final”, em que o objectivo era traduzir o texto, entender o significado, identificar funções gramaticais (especificamente pronomes, verbos e adjectivos) e treinar a pronuncia. No final o resultado não estava digno de um coro profissional, mas o esforzo e o esmero que eles puseram na voz e nas palavras (estamos a falar de rapazes de rua, alguns mal sabem falar espanhol!) deram um resultado brilhante. Eu não chorei, pelos menos dos olhos não chorei. Mas o coração estava afogado de orgulho. E para a despedida, bolo e refrigerante, beijos abraços e saudades, e uma pulseira feita por um deles e um porta-chaves como presentes para mim. Não tem preço ouvir um cavalão de dezassete anos, que já andou a roubar na rua e foi apanhado, dizer com olhos ternos: “Te vamos a estrañar un montón profesora, te queremos mucho.” Oh páááá!!





Turno da manhã

Turno da tarde

                Nessa noite convidei a Inge e os rapazes da casa de acolhimento da Mama Alice para jantar num restaurante de frango na brasa, algo tão peruano como Machu Pichu. Aqui no blog nunca cheguei a falar muito destes miúdos, ou pelo menos a referência que fiz não espelha de modo algum a relação que criei com eles nos últimos quatro meses e o quão especiais eles são para mim. Estamos a falar de rapazes que viveram na rua durante anos, que vêm de famílias desfeitas sem qualquer estabilidade nas relações nem nos afectos,  e que em momentos diferentes das suas vidas viveram na nossa casa de acolhimento. Alguns deles já não estão lá mas continuam ligados à Mama Alice e às actividades que realizamos, e foi assim que eu tomei contacto com eles e fui ganhando conhecimento, apesar de não trabalhar directamente na casa nem com eles. São miúdos adoráveis entre os quinze e os vinte anos, com variados problemas de irresponsabilidade, transgressão de regras, abuso de alcoól e consumo de drogas, mas doces e carinhosos como eu não poderia imaginar, são os “meninos mimados” da Fredy, como lhes chamamos. Eles procuram muitas vezes os trabalhadores mais jovens da Mama Alice para conversar, falar sobre a vida e pedir conselhos, e os voluntários gringos são um alvo muito atractivo. Aproveitando esse facto acabei por desenvolver uma relação de confiança diferente com cada um deles, mas a todos se abria um sorriso no rosto quando me encontravam na rua ou na oficina, e despedir-me deles e pensar que não os vou voltar a ver tão cedo partiu-me o coração. Assim que quis despedir-me convenientemente, e fui jantar com a Inge e seis deles (tinha convidado oito mas não vieram todos). Foi muito bom! Vê-los felizes a comer com gosto e na conversa uns com os outros sob o olhar carinhoso da Inge e a minha baba total tornou aquela noite num dos momentos mais especiais da minha semana das despedidas. E confirmei o que já sentia há vários meses: com o afecto das crianças e dos adolescentes nunca me sentirei, nem estarei de facto, sozinha. Nunca.

                Depois do jantar fomos a casa do Otchoa, o rapaz francês que trabalha na Cruz Vermelha e tem a melhor casa de Ayacucho, com o grupo de amigos mais íntimos. Nos primeiros meses da minha chegada cá ganhámos a tradição de nos reunirmos na casa dele às sextas-feiras, que sempre foram noite tranquilas em que o pessoal está cansado e só quer beber um copo em convívio e ir cedo para casa. Mas depois com o passar dos meses perdemos esse costume e já há muito, muito tempo que eu não ia a casa dele. Por isso pedi-lhe se podíamos repetir o evento pela última vez e fazer uma festa de “pré-despedida”, já que a grande festa com todos os amigos e conhecidos seria no dia seguinte na minha casa. É tão curiosa a sensação de familiaridade total com este pequeno grupo de pessoas que eu já conheço tão e com quem me sinto tão eu mesma, sem complexos nem vergonhas. Quando penso que só os conheço há nove meses e que antes deles havia toda uma vida em Lisboa, e um grupo de pessoas que também eram a minha família e com quem experimentava a mesma sensação, parece-me que tudo isso passou há séculos. E a ideia de que aquela noite de sexta-feira com cervejas e música estava a ser a última da minha vida com eles (mesmo que eu volte a Ayacucho no futuro, já nada será igual) revestia-se de irrealidade e eu não conseguia assimilar. Adoro-os a todos, cada um com a sua personalidade e as suas manias, e adoro sentir-me tão bem e tão feliz com eles. Este grupo de pessoas são, sem dúvida, um dos factores primordiais para que Ayacucho seja casa para mim.   Obrigada à Tania, à Inge, à Stefanni, ao Otchoa, ao Juan, ao Akira, à Sol, à Nati, ao Willie e à Neus.
                A noitada não foi longa porque o dia seguinte seria muito ocupado pelo que eu tinha de acordar cedo, e já estava em stress quando fui dormir. Era o sábado da minha festa de despedida, mas até chegar à noite eu tinha demasiadas coisas para fazer: acabar um documento sobre o novo projecto para deixar à Fredy, limpar a casa, ir ao mercado, cozinhar para a festa, decorar a sala e terminar todos os preparativos. Estava um dia solarengo e quente apesar de supostamente ser inverno (na sierra do Perú as estações são muito estranhas) e as horas passaram rapidamente. Pouco antes das oito chegou uma das minhas colegas de trabalho com a filha bebé, e eu tive de a deixar sozinha em casa porque ainda me faltava ir à oficina da Mama Alice buscar umas cadeiras de plástico emprestadas. Depois chegaram mais três colegas, e foram as únicas na festa durante duas horas… até que entretanto chegou a Inge, e mais tarde por volta das onze começou a chegar o pessoal todo. Eu não estava preocupada porque já sei como são as coisas no Perú: convidas para as oito, começam a chegar às dez. Pelo que a festa foi passando por diversas fases, inicialmente colegas de trabalho com filhos, e depois os amigos. Acabámos a noite a cumprir pela última vez a tradição de sábado: dançar no Maxx’oh. E foi tão fixe :)

                No domingo acordei cheia de energia apesar das poucas horas de sono e consegui arrumar e limpar os destroços de guerra antes de ir almoçar com o pessoal todo. Fomos a um restaurante pouco conhecido no meio de um bairro, chamado Pátio Escondido por razões óbvias, que tem mesas no jardim e a melhor carne de frango e porco de Ayacucho. Quando cá cheguei em outubro de dois mil e doze vim almoçar aqui no primeiro domingo, com a Celsa, a Tania, o Juan e o Juan Manuel, um rapaz mexicano que entretanto foi embora. Voltei cá algumas vezes durante estes meses, mas quis vir especificamente no último domingo porque tinha um significado afectivo. Foi um típico almoço de domingo, tardio, abundante e de alegre convívio. Sentia-me verdadeiramente abençoada, com todos os amigos, boa comida e um sol luminoso. Eu tinha vontade de um domingo de não fazer nada e só aproveitar a companhia, e sem esforço consegui. Fomos tomar café ao Via Via, lugar nevrálgico na Plaza de Armas, e depois ver filmes toda a tarde em casa do Juan. Nessa noite já tive algumas despedidas de amigos que saíam de viagem cedo no dia seguinte, e pouco a pouco a iminência da partida começava a pesar. Quando não estava a pensar parecia-me apenas um domingo normal seguindo rituais enraizados durante meses. Mas depois lembrava-me que era a última vez que estava a viver aquele momento, pela cabeça passavam-me imagens de acontecimentos vividos ao longo dos meses passados, dei-me conta de como o tempo parece muito longo e que aconteceram mais coisas do que supostamente caberiam em nove meses. Parece toda uma vida, o passado já tão longínquo, sem dúvida uma vida antes e outra vida depois do Perú.

                O meu último dia em Ayacucho, segunda-feira vinte e dois de julho de dois mil e treze, foi passado a fazer malas, despedir-me dos companheiros de trabalho e dos amigos. Foi incrivelmente emotivo dizer adeus a cada uma das pessoas com quem trabalhei durante estes nove meses, todos tinham palavras amáveis para me dizer, alguns mais pessoais e afectuosos que outros, consoante a relação de confiança. Marcou-me especialmente despedir-me do meu colega Jhon, com quem tinha viajado em trabalho a Quillabamba, e da Hilda, minha coordenadora de trabalho. Dei-me conta do quanto os meus colegas me apreciam e quanto admiram o meu trabalho, de como me integrei nesta família ao ponto de já não me sentir estranjeira, e de como já não se lembravam que eu era voluntária e já não pensavam que eu teria de ir embora em breve, como se já fizesse indeterminadamente parte da equipa. Foi quando as lágrimas recomeçaram a jorrar, e eu sentia que não podia ir embora, que não podia deixar aqueles colegas e aquele ambiente de trabalho, que depois da Mama Alice nunca mais poderei trabalhar num atelier de arquitectura competitivo e cheio de pressão, com algum patrão controlador e autoritário, e que dificilmente voltarei a acordar com tanta vontade de ir trabalhar como aqui em Ayacucho. Estou bem arranjada para o futuro, não acham?!                   
           Nessa manhã ainda recebi uma última visita de alguns dos meus rapazes da carpintaria metálica, que vieram até a oficina da Mama Alice para se despedirem de mim outra vez.

            O meu autocarro era às dez da noite, pelo que tive tempo de acabar as malas e sentar-me em cima delas para que fechassem, fazer uma última visita ao meu amigo tatuador Manu, passar outra vez na oficina Mama Alice para mais uma despedida e o derradeiro olhar sobre os lugares e as coisas, e ir jantar com o pessoal ao Wallpa Sua, um restaurante de frango na brasa onde jantei muitas e muitas vezes, sobretudo à sexta-feira. E mais uma vez me esquecia momentaneamente de que ia viajar, parecia uma noite normal a jantar com os meus amigos.
           Vieram bastantes amigos despedir-se ao terminal da Cruz del Sur, tal como a Fredy e a Angi da Mama Alice, e alguns dos rapazes da casa de acolhimento. Eu estava tranquila e despedi-me de todos com abraços apertados e beijos afectuosos, alguns prometeram vir ter comigo a Lima no último fim de semana em que cá estou antes do meu voo de regresso a Portugal, e não me pesava a evidência da partida porque eu não estava em mim, não estava a assimilar em tempo real o que estava a acontecer. Só quando entrei no autocarro e comecei a ver os vários presentes que me tinham trazido, postais com palavras de afecto, e a ver as luzes de Ayacucho pelas colinas abaixo, é que me bateu em cheio na testa como uma chapada sem mão que aquilo era um adeus, era um fim, não para sempre mas por bastante tempo, e sobretudo porque nada se repete, os momentos da vida são únicos, e não podemos fazer mais do que guardá-los cá dentro porque tentar repeti-los é esforço inútil. E chorei como uma criança.


        Agora estou em Lima, no seminário dos Missionários Combonianos, e estou a ter de novo aquela sensação de desorientação que experimentei à chegada ao Perú. Não por desconhecer, não pelo contraste cultural, nem sequer pela enormidade do espaço, tão somente porque ainda não consegui assimilar que já não estou em Ayacucho, o meu espírito está confuso e o meu ânimo alterna entre o choque da partida e a expectiva de uma nova aventura. Tenho descansado imenso, comido e dormido bem (abençoados sejam pela hospitalidade!), passeado um pouco e visitado alguns amigos aqui. No próximo sábado estou de partida para a última viagem no Perú, durante dez dias, e depois volto a Lima para os derradeiros dias neste país. Hoje ao almoço estava a ouvir um dos seminaristas conversar com a cozinheira, ambos peruanos, e dei por mim a pensar que não era tão mau já não estar em Ayacucho enquanto ainda estivesse no Perú, e que ainda tenho três semanas. Não sei o que vou dizer a mim mesma, para me consolar, quando se acabar definitivamente o tempo.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

DIA 270 – “WELCOME TO PERÚ” – NOVE MESES DE PERÚ (UM MÊS PARA LISBOA)

Esta foi uma das nossas frases preferidas e mais frequentes na casa dos voluntários da Mama Alice, e servia como resposta ou comentário para qualquer constatação ou lamento que um de nós tivesse sobre Ayacucho e sobre os peruanos. Há certas situações que acontecem neste país que não acontecem em mais lado nenhum, há coisas boas a que nos afeiçoamos e coisas más que nos incomodam que são típicas daqui, e quando acontecem só podemos sorrir ou respirar fundo e dizer uns aos outros: “Pois é, welcome to Perú”.

Já há bastante tempo que tenho vontade de partilhar convosco algumas destas tipicidades peruanas que marcam o meu dia-a-dia. Algumas tornaram-se tão costumeiras que já nem reparo, e se ao princípio as estranhei agora entranhei e sei que vou ter um choque quando voltar para Lisboa. Outras continuam a chamar-me a atenção diariamente pela positiva ou pela negativa, rompendo a minha familiaridade com esta cultura e recordando-me que nunca deixarei de ser estranjeira, pois a certas coisas não consegui de todo habituar-me nestes nove meses em que já cá estou. É que ser peruano, e sobretudo ayacuchano, é ter uma série de hábitos, costumes e manias muito próprias que me fazem rir ou chorar consoante as situações, mas todas me deixarão nostalgia e inspirarão ternura quando me for embora e o tempo continuar a passar. 

Esta é uma visão pessoal, parcial  e naturalmente incompleta. Pelo que eu já conheço, ser peruano é…

… as pessoas tratarem-se entre si, sejam amigas ou desconhecidas, por “mama”, “mami” ou “mamasita” para as mulheres, e “papa”, “papi” ou “papasito” para os homens. Isto aplica-se a qualquer contexto e idade. Pode ser uma mãe a chamar “papasito” ao seu filho bebé ou um senhor idoso a chamar “mami” a uma empregada de loja. Toda a gente se trata assim, e ao princípio fazia-me alguma confusão que me dissessem “mãe” a mim, ou chamar “paizinho” e “mãezinha” a pessoas que não conheço de lado nenhum. Depois habituei-me e ganhei-lhe gosto: cria uma atitude de familiaridade que pode não ser real mas que inconscientemente transmite uma sensação de confiança e à-vontade. É um  hábito que vou ter muita pena de perder. 

               Ser peruano é… ter uma relação muito especial com a comida. No Perú a comida de rua é imagem de marca, em qualquer lugar da cidade, do campo ou de uma estrada perdida no meio das montanhas é possível encontrar uma “mamita” a vender água, refrigerantes, batatas fritas, bolachas, fruta, ou um prato de comida que pode ser muito simples mas não nos deixa morrer de fome em lugar algum. Os peruanos têm hábitos alimentares muito estranhos, como chamar “pequeno-almoço” a pratos consistentes de peixe frito ou carne com arroz e batata, ou canja de galinha, e comê-los às nove da manhã. Acompanham quase tudo com arroz branco e batata frita, às vezes chegando ao cúmulo de juntar também esparguete à mistura. Nos restaurantes pequenos e modestos, e nos mercados, é possível comer um menú completo de sopa, prato e bebida (e em alguns sítios até sobremesa!) por valores irrisórios de quatro e cinco soles (um euro e vinte, um euro e meio). 

            Quando queremos comprar comida para levar é possível que nos entreguem a refeição numa caixinha de esferovite, mas o mais provável é que a ponham num saco de plástico. No Perú tudo se transporta em sacos de plástico, até sumo de fruta, com uma palhinha! Aqui bebe-se mais refrigerantes do que água, sobretudo coca-cola e inka-cola, e como a água da torneira tem de ser fervida é comum fazer-se refresco de frutas para disfarçar o sabor. Só que no Perú “refresco” não significa que esteja “fresco”…pode ter sido acabado de fazer e ser servido ainda quente!
             O pão típico de Ayacucho chama-se chapla e parece uma bolinha de mistura, mas não é. Não tem miolo, é só côdea, ainda me lembro da surpresa divertida da primeira vez que comi e vi que não tem nada por dentro. Compra-se cinco chaplas por um sol (trinta cêntimos de euro) e é tão normal comprar sempre um sol de chaplas que se quiser só duas ou três perguntam-me de novo quantas quero e ficam a olhar para mim como se fosse um ser estranho…como se fosse gringa, portanto. 

             Ser peruano é… ter manias de linguagem muito peculiares. Como dizer “pues” no final de cada frase para confirmação de ideias, por exemplo “Te enseñaré a bailar, pues!” (“Vou ensinar-te a dançar, pois!”). Em Ayacucho esta palavra derivou na simplificação “pe” que só se utiliza aqui, e sem dar-me conta entranhei esta expressão na minha linguagem, e quando falo com peruanos de outros lugares gozam comigo dizendo que vê-se logo que aprendi a falar espanhol na sierra. É que já vivo há nove meses aqui, pe! E quando se quer responder “Está bem”, o que os espanhóis de Espanha diriam “Vale” nós dizemos “Ya, pe” ou “Si, pe”. Os peruanos são muito exagerados nas situações e nas palavras (assim parecidos aos italianos) e tudo na vida é muito bom, ou muito mau, ou muito grande, ou muito pequeno, ou muito impressionante. E para transmitir essa percepção acrescentam “azo” a qualquer palavra, por exemplo “Fue un viajezazo” (“Foi uma viagem brutal”) ou “Estoy cansadazo” (“Estou cansadíssimo). Ou também “Tengo que despertarme tempranazo!” (“Tenho de acordar super cedo”). O auge desta palavra é a expressão “Azo madre!” que significa algo do género “Cum catano!” e serve de resposta exclamativa a qualquer coisa que nos estejam a contar e à qual queramos reagir com intensidade. O contrário acontece com o diminutivo “ito” ou “ita” para qualquer palavra: “Donde está tu chompita?” (“Onde está a tua camisolinha?”) ou “Quieres una gaseosita?” (“Queres um refrigerantezinho?”). Ou até nos nomes: Silvita, Hildita, Jhonsito, Juansito, Jorgesito, Sarita, todos são tratados como crianças independentemente da idade que tenham.                                                                                  
             Finalmente, a minha preferida: em espanhol “agora” diz-se “ahora”, mas no Perú dizem “ahorita”. Só que aqui isto tanto pode significar “agora mesmo” ou “daqui a duas horas”, porque a noção de rapidez peruana é muito diferente da europeia. Por isso, quando eu preciso de alguma coisa e peço a alguém, que me responde “ahorita te lo hago” (“vou fazê-lo agorinha”) eu já sei que mais vale ter calma e não me impancientar porque o mais provável é ser daqui a duas horas e não agora mesmo. Como quando faltou a luz pela primeira vez na nossa casa porque rebentou um fusível, e eu liguei a um trabalhador da Mama Alice que é o “faz-tudo” da associação, e ele me disse “Ahorita voy”, e veio…várias horas depois. Se pelo contrário em vez de “ahorita” dizem “más rato” (“daqui a um bocado”), bom, isso de certeza que vai ser ao final do dia ou na manhã seguinte.

          Ser peruano é… cumprimentar só com um beijinho. O que em Portugal é ser snob como as tias de Cascais, aqui é o cumprimento do povo. Nos primeiros tempos fiquei várias vezes apeada com a cara espetada para o segundo beijinho até aprender. Agora já é tão normal que quando voltar para Lisboa vou deixar-vos apeados a vocês até me voltar a habituar. Aqui toda a gente se cumprimenta em qualquer situação, e cumprimenta-se toda a gente, não há “olás” para todos, há que dar um beijinho a cada um. Isto torna-se quase ridículo em situações de grupo, como quando chegamos a uma festa ou a uma reunião, e há que dar a voltinha para que toda a gente receba o seu beijinho. Quando há confiança e familiaridade, o beijo unilateral transforma-se num abraço. Os peruanos são muito afectuosos, sobretudo os ayacuchanos, e para mim já é perfeitamente natural abraçar os meus colegas de trabalho. E se os encontro de manhã e depois à tarde, há que cumprimentar outra vez. Os peruanos querem é beijinhos!

         Ser peruano é… ser viciado em música e filmes. É super natural andar na rua com o telemóvel a tocar em alta voz, ou ter um leitor de música com altifalante. Em qualquer lugar há música, nos restaurantes, nas lojas, nos combis, nos carrinhos de venda ambulante, nos escritórios, no banco. Os peruanos não conseguem trabalhar em silêncio. Até o camião do lixo tem música, para avisar os moradores que está na hora de pôr os sacos à porta, o que costuma acontecer de manhãzinha, inclusive ao sábado… Infelizmente, isto não significa que tenham bom gosto musical: em Ayacucho só se ouve huayno e saia (música folclore típica), salsa, cumbia e reaggaton. Nestes últimos meses, depois de passar a fase inicial de fascinação, o silêncio tornou-se de ouro para mim, e descubrir um bar onde passam rock ou conhecer alguém que goste de indie pop é um acontecimento! O cúmulo acontece na discoteca: quase só se dança huayno, saia, salsa, cumbia e reaggaton. De vez em quando lá passa algum hit da dance music comercial que esteja na moda (e que já passou de moda em Portugal no ano passado). Seria como ir ao Lux dançar o vira do minho ou o bailinho da madeira! 
       Quanto aos filmes, a América Latina será de certeza uma das capitais da pirataria informática. Existem várias lojas pejadas de dvd’s copiados até ao tecto, onde se pode encontrar qualquer filme, mais antigo ou recém estreado no cinema, pela incrível quantia de… três soles (noventa cêntimos de euro). Outra coisa em que os peruanos também são viciados é na internet. Em qualquer povoado minúsculo e isolado existe pelo menos um internet point (em Ayacucho são como cogumelos na floresta), mesmo que a ligação seja tão lenta de fazer arrancar os cabelos de nervos. E toda a gente tem perfil de facebook, desde o senhor velhote a quem compro pão todos os dias, aos meus alunos dos bairros que não têm electricidade em casa e muito menos um computador, mas têm um sol para pagar uma hora de internet no cibercafé da esquina. 

       Ser peruano é… ser desportista. Todos jogam futebol e sobretudo voley, que é o desporto nacional. E jogam muito bem! Existem vários campos de desporto espalhados pela cidade e é muito comum vê-los a jogar no meio do bairro, em família ou entre amigos, ao domingo à tarde. Este costume cultural está tão enraizado que até os meus alunos de jardim de infância jogam voley entre eles, com as suas limitações, imitando o que vêm fazer aos adultos. E na Mama Alice juntamo-nos cada sábado à tarde para jogar entre colegas de trabalho (eu eu quase nunca fui porque não partilho de tão acérrimo gosto pelo desporto).
No Perú os pesos carregam-se às costas em mantas coloridas de tecido tradicional. Pode ser uma mãe a levar o seu bebé, uma senhora que vai vender fruta ao mercado ou um homem a carregar uma televisão. Quase ninguém tem carro próprio e andar de taxi é incrivelmente barato, sobretudo se for um “moto-táxi”, iguais aos “tuc-tuc” tailandeses mas com autorádio e chassis quitados como um carro “tuning”. Não existe taxímetro, obviamente, o preço da corrida é acordado antes de entrar e decentemente regateado, porque aqui ser gringo significa pagar pelo menos mais cinquenta cêntimos de sol do que um peruano, para qualquer coisa que seja. Não existem preços fixos para quase nada, eles olham para a minha cara e decidem até que ponto podem esticar a corda, não sabem que eu já cá vivo há nove meses e sei perfeitamente o que devo pagar.

      Ser peruano é… nunca cumprir horários nem prazos. Como já referi anteriormente, a noção de pontualidade peruana é muito diferente da nossa. Quando eu combino um encontro para certa hora posso tranquilamente chegar dez minutos depois e sei que ainda vou ter de esperar. Quando se convida para uma festa é melhor marcar para duas horas antes do momento em que queremos que os convidados comecem a chegar, ou teremos uma festa vazia até à meia-noite se convidámos para a dez (como já aconteceu!). O pior é que esta característica também se aplica ao trabalho: quando há uma data limite para entregar documentos, ou um projecto, ou um relatório, já se assume naturalmente que poderá ser entregue uma semana depois. E os peruanos arranjam sempre uma desculpa para chegarem atrasados ou não terem cumprido com uma obrigação: têm uma creatividade impressionante! E não têm vergonha.

          O Perú é um país gigante e todas as distâncias são enormes quando comparadas com Portugal. Aqui, ir de Lisboa ao Porto corresponde a atravessar Lima de uma ponta à outra, e há quem faça esse trajecto diariamente para ir trabalhar. Uma viagem de quatro horas é considerada curta, e Ayacucho está perto de Lima, porque “só” se demora uma noite para fazer a viagem. Quase não se viaja de dia, a maioria das companhias de transporte apenas têm ligações nocturnas entre as principais cidades. E aldeiazinhas perdidas nas montanhas a cinco horas da capital de província pertencem todas à mesma região. Por isso é comum dizer-se “eu vivo em Ayacucho” mesmo que viva na aldeia de San Miguel, a três horas para norte. E ficam tão surpreendidos ao saber que de Lisboa a Paris são dezassete horas de autocarro e que nenhum europeu com um mínimo de possibilidade económica considera sequer a hipótese de fazer essa viagem (de Lima a Cuzco são vinte horas, por exemplo, e já não me parece nada do outro mundo).

          Entre estranjeiros dizemos em tom de gozo que a prova incontornável de se ser peruano é falar ao telemóvel como eles falam, como se fosse um walkie-talkie: encostado ao ouvido para ouvir, encostado à frente da boca para falar, encostado outra vez ao ouvido para ouvir de novo, e assim sucessivamente até acabar o telefonema. E como nos perdemos de riso na noite de sábado da Semana Santa, quando a Inge recebeu um telefonema e começou a falar assim para se fazer ouvir entre o burburinho da gente que enchia a praça. Prova superada, deviam dar-lhe a dupla nacionalidade. Eu não cheguei a tanto, pelo menos por enquanto.

           Eu sei que a minha visão do Perú é muito provinciana. Se eu tivesse estado este tempo em Lima a minha experiência teria sido bastante diferente, influenciada pelo ritmo de vida agitado e cosmopolita da metrópole. Também sei que o meu critério de comparação seria menos contrastante se eu viesse de uma pequena cidade do interior de Portugal em vez de ter vivido em Lisboa. Em todo o caso, este foi o contexto que eu escolhi, uma cidade perdida nos Andes encaixava muito mais na minha ideia de “Perú real” e da experiência de voluntariado que queria ter. E não me enganei, ser ayacuchano é ser serrano e ser peruano ao máximo, ainda que haja outras culturas muito diferentes mas igualmente peruanas, como as tribos nativas da selva e as comunidades de influência africana na costa.

        Depois de nove meses de permanência neste país já estou tão em casa como em Lisboa, e tenho rotinas e lugares tão habituais que já sinto que esta é a minha vida, e me custa imaginar que daqui a pouco já não estarei aqui. Entranhei os costumes com facilidade, ganhei um afecto imenso pelas particularidades deste povo e considero que conheço bastante bem o Perú, e ainda melhor Ayacucho. Muitos destes costumes vão fazer-me falta em Lisboa, sobretudo a simplicidade com que as pessoas vivem as suas vidas sem stress. Confesso que me sinto orgulhosa da familiaridade com que me movo entre os peruanos, e só não me esqueço que não sou uma deles porque continuam a olhar para mim na rua por ser loira e de olhos azuis, e porque o meu ser português vem ao de cima constantemente pelas saudades que sinto do meu país e das minhas tradições. E neste momento em que falta apenas um mês para voltar a Portugal, o meu coração divide-se entre a euforia de voltar a ver o mar da caparica e a estranheza de deixar de acordar com as montanhas ao fundo da janela. Sinto na pele a frase que diz “A minha casa é onde está o meu coração”, e constato que o meu coração pode facilmente estar em qualquer lugar do mundo. E parte dele vai ficar para sempre aqui no Perú, nesta cidade perdida a dois mil e setecentos metros de altura no meio dos Andes, onde as pessoas são baixotas e na rua há tantas crianças como cães, onde posso comprar um quilo de fruta pelo preço de um café em Portugal, onde o sol queima tanto que tenho de pôr protector solar diariamente, onde já tenho uma família de amigos tão grande e tão confiável como não podia imaginar há nove meses atrás.

          No final, a viagem mais completa é a que nos faz pertencer.

Meninas regressando da escola primária com o uniforme obrigatório, comendo chupa-chupas de gelo.
Quínua, Ayacucho.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

DIA 264 – MUDAR O MUNDO, OU APENAS UMA CASA DE CADA VEZ

                Trabalhar ao fim de semana é uma seca. Se for os dois dias, sábado e domingo, para depois começar uma nova semana sem pausas é muito pesado, a segunda-feira que por si só já costuma ser um dia difícil torna-se ainda mais cansativo. E na Mama Alice é demasiado frequente termos actividades extra ao fim de semana. Mas são sempre por um bom motivo, é sempre pelas nossas crianças. E como foi por elas que eu vim para o Perú trabalhar à borla, o cansaço desvanece-se nos meandros dos fundamentos do meu projecto de voluntariado. Às vezes já nem me lembro que sou voluntária e que estou aqui a fazer isto porque quero e sem que me paguem, de tal modo já sinto isto como o meu trabalho. Depois olho para a minha conta bancária e recordo-me imediatamente que não estou a receber um salário, e é por isso que daqui a um mês tenho de me ir embora.

                Este fim de semana descubri uma nova vertente do meu voluntariado, e apesar de não ser uma novidade para mim e já ter pensado nisso muitas vezes, foi a primeira vez que se proporcionou concretizar, por puro acaso do destino, e tornou-se uma possibilidade tão real que não consigo parar de pensar nisto.

                Cada ano a Mama Alice recebe um grupo de adolescentes holandeses através do programa Global Exploration: durante um ano eles angariam fundos na sua terra natal através de variadas actividades, para depois virem três semanas ao Perú. Essas semanas são repartidas entre férias e passeio e uma visita à nossa ONG para conhecer o trabalho, os bairros, as crianças e as suas famílias. Nos quatro dias que estes jovens ficam em Ayacucho com os professores que os acompanham, a cada um é atribuído por sorteio um dos adolescentes com quem trabalhamos, para serem um par durante toda a visita. Realizamos diferentes actividades na cidade, na sede e nos bairros, algumas mais culturais, outras mais desportivas, e outras mais emocionais, como a visita a um dos locais onde dormem as crianças de rua, e que é sempre bastante impressionante e forte para estes jovens de boas famílias holandesas.

O meu papel em todo este processo foi servir de intérprete: os holandeses não falam espanhol e os nossos miúdos, infelizmente, não falam quase nada de inglês (os meus oito meses aqui não são suficientes), então eu e outros trabalhadores andámos distribuídos pelos grupos formados para as actividades para permitir a comunicação entre todos. O fim de semana culminou numa manhã de trabalho de construção civil: além dos numerosos presentes em material e financiamento directo que os holandeses trouxeram para a Mama Alice, parte dos fundos por eles angariados durante o ano foi para gastar em obras de beneficiação em casas das famílias mais pobres das crianças e jovens dos nossos centros. Por isso, este domingo dividimo-nos em equipas de dois holandeses, dois peruanos, um professor e um trabalhor da Mama Alice e fomos a quinze casas nos bairros mais pobres de Ayacucho fazer um pouco de tudo o que fosse preciso: colocar portas em casas que não têm nenhuma, semear e plantar em hortas abandonadas por falta de dinheiro, montar camas, mesas ou um galinheiro, e, no meu caso, construir uma casa de banho. Sim, construir uma casa de banho em duas horas.

A família que calhou ao meu grupo é de uma menina de quatro anos com quem trabalho em Educação Inicial às terças-feiras. Vive num pequeno pátio com o pai, a mãe e as duas irmãs, de dez e três anos, e a sua casa é constituída por dois cubículos com paredes de adobe e cobertura em chapa metálica ondulada, em que um alberga a cozinha com um fogão feito de dois tijolos e uma grelha, e no outro está o quarto, onde dormem os cinco juntos. Num canto do pátio tinham uma sanita ao ar livre, sem qualquer protecção ou divisória, e essa era a casa de banho. Duche não havia, tomavam banho com água aquecida num grande alguidar, também no pátio. Ou seja, privacidade zero.

Mas estou a descrever esta situação com o tempo verbal no passado, porque este domingo tudo isto mudou. Com o dinheiro trazido pelos jovens holandeses e a mão-de-obra deles em conjunto com a dos trabalhadores da Mama Alice (perdoem-me a ausência de modéstia, no meu caso, mão-de-obra voluntária) em duas horas construímos uma casa de banho feita de madeira e chapa metálica ondulada, com paredes, tecto e uma porta, em redor da sanita existente no pátio, e fizémos uma ligação em tubos de plástico para que possam ter também um duche. Devo dizer que éramos quatro miúdas e um rapaz, ajudados pelo pai de família. Quando nos viu entrar, ele ficou um bocado assustado: devia estar à espera de ver chegar homens com capacidade de trabalho. Mas eu assegurei-lhe que a nossa falta de experiência seria largamente compensada pela nossa vontade de trabalhar, e que ele só tinha de nos dizer o que fazer.

E foi assim que deitámos mãos à obra. O rapaz ajudou o senhor a cavar buracos para os troncos que serviriam de estrutura, e a colocar as traves para o tecto, enquanto eu e as miúdas pregávamos pregos, montávamos a porta, colocávamos as chapas para fazer de parede e alisávamos o chão. É incrível, mas é verdade: em duas horas construímos uma casa de banho. Claro que não é uma casa de banho de tijolo, com revestimento cerâmico impermeável aplicado sobre betonilha regularizadora armada com malha sol. As paredes não têm isolamento térmico nem acústico, o duche não tem base de porcelana e não há torneira nem chuveiro. A sanita não tem ligação a esgoto nem autoclismo, e a cobertura não tem nenhuma protecção contra a humidade. Isso sim, teria demorado vários dias ou mesmo semanas a construir. Mas a partir de agora cada um dos cinco membros desta família poderá fechar a porta para fazer xixi com alguma privacidade, e terão uma caída de água para tomar um duche minimamente digno desse nome. Com água fria, claro, que não há dinheiro para electricidade. E isto quando não faltar água no bairro, o que acontece pelos menos duas a três vezes por semana.

A qualidade do trabalho também não foi topo de gama, devido à nossa ausência de experiência em armar molduras de portas e pregar pregos. Eu sei desenhar os elementos de construção e prescrever materiais adequados, mas nunca tinha posto as mãos na massa para construir. Valeu-me a recordação de tardes da minha infância em que o meu pai, jeitoso de mãos, andava a arranjar coisas em nossa casa e eu andava atrás dele a pregar e serrar bocados perdidos de madeira velha. E adorei! A sensação de pegar em materiais soltos e juntá-los para obter algo de concreto e muito útil para alguém que não tem possibilidades económicas para o fazer, é brutal!

No final, a senhora ofereceu-nos chá de camomila e o senhor estava tão emocionado que nem tinha palavras para expressar o seu agradecimento. Ainda sobrou uma chapa metálica, que ele disse que ia usar para forrar o tecto do quarto, que tem um buraco por onde chove em cima da cama.

As miúdas holandesas estavam impressionadas e radiantes, e os adolescentes peruanos estavam surpreendidos pelas suas próprias capacidades, e creio que foi muito benéfico para eles ajudarem com as próprias mãos outras pessoas do seu bairro que vivem ainda pior do que as suas próprias famílias. E eu senti que construir uma casa de banho com madeira e chapa metálica para uma família pobrérrima é muito mais útil e valioso para gastar as minhas energias e a minha juventude do que passar oito horas por dia atrás de um computador a desenhar linhas em autocad.






                E foi então que eu pensei: e se eu conseguir que me paguem para continuar a fazer isto? E se eu conseguir fazer disto o meu trabalho? *