quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

DIA 125 – JÁ CHEGOU, JÁ CHEGOU MAMA ALICE AO CARNAVAL

No Perú o Carnaval é um evento. Se nós, portugueses, achamos que o festejamos à grande e com um estilo muito próprio, temos de vir aqui para percebermos o que é a verdadeira festa. E de todo o Perú, é nas províncias que este período é festejado com mais emoção e intensidade, e os Carnavais de Cajamarca, Puno e Ayacucho são famosos em todo o país. O que dá origem a um incrível fluxo de turismo interno: nestes dias, a população de Ayacucho triplica.

Tudo começa no princípio de fevereiro com as guerras de água. Esqueçam lá os balões de água no fim de semana de Carnaval. Aqui é um mês inteiro de batalhas campais nas ruas, com balões, pistolas de água e sobretudo baldes. Sim, o pessoal aqui atira baldadas de água aos traunseuntes, sem qualquer pudor ou complacência, e nestas últimas semanas eu desenvolvi uma autêntica técnica de guerrilha urbana para escapar aos ataques. O meu bairro é um dos centros da guerra aquática, e é difícil transmitir a sensação de perigo iminente que sinto cada vez que saio à rua. Ser gringa torna-me num alvo apetecível e não há modo de escapar: ou ando às voltas pelas ruas menos movimentadas, ou acabo encharcada. Aprendi isso às minhas próprias custas. E o mais revoltante é que os putos regozijam-se em atacar-me e gozam comigo na cara. E eu, indefesa, não posso responder-lhes à letra, a sorte deles é que estão demasiado longe para lhes alcançar uma boa palmada. Confesso que já estou bem farta, felizmente que está a acabar.

O Carnaval em Ayacucho foi uma novidade para mim. Aqui a tradição não é mascarar-se de qualquer coisa (isso fazem-no no Halloween), mas vestir-se com os trajes tradicionais da região e sair à rua em desfiles organizados ao ritmo das canções e danças ayacuchanas. Os desfiles duram quatro dias e estão divididos por entidades: no sábado desfilam as empresas públicas e privadas, no domingo é o dia das associações culturais, e segunda e terça-feira desfilam os grupos informais de rua ou de bairro. Segunda e terça-feira são feriados municipais e a cidade pára para ver passar os grupos. Tudo isto acompanhado de muita cerveja, vinho e pisco (aguardente peruana). Os desfiles duram a tarde toda, têm um percurso definido por várias ruas do centro da cidade e a acabar na Plaza de Armas, e à noitinha já é difícil perceber quem está mais bêbedo: se os expectadores se os participantes. Aqui o pessoal leva o sentido de festa mesmo à risca. E consta que a tradição é que nove meses depois do Carnaval nasçam muitos bebés.

Na Mama Alice gostamos de fazer as coisas de um modo diferente, não fosse a Fredy uma holandesa de mente muito aberta, ideias muito originais e energia extra para motivar toda a gente. Por isso, apesar das reacções iniciais de estranheza por parte dos trabalhadores habituados às suas tradições, decidimos que a nossa participação no desfile tinha de ser diferente, impactante e chamar a atenção, para não nos confundirmos na multidão de ayacuchanos vestidos em trajes tradicionais, e para que a nossa presença fosse notada, falada e recordada. Assim, teve a Fredy a ideia genial de criar uma batucada. A direcção artística ficou a cargo da Nati, psicóloga limenha com um sentido de ritmo impressionante e que durante vários anos integrou um grupo amador de percussão. As sequências rítmicas foram inventadas por ela, e foi louvável a sua paciência para ensinar e ensaiar todos os trabalhadores Mama Alice e os adolescentes que frequentam o nosso curso de formação em carpintaria. Praticámos durante três semanas, duas horas por dia, sessenta pessoas, e no final este bando de descoordenados rítmicos transformou-se numa batucada de nível profissional.

Saímos à rua no sábado dia nove de fevereiro às duas da tarde. Em vez de trajes tradicionais íamos vestidos completamente de preto e com a cara pintada de prateado. Os homens levavam chapéus tipo cartola e as mulheres levavam o cabelo despenteado tipo bruxa, e uma máscara de baile. Éramos uma banda super completa e dividida por instrumentos: as tarolas à frente, as campanitas a meio e os bombos atrás. E os nossos instrumentos eram muito peculiares: alguidares e cestas de plástico, garrafas de vidro e bidons de lixo. Havia ainda um grupo de bailarinos a abrir o cortejo. Formávamos um conjunto impressionante e era impossível passarmos despercebidos, graças ao espectáculo visual e sonoro que apresentámos. Fomos a comparsa número trinta e nove num total de oitenta e oito, desfilámos durante seis horas pelas ruas da cidade e tivémos muita sorte com o tempo, porque não houve sol que nos grelhasse e só choveu quando já estávamos a terminar.

E quando entrámos na Plaza de Armas apinhada de gente, focos apontados, câmaras da televisão nacional, coração aos pulos no peito e descarga nervosa pela espinha abaixo, cantámos a plenos pulmões “Somos Mama Alice” e cada um de nós sentiu a recompensa do esforço, cansaço, fome e sede que passámos para chegar àquele momento inesquecível de pura adrenalina. E orgulho. Foi um dos dias mais bonitos e emocionantes que vivi desde que cheguei. E foi um sucesso. Os amigos e as pessoas conhecidas que nos viram elogiaram a nossa originalidade e qualidade. O objectivo de causar impacto, chamar a atenção, ser notados e recordados foi completamente alcançado. E sem pinga de alcoól, há que referir. Também nisto Mama Alice fugiu à tradição.

“Ya llegó, ya llegó Mama Alice al Carnaval. Vamos a desfilar!”
“Arriba, abajo, somos Mama Alice. Derecha, izquierda, siempre Mama Alice.”
“Solo he salido, solo de mi casa, com el destino hacia Mama Alice. Brindamos apoyo en educación, psicologia, salude y sociales, a todos los niños en los locales.”

A batucada Mama Alice no Carnaval de Ayacucho 2013

Mathilda, Pili, eu e Inge

A batucada em acção

DIA 120 – MUDANÇAS – QUATRO MESES DE PERÚ


                O tempo passa demasiado depressa. As coisas à minha volta mudam demasiado depressa. O cérebro raciocina, entende e adapta-se, mas o espírito precisa de mais tempo para interiorizar as mudanças e fica a ressacar quando estas se sucedem vertiginosamente. E tem reacções estranhas. Este ano de dois mil e treze que ainda agora começou já vai bem cheio de alterações, e quando olho para os meus primeiros meses no Perú, que por estes dias já são quatro, sinto-os já muito longínquos. Começou outra fase aqui, o meu cérebro raciocina e entende que as coisas mudaram, mas o meu espírito está a ressacar.

                A primeira mudança foi a chegada da Inge, a nova psicóloga Mama Alice, holandesa e nova companheira de casa. Ela chegou quando eu e a Celsa ainda estávamos de viagem, e ficámos um pouco consternadas quando soubémos, na véspera de partir, que não íamos estar cá para a receber. Lembro-me de quão importante foi a recepção e acompanhamento da Celsa quando eu cheguei, e de como teria sido terrível estar sozinha nesses momentos iniciais, e senti-me bastante mal por não poder acompanhar do mesmo modo a recém chegada. Mas a Inge já tinha estado de voluntária em Ayacucho há uns anos, na ONG Los Gorriones, já conhecia a cidade, a casa e a maioria das pessoas da Mama Alice, e não se sentiu tão desorientada à chegada como eu. Menos mal! Assim, no regresso das nossas férias éramos três em casa, e foi uma novidade.

Eu, Celsa e Inge na noite da festa de despedida da Celsa

                A segunda alteração foi profissional. Como a maioria de vocês já sabe, comecei a trabalhar em part-time num atelier de arquitectura aqui em Ayacucho. Eu já vinha de Lisboa com a ideia de arranjar um trabalho pois o meu horário na Mama Alice é só às tardes. Aproveitei os primeiros meses para me habituar à cidade, às pessoas, ao ritmo de vida e também para descansar e decidi que em janeiro, no regresso das férias, iria procurar um trabalho extra para pagar as despesas mensais e assim não queimar totalmente as poupanças que trouxe para o Perú.

                O que eu não estava à espera é que fosse tão fácil e tão rápido concretizar este objectivo. Eu não estava a pensar trabalhar em arquitectura. Na verdade, confesso que vim em busca de novas experiências e a fugir dos ateliers, do computador, do autocad, dos clientes, das plotagens e de todas as dores de cabeça inerentes à minha profissão. A minha ideia de um trabalho em meio tempo era muito simples e modesta, eu não estou à procura de um emprego estável aqui, simplesmente quero aproveitar o tempo livre que tenho para ganhar algum dinheiro extra e alargar a minha experiência de vida. Por isso fui a todos os hotéis e pensões de Ayacucho oferecer os meus préstimos para trabalhar na recepção. Não tenho nenhuma experiência neste campo mas esperava que o meu conhecimento de várias línguas pudesse ser uma mais valia. Além disso tinha sempre a possibilidade de trabalhar numa loja, pois aqui quase todas têm anúncios a pedir empregados, mas eu tinha a intuição de que esse trabalho seria pesado e muito mal pago e estava a deixar para o fim da lista.

                Em todos os hotéis me deram nega. Ou porque neste momento não estão a precisar de pessoal, ou porque preferem peruanos a estranjeiros (o que faz sentido e eu até gostei de ouvir). Uma hora depois de sair de casa nessa manhã de segunda-feira estava um pouco desanimada e a precisar de mudar de estratégia. Então lembrei-me dos dois ateliers de arquitectura que já tinha visto por acaso aqui no centro da cidade. Recordo tão bem o meu pensamento nesse momento, em frente à porta de um deles: “Queres mesmo fazer isto?” Eu queria trabalhar, ou melhor, não é que quisesse mesmo (a minha vida tranquila e descansada tinha sido tão boa até aqui!) mas sabia que era inteligente e sensato fazê-lo. Entrei no atelier. O que se seguiu poderia ser apelidado de ficção científica para o panorama actual em Portugal. Apresentei-me, disse ao que vinha, o arquitecto titular recebeu-me, fez-me imensas perguntas, mostrou-me o seu trabalho e ficou fascinado por eu ser arquitecta formada, europeia e com cinco anos de experiência. Propôs-me começar a trabalhar imediatamente (imediatamente!!!). Eu ainda estava meio desorientada com tantas mudanças (no meu espírito ainda ouvia o mar de Huanchaco) e não estava a conseguir digerir tudo em tempo útil. Propus uma manhã de experiência para o dia seguinte, e assim ganhar tempo para reflectir.

                No segundo atelier onde fui a situação repetiu-se. O arquitecto nem sequer quis olhar para o meu curriculum, que era uma única página bastante modesta escrita em word (portfolio para quê?!), de novo a minha proveniência e experiência falavam por mim. Há que contextualizar a situação arquitectónica no Perú. Em Lima há universidades de arquitectura há vários anos e aí concentram-se as empresas de contrução peruanas e estrangeiras. Há imensas oportunidades de trabalho bastante bem pagas, num estilo de vida em quase tudo semelhante a Portugal. Nas cidades das províncias perdidas nas montanhas só agora surgiram as primeiras universidades, pelo que não há ainda finalistas licenciados. Em Ayacucho há cerca de quarenta arquitectos, dos quais só cinco tem atelier, e nesses ateliers apenas o patrão é arquitecto. Nestes dois ateliers que visitei os colaboradores são ainda estudantes. E trabalho não falta.

                Foi assim que nessa manhã, em duas horas, encontrei trabalho em dois ateliers e pude dar-me ao luxo de escolher em qual queria trabalhar. Depois de uma manhã de experiência num e uma tarde de experiência noutro, escolhi o atelier mais acolhedor, com mais luz natural, e cujo trabalho se centra sobretudo em pequenos projectos para clientes modestos aqui na região de Ayacucho: um casal de agricultores que quer reconstruir a sua casita no campo; uma cabeleireira que quer abrir um salão; um pequeno empresário que quer construir um hotel. Também temos projectos de maior envergadura, como a renovação de uma discoteca aqui no centro da cidade, primeiro trabalho à minha responsabilidade. O salário é bem baixo (níveis peruanos) e dá à rasquinha para pagar a comida. Ainda estou a tentar concluir se vale a pena ou não. É que trabalho de segunda a sexta das oito e meia à uma, a um ritmo bastante acelarado, e o que ganho não compensa o cansaço. Mas paga-me a comida.

                Além disso devo referir que é mesmo uma experiência de ficção científica ser arquitecto estranjeiro aqui. Os meus cinco anos de experiência, que em Portugal me colocam na incómoda posição de “já não sou uma estagiária barata mas ainda não tenho experiência suficiente para ser coordenadora”, aqui dão-me um poder de semi-deusa. Todos me tratam com uma deferência a que não estou habituada, o arquitecto vangloria-se aos clientes apresentando-me como “a arquitecta que veio de Portugal para trabalhar conosco” e isso causa um impacto surpreendente, quase ridículo. A mim dá-me vontade de rir e não me sinto confortável com tanto poder, mas confesso que ter uma reacção constantemente positiva às minhas ideias e conhecimentos é refrescante. Vou ficar mal habituada para voltar para Portugal.

                E foi assim que de repente me vi com as manhãs todas ocupadas e com muito menos tempo para escrever, ler, ir ao mercado ou fazer natação. Não estou eufórica com essa perda de qualidade de vida, sobretudo não estou muito contente por passar quatro horas e meia por dia à frente do computador a desenhar em autocad, mas a verdade é que se quero ganhar algum dinheiro para me sustentar aqui esta é a minha melhor possibilidade. E admito que não tem sido tão mau como eu temia.

                Por fim, a maior de todas as mudanças, que mais impacto está a ter na minha vida presente, que o meu cérebro entende e aceita mas que o meu espírito está a ressacar imenso, foi a partida da Celsa. A Celsa decidiu regressar a casa no final de janeiro, depois de oito meses no Perú. Desde dezembro que a decisão estava tomada e as razões, de cariz pessoal, eram perfeitamente válidas. A nossa viagem de Ano Novo revestiu-se, assim, de um tom muito mais intenso por ser a última viagem juntas. E o mês de janeiro foi muito emotivo. Nesse período demo-nos conta da cumplicidade que desenvolvemos nestes meses, por partilharmos casa mas sobretudo pelas viagens que fizémos. Passámos tanto tempo juntas, vivemos tantas aventuras e partilhámos tantas situações que já tínhamos uma linguagem própria e um imaginário comum a que os nossos amigos aqui satiricamente chamavam de “pequeno casamento”.

                A Celsa foi embora de Ayacucho no dia trinta e um de dezembro à noite, depois de uma semana de despedidas diárias. Aqui qualquer motivo é pretexto para o pessoal se reunir e festejar, e a partida de uma amiga querida muito mais válido pretexto é. Foi muito estranho. Ainda é estranho agora, apenas dez dias depois da partida, dez dias que já me parecem dez semanas. A maior parte do tempo quase nem me lembro, ocupada como estou. É quando chego a casa à noite que me lembro que ela já não está cá, ou quando alguma situação caricata ocorre que me vem o impulso de “contar à Celsa”. Ou quando penso em viajar e já não posso fazer planos com ela.

E isso é o mais estranho de tudo, planear agora viagens sem ela. Porque tivémos uma sorte imensa em partilhar o mesmo tipo de gosto por viagens, porque somos as duas pobres e aventureiras, gostamos de viver tudo ao máximo da emoção e gastar o menos dinheiro possível, mesmo que isso signifique dormir numa tenda e almoçar fruta e pão e viajar consecutivamente em autocarros nocturnos. Foi uma sorte vir para o outro lado do mundo e encontrar uma vizinha ibérica com quem viajar foi tão natural, tão fácil e tão enriquecedor. Foram viagens que me mudaram, ou melhor, que me confirmaram a pessoa que sou e me abriram os horizontes da mente e do espírito para o mundo à minha volta e a vida que escolho viver.

Desde que descubri que viajar é o que mais gosto de fazer na vida que percebi que viajar com outras pessoas é um processo, e que não se viaja bem com qualquer um. Por isso é uma sorte quando encontramos alguém que viaja ao mesmo estilo que nós. E por isso agora me é tão estranho imaginar outras viagens no Perú sem a Celsa. Mas nós temos um acordo. Ela tem o desejo de voltar à América Latina depois de uns meses em Valência, sobretudo porque as previsões de conseguir arranjar um trabalho lá não são nada prometedoras. Então se não houver alteração de planos (o que aqui é o mais provável de acontecer, e faz parte do encanto) esse regresso concidirá com o meu último mês no Perú, para uma última viagem juntas. Última…ou primeira de muitas mais. Quem sabe o que pode acontecer.

A juntar e baralhar ainda mais esta salada de mudanças vertiginosas, chegou mais uma voluntária à Mama Alice. Chama-se Mathilda, é belga e chegou no dia seis de fevereiro. Pois agora somos três em casa outra vez, uma ibérica e duas flamengas. Em poucas semanas mudou tudo! Apenas a casa é a mesma. As dinâmicas interpessoais são inevitavelmente diferentes, e agora encontro-me na curiosa situação de ser a “mais velha da casa”. Quando comparo isso com a desorientação e estranheza que vivi nos primeiros tempos não posso evitar de ficar surpreendida. É que o meu cérebro entende, adapta-se e abre-se à expectativa deste novo período. Tudo é experiência de vida, e não tenho motivos para pensar que não vai ser bom também. Até agora nada foi mau aqui no Perú, não me posso queixar. Um verdadeiro viajante tem de ter a mente aberta para os olás e um espírito tranquilo para os adeuses. Mas as mudanças são demasiado rápidas, o que ficou para trás foi muito bom, e o meu espírito ainda está a ressacar.

Última foto de grupo com Celsa, Sol, os couchsurfers Guillermo e Pau, Pili, a couchsurfer Cláudia, eu, Inge, Nati, Tania, Stefi, Otchoa, Juan e Mariano, na nossa casa.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

DIA 80 – CADA VEZ QUE VOU AO MAR É MAIS DIFÍCIL DE LÁ VOLTAR – ANO NOVO NA COSTA NORTE DO PERÚ


          Por estes dias fez um mês que fui de viagem pela costa norte do Perú para o Ano Novo, e andei a adiar este post porque sabia que ia ser longo. Foram duas semanas de mar, sol e calor em óptima companhia que me encheram os olhos, o corpo e a alma do verão peruano e do Oceano Pacífico, e revisitar agora esses dias para vo-los contar traz-me recordações simultaneamente saborosas e nostálgicas. O regresso foi traumático, como seria de esperar.
  
       Eu e a Celsa saímos de Ayacucho no dia vinte e sete de dezembro à noite, para nos encontrarmos em Lima na manhã seguinte com as nossas companheiras de viagem: a Tânia, que é limenha mas vive aqui em Ayacucho; a sua amiga Carolina que nós ainda não conhecíamos; a Chavi, americana que esteve cá a estagiar durante uns meses e foi embora poucas semanas depois de eu chegar, e que regressou para umas férias e para concluir o projecto; e a Sara, também americana, que também esteve a estagiar em Ayacucho mas já terminou e agora está a escrever a tese em Lima. Passámos dois dias na capital e aproveitámos para passear, comprar coisas que na terrinha são objectos de luxo (como protector solar e um bikini), tomar um café no aprazível bairro de Barranco (a zona artística da metrópole) e fazer uma visita rápida aos meus amigos combonianos para lhes desejar bom ano e despedir-me dos finalistas que no princípio deste ano regressaram ao seu país. No dia vinte e nove apanhámos o bus nocturno para Casma, seis horas a norte de Lima, onde tínhamos alugado uma casa para o Ano Novo na praia de Tortugas.

       Tortugas é uma colónia balnear popular entre os limenhos mas desconhecida dos turistas. Tem poucos hosteis e muitas casas para alugar, e de facto estava cheia de peruanos que ali vieram para os dias de Ano Novo, época alta do verão no hemisfério sul. Estrangeiros não vimos nenhum, à excepção de um senhor espanhol dono do hostel onde tomámos o pequeno-almoço na manhã em que chegámos. A praia fez-me lembrar um pouco S. Martinho do Porto, porque também está disposta em redor de uma baía rodeada de colinas. Mas neste caso as colinas são dunas de areia e terra, porque no Perú a praia é no deserto. Esta paisagem de contraste entre deserto e mar afectou-me na minha primeira viagem, à Reserva Natural de Paracas em Novembro (a roadtrip, lembram-se?), e continua a exercer sobre mim um fascínio indescritível de cada vez que vou à costa. As dunas são altíssimas e impressionantes, e são quilómetros e quilómetros de areia vazia, atravessada pelo alcatrão da Panamericana (autoestrada que segue toda a costa americana do Pacífico desde o Alaska ao Chile, atravessando dezoito países).

 A baía de Tortugas rodeada de dunas

 
A praia

   A nossa casinha minúscula, constituída por uma sala-quarto-cozinha (onde dormimos amontoadas entre um beliche e colchões insufláveis), uma casa-de-banho e uma varanda deliciosa, era a mais alta da vila, a meia encosta nas dunas. Estava orientada para a saída da baía e foi um regalo acordar esses dois dias e ir para a varanda apanhar a brisa e ver aquela vista logo pela manhã. Doía-me o coração de saudades do mar, e ao vê-lo apercebia-me disso com muita intensidade! Como quando não vemos um amigo há muito tempo e nos habituamos à sua ausência, mas depois reencontramo-lo e questionamos-nos como pudemos viver tanto tempo longe dele.



 A nossa casa (a parte de cima, em madeira)

A vista da varanda

     Os nossos dias em Tortugas foram de um ócio delicioso: acordar e tomar um pequeno-almoço de luxo na varanda, ir para a praia, almoçar tarde, dormir a sesta, voltar para a praia, cervejas ao pôr-do-sol na varanda, cozinhar petiscos deliciosos para o jantar e ficar à conversa. Foi incrível a quantidade de comida que conseguimos comprar no mercado de Casma por um valor irrisório para os três dias. Em Tortugas não havia muito que fazer à noite, os poucos bares existentes estavam apinhados de peruanos ao som de reaggaton, e sendo um grupo de seis não sentimos muita necessidade de socializar na primeira noite.

     Na véspera de Ano Novo eu estava eufórica. As passagens de ano são sempre momentos marcantes para mim por causa do meu aniversário, e sempre foi importante ter um plano delineado para essa altura. Passámos o dia na praia de San German com um calor tórrido e eu não estava a conseguir conceber que era o último dia do ano, trinta e um de dezembro, e eu estava a tomar banhos de sol e de mar. Passei o dia todo com uma espécie de dissonância mental, a tentar localizar-me constantemente, e a pensar que no dia seguinte ia fazer vinte e nove anos. Vinte e nove. Cum catano, o último dos vinte. 

 
Boa companhia: Celsa, Sara, Chavi, Tania, Carolina e eu
 

      Nessa noite abrimos o queijinho e o presuntinho que a minha querida mãezinha me tinha mandado (cortesia do Pe. Sérgio, dos combonianos, que os trouxe no final de novembro aquando da sua visita a Portugal) e foi uma festa, sobretudo para mim e para a Celsa que quase chorámos ao sentir aqueles sabores tão ibéricos que não existem nem de longe em Ayacucho. Passámos imenso tempo a cozinhar e a rir e a comer, festejámos a passagem de ano em Espanha, depois a passagem de ano em Portugal, e pouco antes da meia noite peruana descemos à praia para festejar a entrada em dois mil e treze neste fuso horário. 
                                                                                    

A Chavi e a Tania de volta dos nossos pitéus portugueses

Pouco antes da meia noite peruana: Tania, Chavi, Carolina, Celsa, Sara e eu.

         Como já vos tinha contado no post sobre o Natal, aqui no Perú não há fogos de artifícios institucionais. Os foguetes são comprados pelas pessoas que os lançam directamente do seu quintal ou da sua varanda. Em Tortugas, isto resultou num espectáculo impressionante com a baía toda rodeada de vários fogos de artifícios ao mesmo tempo. Foi emocionante! Enquanto isto nós fazíamos o nosso próprio ritual de boas entradas, contando cada uma o acontecimento mais marcante do seu ano passado e o seu maior desejo para o ano novo, agradecendo a PachaMama as suas bençãos.


Feliz Ano Novo!

       Ao final da tarde a Sara tinha andado a indagar pela vila se alguém ia regressar a Lima no dia seguinte, para arranjar boleia para ela e para a Carolina, que tinham de voltar. Não só conseguiu viagem à borla como também conheceu um grupo de limenhos que também estavam a alugar casa ali e nos convidaram para ir festejar com eles a passagem de ano. Então depois da meia-noite decidimos romper o nosso estado anti-social e atravessámos a vila que estava em polvorosa com a multidão de gente a festejar dois mil e treze nos bares, na praia e nas casas de portas abertas. Não há uma discoteca em Tortugas, e não nos fez falta nenhuma, porque não faltou música e animação.


       No dia um de janeiro acordei com Parabéns e outro pequeno-almoço de luxo na varanda. Ficámos na ronha e só à tarde nos activámos para ir um bocadinho à praia antes das arrumações e limpezas, pois nessa noite íamos embora. A Sara e a Carolina foram a meio da tarde com a sua boleia para Lima, e ficámos as quatro que seguimos viagem para o norte: eu, a Celsa, a Tânia e a Chavi. Fomos brindadas com o primeiro pôr-do-sol espectacular daquelas férias e seguimos de táxi para Casma, onde apanhámos um combi para Chimbote, e daí bus nocturno para Piura, a oito horas de distância, iniciando a primeira maratona rodoviária da nossa viagem. Durante a noite estive bastante tempo acordada a ver o deserto rolar pela minha janela, banhado pelo luar de lua cheia.

                Piura é a segunda capital de província mais a norte do Perú (a primeira é Tumbes, junto à fronteira com o Ecuador) e é uma típica cidade da costa desértica peruana, cheia de pó e vazia de interesse. Daqui decidimos ir à praia de Colán, que a nossa guia peruana privada (a Tânia!) sugeriu. Para lá chegar tivémos de apanhar um bus para a vila de Paita, onde não nos demorámos de tão feia que é, e depois um táxi. Foram cinco meios de transporte para vir de Tortugas até aqui. 

                Colán estava a acordar das festanças do Ano Novo e quando chegámos tivémos um choque com a quantidade de lixo que havia na praia. Por sorte encontrámos um hostel de estilo hawaiano que tinha acabado de abrir e ficámos aí um bom bocado a tomar o pequeno-almoço e a recuperar do cansaço da viagem. Ao longo da manhã a praia foi limpa e acabou por revelar-se um lugar lindíssimo, era muito comprida e de areia fina como as praias da Caparica à Fonte da Telha, e estava vazia, só para nós. Atravessámo-la de uma ponta à outra, vimos gaivotas, pelicanos, alforrecas gigantes, uma moreia e uma carapaça de tartaruga vazia. A areia molhada ficava coberta por umas estranhas partículas douradas que pareciam ouro fino e brilhante quando as ondas vazavam. E pelo caminho parámos para apanhar sol e tomar banho. Banho de mar e de protector solar, factor cinquenta por favor, que no Perú há um buraco na camada de ozono e o sol queima mesmo debaixo dos toldos.





              
         A nossa maratona rodoviária recomeçou à hora de almoço, com taxi de regresso a Paita, combi para Sullana e finalmente bus para Mâncora, a capital do verão e da movida na costa norte do Perú, onde chegámos à hora de jantar e onde dormimos essa noite num hostel por seis euros por pessoa em quarto quádruplo com casa de banho privativa (priceless!!).

Mâncora é a típica vila de mar que enche no verão. Fez-me lembrar Albufeira, com a diferença de aqui não haver ingleses e alemães e haver colombianos, equadorenhos, chilenos e argentinos de rastas a vender artesanato na rua. Mâncora é a capital hippie da costa norte do Perú! Mas é demasiado comercial. Há mais bancas de artesanato que turistas e há mais turistas que peruanos, a praia é minúscula e está apinhada, e à noite os bares que enchem a rua principal competem para ter a música mais alta (tal e qual a Praia da Oura, mas com raggae e raggaton). Ficámos aqui uma noite, tomámos umas cervejas depois do jantar mas fugimos à movida, e na manhã seguinte fomos para Punta Sal depois do pequeno-almoço, a nossa principal refeição de viagem e ritual indispensável das nossas manhãs.


Mäncora pela manhä

Punta Sal é A PRAIA. A vinte minutos de combi de Mâncora, é uma vilazinha pacata com várias casas para alugar mas poucos hostéis e restaurantes, e a praia é um areal extenso a perder de vista, com areia branca, ondas pequenas e água morna. Estava cheia de famílias em férias e não avistámos turistas. Decidimos alugar um toldo porque não tínhamos chapéu e passar o dia ao sol era pedir queimaduras de terceiro grau. Instalámo-nos de mochilas e bagagens debaixo do nosso toldo e ficámos naquele pedaço de paraíso até meio da tarde. A praia era tão extensa que quando decidimos caminhar até ao fim descubrimos que ao cabo de uma hora só tínhamos chegado a meio, e voltámos para trás.



        De Punta Sal queríamos continuar para norte e ir à vila de Zorritos, a cerca de quarenta quilómetros, porque nos tinham dito que a praia aí era bonita e no nosso guia encontrámos indicação de um camping ecológico que ficámos com curiosidade de conhecer. Como andávamos com a tenda às costas e em modo low-cost, decidimos que essa iria ser a nossa primeira noite de campismo. A estrada que passa em Punta Sal é a que vai de Mâncora a Tumbes e tínhamos indicação de que na berma paravam combis e que podíamos subir para sair em Zorritos, que fica em caminho. O que não nos disseram foi que os combis saem cheios de Mâncora e que já não param em Punta Sal. Estivémos assim um bom pedaço de tempo carregadas com as mochilas, à beira da estrada, a vê-los passar. A alternativa era ir de táxi, mas o preço era tão exorbitante que decidimos esperar e só aceitar essa possibilidade quando começasse a ficar de noite e já estivéssemos desesperadas.

                PachaMama zela por nós e desde que cheguei ao Perú que constato essa inegabilidade com muita frequência. Depois de muitos combis a passar por nós e a inquietação a crescer, decidimos começar a pedir boleia. Éramos quatro, o que nos dava segurança, e assim pusémos o dedo no ar a tudo o que era jipe ou camião. A maioria das viaturas que passavam eram famílias e ninguém parava. Também não estava a resultar! Até que vimos sair de Punta Sal uma pick-up com um casal que respondeu ao nosso apelo e foi tal a alegria quando pararam e nos chamaram que desatámos a correr com as mochilas e literalmente lhes invadimos o porta-bagagens e os assentos traseiros. São peruanos, chamam-se Mariano e Melisa e andavam, tal como nós, a correr a costa norte do Perú, mas de carro. Foram SUPER AMÁVEIS, ficaram contentes por conhecer outros viajantes, e ajudaram-nos a encontrar o camping que ficava fora de vila e tivémos de andar às voltas a perguntar para o encontrar. E quando chegámos à Casa Grillo Tres Puntas ficámos todos tão maravilhados que a Melisa e o Mariano decidiram alterar os seus planos de ir dormir a Tumbes e passaram aquela noite ali conosco! 

 
A vida é uma questäo de atitude :)

 Melisa, Mariano, Celsa, Tania, Chavi e eu no primeiro pör-do-sol inesquecível em Zorritos

       A Casa Grillo Tres Puntas é um conjunto ecológico low-cost, propriedade de um senhor espanhol de meia idade completamente chalado da cabeça, que vive no Perú há vinte anos e na época alta tem a colaboração da sua irmã, igualmente louca. São do mais divertido que se possa imaginar e criaram em Zorritos um micro-cosmos de tranquilidade inesquecível. O terreno enorme à beira-mar está polvilhado de algumas poucas estruturas construídas com troncos, canas e madeira, onde se situam a recepção, o restaurante e a cozinha, as casas de banho e os quartos (fez-me lembrar as construções escutistas, mas com um pouco mais de conforto). O restante espaço está ocupado por pequenas áreas de campismo cobertas com telheiros de palhinha para as tendas, e um bar de praia no mesmo material. As camas de rede são uma constante na paisagem. Todo o ambiente está impregnado de respeito pela natureza, poupança e aproveitamento dos recursos naturais e fraternidade humana, e o complexo é um contínuo work in progress (na época baixa aceitam voluntários para ajudar na construção a troco de alojamento, alimentação e uma semanada, além da experiência de viver durante um tempo neste pequeno paraíso terrestre). No restaurante come-se peixinho fresquinho e gaspacho delicioso, e à noite há fogueira junto ao bar da praia, e a fraca iluminação permite ver o céu completamente estrelado. Só faltou música reaggae para completar o meu sonho de uma festa na praia com fogueira.

 
Zona de campismo

 
 O bar de praia


  O restaurante



Depressa a nossa intenção de ficar uma noite esticou para duas e passámos um dia de relax total nas camas de rede, a conversar, a ler e a tomar banho no mar de água azul e quente. Entretanto chegou a nossa amiga Nathi, também limenha a viver em Ayacucho, que veio com o namorado (o Walter) passar férias à costa norte e aproveitou estar ali perto para vir passar uma noite conosco em à Casa Grillo. Nunca estamos sós quando estamos a viajar! O pôr-do-sol deste dia foi ainda mais espectacular do que o do dia um de janeiro, e eu senti-me abençoada e sortuda por poder acampar e passar um dia da minha vida num lugar tão paradisíaco. Estávamos todas muito emocionadas.



Foi com muita pena que na manhã seguinte arrumámos a tralha, nos despedimos dos senhores espanhóis e regressámos a Mâncora. A nossa pena era grande também porque a viagem a quatro estava a terminar: a Tânia e a Chavi viajariam nessa noite para Lima, porque daí a dois dias tinham de regressar ao trabalho em Ayacucho. Eu e a Celsa tínhamos mais uma semana de férias e íamos seguir viagem para Trujillo, a dez horas a sul de Mâncora, a terceira cidade do Perú. De seis estavamos a passar progressivamente a duas.

Despedida de Zorritos: Nathi, Celsa, Chavi, Tania e eu.

Vagueámos as quatro por Mâncora durante a tarde com um peso no coração, fomos ao mercado comprar comida para a viagem, vimos e revimos as centenas de barraquinhas de artesanato e tomámos a última cerveja juntas à beira-mar. A Tânia e a Chavi partiram às cinco, nós teríamos de esperar até às nove, e por esta altura eu sentia que me tinham amputado os braços. É incrível a facilidade com que nos habituamos a viajar em boa companhia e como fica um buraco vazio quando essa companhia se vai. Dinâmicas de interacção pessoal que se criam, em que cada elemento tem o seu espaço específico no seio do grupo e cada personalidade contribui para o êxito da convivência. Dentro de uma semana iríamos reencontrar-nos as quatro em Ayacucho, mas por agora seguíamos viagem separadas e isso estava a pesar. Bom, viajar tem destas coisas e há que ter mente aberta para os olás e espírito tranquilo para os adeuses. 

Essas horas de espera até ao autocarro nocturno para Trujillo foram intermináveis e já conhecíamos a vila de uma ponta à outra. Estávamos aborrecidas e cansadas de cirandar, pelo que decidimos abancar na pracinha central e simplesmente esperar que o tempo passasse – viajar também tem destas coisas e há que ter paciência e apreciar o momento. A nossa paciência acabou por ser recompensada porque a praça começou a encher-se de crianças a brincar ao ar morno da noite, e a certa altura chegou um grupo de palhaços argentinos que improvisa circo de rua e montaram ali um espectáculo super cómico que nos fez voar as horas até ser tempo de apanhar o bus. Obrigada PachaMama, pela feliz coincidência, mais uma vez!


O circo ambulante argentino Mepan

Nas viagens de autocarro que temos feito nunca houve contratempos. Já viajámos em doze companhias de longa distância diferentes, fora os combis e autocarros urbanos, e nunca tivémos problemas graves. Mas em viagem tudo pode acontecer e a sorte não pode ser constante, porque a PachaMama tem muitos viajantes para abençoar nesta meca sul americana do turismo económico. E há que estar preparado para qualquer imprevisto.     

                        
A companhia com que viajámos de Mâncora para Trujillo, Turismo El Sol, é uma empresa local e não tínhamos qualquer referência sobre os seus autocarros, à semelhança de muitas outras pequenas companhias em que já viajámos. Como era a única que ainda tinha lugares disponíveis naquele sábado à noite, não tivémos alternativa. E nem estávamos inquietas quanto a isso, porque a esta altura viajar em autocarros nocturnos já se tinha tornado para nós tão natural como a nossa sede. Mas assim que subimos ao bus percebemos inequivocamente que tínhamos sido enganadas, juntamente com os restantes cinquenta passageiros, metade dos quais turistas surpreendidos como nós. O autocarro não tinha assentos semi-cama como é normal nas longas distâncias no Perú, não tinha WC nem sequer ar condicionado. Eu comecei logo a ver a minha vida a andar para trás: dez horas em assentos normais de expresso Lisboa-Porto, com a minha bexiga de idosa (quem me conhece sabe que rego as flores de hora a hora) e com o bafo quente da noite no deserto. Muito bom. Começou o riso nervoso e ainda a procissão estava no adro. Ia ser uma longa noite.

Durante os primeiros quilómetros acordámos muitas vezes com paragens imprevistas para subir mais gente para o bus, que viajava no corredor por não haver assentos livres (isto não é suposto acontecer nas longas distâncias). Depois entraram polícias armados com metralhadoras e fizeram uma revista. Nesta altura eu já não tinha posição no assento e já estava apertadinha e não estava a ver como ia conseguir resolver o meu problema. Mas isso era porque ainda não sabia o que estava para vir: duas horas depois de sairmos de Mâncora rebentou um pneu do autocarro e ficámos empanados à beira da estrada no meio do deserto, longe de qualquer civilização e sem iluminação pública. Os dois motoristas atarefavam-se à volta da roda gigante, demoraram imenso tempo para tirar o pneu feito em fanicos e parecia que não estavam a conseguir colocar o subselente. Várias pessoas aproveitaram para “ir à casa de banho” no meio do deserto estrelado e assim fizémos também eu, a Celsa e a Trina, uma rapariga inglesa que estava a viajar com o namorado australiano, o surfista Dave. O pneu não dava sinais de querer prestar serviço, ninguém nos dava nenhuma explicação, e recordo este momento de dúvida total e desespero cómico em que o Dave pronunciou a frase da noite: “Funny night at the desert, uh?” Não fazíamos a mínima ideia de quando íamos sair dali.

                Duas horas depois do incidente passaram dois autocarros da mesma companhia do nosso e recolheram os passageiros desafortunados. Nós seguimos no segundo, que era da mesma qualidade do anterior e estava igualmente à pinha. Conclusão: viajar sentados no corredor. Não tenho palavras para descrever com precisão o inferno que foi esta viagem. Cerca de vinte pessoas atulhadas no corredor do bus, sentadas no chão, sem poder esticar as pernas ou encostar as costas, durante oito horas até Trujillo. Primeiro começou por me doer tudo, começando pelas costas e passando às pernas, e depois deixou de me doer porque estava toda dormente. Atrás de mim a Celsa quase teve um ataque de ansiedade pelo pouco espaço vital disponível, e se eu não estivesse numa fase tão tranquila e “peace and love” da minha vida tinha desatado a chorar. Mas estamos no Perú, coisas destas supostamente acontecem com mais frequência do que a nossa sorte tem ditado, e eu só pensava na bela história que teria para contar. Se chegasse viva ao destino. 

Mas sabem o que se diz: uma desgraça nunca vem só. Como se não bastasse o pneu furado do primeiro autocarro, confirmámos a falta de manutenção da frota desta companhia quando o motor do segundo bus avariou. WHAT?? Devem estar a gozar, não pode ser verdade! Dois autocarros na mesma noite? Qual era a probabilidade?? Mais uma vez parados enquanto os motoristas tentavam consertar o motor e telefonavam a não sei quem a perguntar se era muito grave retirarem um cabo qualquer e ligarem directamente não sei que parte do motor a outra. Eu teria preferido não perceber espanhol para não perceber que os homens não tinham a mínima ideia do que estavam a fazer. E de madrugada no meio do deserto, não podíamos fazer mais que sair para esticar as pernas e as costas e rezar para que aquele pesadelo acabasse depressa.                 
                                                                                                       
Uma hora depois o motor acordou (eu preferi fingir que não havia motivos de preocupação com questões de segurança rodoviária) e seguimos viagem apertados no corredor. De algum modo consegui dormir com a cabeça encostada aos joelhos encolhidos. Não sei como foi anatomicamente possível, mas dormi. À minha frente, algumas pessoas viajaram de pé toda a noite por não haver mais espaço para sentar. Eu olhava para elas entre sonos atribulados e sentia-me ligeiramente sortuda.

                De manhãzinha parámos na cidade de Chiclayo e metade dos passageiros desceu, o que permitiu aos desafortunados ganhar um assento para as restantes TRÊS HORAS de viagem até Trujillo. Entretanto começou a entrar um sol esplendoroso pelas janelas sem cortinas, trazendo o seu calor tórrido para o qual não havia combate de ar condicionado, e quando chegámos ao nosso destino às dez da manhã (três horas de atraso…) eu estava capaz de bater em alguém. Foi o pior amanhecer em viagem que já tive. Vimos de longe o Dave e a Trina entrarem no primeiro táxi livre que lhes apareceu, e apesar do nosso desejo louco de fugir dali e ir sem mais delongas para a praia, decidimos que os incidentes daquela noite tinham sido muito graves e mereciam uma reclamação. Eu estava tão furiosa que tinha era vontade de ir directamente à polícia.

                Tenho de referir que nenhuma de nós tinha a ilusão de que a reclamação fosse servir para alguma coisa. Estamos no Perú, e se estas coisas não funcionam bem nem em Portugal, quanto mais aqui. Mas era a única coisa que podíamos fazer e tínhamos de descarregar a nossa frustação em alguém. Pois o empregado que nos atendeu era um mono idiota sem cérebro dentro do crânio e deu-nos a desculpa perfeita para entabular uma discussão digna de filme. Enchemos duas páginas do livro de reclamações apesar do tom de gozo contínuo com que fomos brindadas e eu ainda ameacei com a denúncia na polícia. Claro que não serviu para nada, e foi desconcertante ver esse mesmo livro cheio de histórias desagradáveis de passageiros anteriores. Muito bom!

                Corremos dali e apanhamos um combi para Huanchaco, uma vila balnear a quinze quilómetros de Trujillo, e quando vi o mar ao longe comecei a relaxar e esforçar-me para esquecer a noite vivida e fingir que tinha sido só um sonho mau. Estávamos a chegar à praia, era domingo, estava calor e a vida era boa. As minhas costas berravam-me incongruências e eu prometi-lhes incansavelmente que me ia deitar na areia assim que pudesse, mas para além disso e da tensão acumulada não tinha acontecido nada de verdadeiramente grave, pelo que havia que aproveitar o resto da viagem que ainda tinha muito para ser inesquecível. 

E foi. Huanchaco é um lugar GE-NI-AL. A vilazinha está toda estendida à beira mar, ao longo de vários quilómetros de areal, hosteis, bares, restaurantes, vendedores de artesanato ambulantes, muitos veraneantes peruanos e viajantes estrangeiros, e sobretudo SURFISTAS. Huanchaco é uma das mecas do surf peruano e assim que chegámos começámos a sentir a adrenalina das ondas, antevendo as aulas com que vínhamos sonhando desde Ayacucho. Encontrámos alojamento no hostel da Sra. Solange, uma velhota mega surda com quem era preciso gritar para nos entendermos (e pelo que descubrimos mais tarde, uma relíquia humana de Huanchaco) que nos deixou um quarto com casa de banho privativa por dez soles por noite a cada uma (o equivalente a três euros). A ideia era ficar aqui duas noites. 
                             
Nessa tarde descubrimos um restaurante barato com óptima comida de peixinho fresco e atendimento super amável (um bálsamo para as nossas almas magoadas das insolências anteriormente suportadas), passeámos pela vila, fomos ao mercado (outro ritual incontornável das nossas viagens), estivémos na praia até começar a ficar frio (em Huanchaco levanta-se um vendaval ao fim da tarde, independentemente do calor que esteja durante o dia) e corremos as inúmeras escolas de surf à procura dos melhores preços para as aulas. Acabámos por decidir-nos pela primeira onde tínhamos entrado, muitas vezes a primeira impressão é a mais marcante, e reservámos uma aula para o dia seguinte. Escola: The Wave; professor: Carlos, um peruano de trinta e cinco anos muito fixe, super amável e muito paciente, como haveríamos de comprovar mais tarde. Preço: quarenta soles por cada aula de duas horas (cerca de doze euros), com possibilidade de usar o equipamento o resto do dia. Na loja conhecemos também o irmão dele, Eduardo, os outros rapazes que trabalham com eles, e a Canela, uma ex-cadela de rua super meiga, adoptada pela The Wave e conhecida em toda a vila. Estavam lançados os dados para dois dias brutais da nossa viagem pela costa norte do Perú.





Nessa noite não tivémos fome para jantar, em virtude do almoço tardio, e decidimo-nos por umas cervejas num bar com bom ar à beira mar. O dono era um velhote americano, ficava eufórico com cada estrangeiro que entrava e ao ver-nos duas meninas sozinhas veio assegurar-nos que só precisávamos de chamá-lo caso alguém nos viesse incomodar. A juntar ao bom ambiente era momento de happy hour pelo que pudémos pedir cocktails típicos do Perú que normalmente não bebemos porque nos saem fora do orçamento, a preço de dois por um.                                                 
                                                                               
Estávamos nós nesta amena cavaqueira de conversas filosóficas sobre a vida, as experiências, as viagens, a crise na Europa e a dificuldade de vida que os nossos dois países apresentam neste momento, quando vemos entrar no bar os nossos companheiros da viagem do inferno: o Dave e a Trina. Reconhecemo-nos mutuamente com emoção e eles sentaram-se à nossa mesa. Vinham acompanhados do Josh, um surfista americano que tinham conhecido no hostel. Aceitaram com agrado a nossa boleia na happy hour dos cocktails e ficámos várias horas à conversa, interrompidos de quando em quando pelo dono americano que nos vinha perguntar que música queríamos ouvir, e que a certa altura se fartou de aceitar pedidos e monopolizou a playlist com a sua banda favorita: ABBA. Acompanhava a música com canto e baile. Uma visão demasiado gráfica e inesquecível (oh my god). Já era tarde quando nos lembrámos que no dia seguinte tínhamos aula de surf bem cedinho, e chegámos à conclusão de ter uma excelente noção de oportunidade, visto termos decidido fazer noitada pela primeira vez na nossa viagem justamente na véspera de uma aula de surf. Esperteza saloia!

A adrenalina do surf é indescritível por palavras. A energia da onda debaixo da prancha é tão forte que várias vezes senti que ia depressa demais e antevi com clareza gráfica o meu tombo de chapa na água. De cem vezes que subi à prancha caí noventa e nove, e foram incontáveis as ondas que comi na cara. Para dez segundos em cima das ondas é preciso remar dez minutos contra elas, e ao fim de duas horas de aula já me tinham caído os braços de exaustão. E esfolei o queixo contra a prancha numa das quedas. Tive medo várias vezes, sobretudo quando vinham umas ondaças maiores e eu me agarrava com toda a força à prancha para não ir enrolada e desatava a gritar (por questões de educação não posso reproduzir aqui). Consegui surfar UMA onda. E valeu tão a pena! Éramos quatro alunas ao mesmo tempo, e o Carlos revelou-se um professor paciente e motivador apesar da minha evidente falta de jeito. Foi tudo uma emoção, desde vestir o fato, carregar a long-board enorme pela praia, praticar na areia, nadar até fora de pé, atravessar as ondas a direito agarrada à prancha, descansar nos momentos calmos com a cara contra a prancha a sentir o calor do sol, deixar de ter medo de cair, e por fim apanhar uma onda. Foi uma experiência inesquecível e consigo perceber perfeitamente os surfistas viciados nesta coisa. 


Quando eu digo que era uma long-board, estou mesmo a dizer a verdade!



Ondaaaaaaa!

Depois da aula tínhamos um fome de leão e fomos almoçar outra vez ao restaurante simpático da véspera. A ideia era dormir uma sesta na praia e depois ir buscar os fatos e as pranchas e ir outra vez para dentro de água. Na praia encontrámos o Josh, o surfista americano, que para o outro lado onde as ondas eram maiores, mas amavelmente se voluntariou para nos ajudar a apanhar umas ondas. Mas foi em vão. À tarde a corrente estava muito mais forte e as ondas muito maiores, e passámos meia hora de esforço contínuo a tentar passar a barreira da rebentação. Esforço inútil. Quem ficou totalmente rebentada fui eu, e fui a arrastar-me para deixar o equipamento na escola. Não foi uma boa ideia. Só que isto do surf é um vício e já estava a nascer no nosso espírito a ideia de ter outra aula com o Carlos na manhã seguinte.

À noite fomos outra vez de cervejas com o Josh, o Dave e a Trina e conhecemos o hostel Naylamp, onde eles estavam hospedados, que tem quartos e espaço para campismo, e também tem camas de rede, cozinha para os hóspedes e duches de água quentinha. Uma espécie de Casa Grillo mais urbana e menos rústica.

Na manhã seguinte repetimos a aula de surf e a mim correu pior que a primeira. O esforço da tarde anterior paguei-o caro com um extremo cansaço físico e tive de desistir antes do fim. Já não tinha braços, já não era pessoa. A frase “Rema, rema, ahora llevanta!” ficou-me gravada nos ouvidos, e nos dias seguintes não tinha força sequer para cortar a comida. A dor de braços durou-me quase duas semanas. Mas a recordação da água na cara e da energia da onda debaixo da prancha marcou-se indelevelmente no meu espírito. 

               Entretanto já tínhamos decidido alargar a nossa estadia em Huanchaco por mais uma noite (adoro mudanças de planos!) mas quando o comunicámos à Sra. Solange ela passou de avó amorosa a avarenta antipática e quis aumentar-nos o preço. Que descaramento! Não conseguimos renegociar mesmo ameaçando que íamos embora, e acabámos por ser despejadas sem complacência. Decidimos dar uso à tenda e fomos ter com os nossos amigos ao hostal Naylamp. Acreditem que é um must carregar com as mochilas logo a seguir a uma aula de surf. Oh se é!               
                                                                                    
             Nessa tarde decidimos incluir algo cultural na nossa viagem e tivémos a companhia do Josh para visitar as ruínas de Chan Chan, uma antiga cidadela de adobe com não me lembro quantos hectares de área, pertencente à civilização Chimú (que habitou o norte do Perú no século onze), e a meio caminho entre Trujillo e Huanchaco. É impressionante esta cidade feita de areia, emergindo no meio do deserto com um oásis de água no interior. Os Chimús canalizavam a água e tinham vastos campos cultivados no meio das areias estéreis. Estava um calor que não se podia.

Há que caminhar quilómetro e meio no deserto para ir da paragem de autocarro ä cidadela de Chan Chan


 Pequenos oásis no meio do deserto

 Pelicanos de Huanchaco

 O Gran Señor Chimu Capac

  A Celsa e eu com o Gran Señor Chimu Capac

 Funny days at the desert: eu, o Josh e a Celsa

        Ao final do dia o Dave e a Trina seguiram viagem para Lima e ficámos com o Josh a beber umas cervejas na praia à noite. O troar das ondas tinham em mim um efeito de regresso a casa e de canção de embalar, e ficámos algum tempo em silêncio simplesmente a ouvi-lo. A melhor recordação que tenho desta viagem é a de adormecer e acordar com o barulho do mar. Sinto imensamente a falta disso aqui nas montanhas.

        No nosso antepenúltimo dia de férias despedimo-nos do Josh, que também ia seguir viagem, e depois do microbus para Trujillo apanhámos o bus para Chiclayo, onde nos esperavam os nossos amigos Pilar e Mariano, que vivem em Ayacucho mas estavam de férias ali porque é a terra natal dela. Em Chiclayo dormimos em casa de uma amiga da Pili e além de darmos uma volta pela cidade tivémos o nosso segundo e último momento cultural da viagem: visitámos um dos museus mais famosos do Perú, e o único que eu visitei até à data: as Tumbas Reais do Senhor de Sipán, onde estão os artefactos retirados de uma tumba funerária encerrada numa pirâmide de adobe da cultura Moche, que habitou o norte do Perú no século trës. Dentro desta tumba foram descobertas várias camadas sucessivas de personagens importantes enterradas, a avaliar pela quantidade de objectos de ouro, prata e cerâmica que tinham enterradas consigo. Este museu é impressionante não só pela riqueza que alberga mas também pela documentação rigorosa do trabalho dos arqueólogos e pelas reconstituições realistas da sociedade Moche.

       Antes de apanharmos o bus nocturno de Chiclayo para Lima no dia dez de janeiro tivémos ainda tempo para ir à praia de Puerto Ente, onde vimos o mar pela última vez e comemos uma especialidade da zona: arroz de pato. Sim, arroz de pato! Quem diria, hein?
          
           A companhia com que viajámos, Transportes Chiclayo, era em tudo oposta à da viagem do inferno: verdadeiros assentos semi-cama, uma casa-de-banho em cada piso, jantar e pequeno-almoço (melhores que nos aviões!!), mantinha e almofada, e uma hospedeira super amável. Foi um regalo viajar naquele bus, apesar de terem sido treze horas até Lima. Chegámos pela manhãnzinha e a ideia era passar o dia pela cidade e ir ao cinema, repetindo o que fizémos no regresso do Lago Titicaca, e depois apanhar outro autocarro nocturno para chegar a Ayacucho na manhã seguinte. Mas estava-se a acabar o budget para as nossas férias e estávamos tão cansadas que já não tínhamos coragem nem energia sequer para nos mexermos. 

Então decidimo-nos pelo autocarro diurno para Ayacucho, que é inclusive mais barato, e a viagem mais longa. Chegámos a casa à noitinha dessa sexta-feira, depois de vinte e três horas de bus desde a costa norte. Foi uma maratona interminável, eu já não tinha posição nem sentada nem deitada nem de pé nem de maneira nenhuma. Só queria que acabasse, mas ao mesmo tempo não queria voltar, o meu coração ficou no mar de Huanchaco e o regresso às montanhas foi um puro sentido de dever e de inevitabilidade contra o qual o meu espírito se revoltou a cada quilómetro. Lembro-me tão bem de ver o desenrolar da paisagem já conhecida, primeiro um pedaço de costa desértica a sul de Lima, depois a entrada nas montanhas ainda arenosas, e depois subindo pouco a pouco até começar a ficar frio e passarmos pela neve. E a cada avanço na estrada eu sentia-me cada vez mais esticada como um elástico, porque o bus estava a puxar uma parte de mim para muito longe de onde tinha ficado a outra parte.

          E quando chegámos a Ayacucho estava a chover, e estava frio. E nós vínhamos ainda de calções, t-shirt e sandálias. Escusado será descrever o choque. Valeu o fim de semana inteiro para recuperar, a Tânia e a Chavi ansiosas pela nossa chegada e os amigos curiosos com as nossas histórias. E depois a Celsa regressou ao trabalho mas eu ainda tive uma semana de férias para deambular por Ayacucho, o que ajudou a que a pouco e pouco o espírito voltasse aqui.

             Agora, um mês depois, ainda posso fechar os olhos e ver o brilho, ouvir o troar e sentir o cheiro a sal do mar e a água na cara como se tivesse sido ontem. Quero guardar esta memória tão vívida até à próxima vez que o vir.