quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

DIA 59 – VIAJAR ABRE PORTAS – LAGO TITICACA e BOLÍVIA

                Uma viagem de contrastes. Os nove dias da nossa viagem ao Lago Titicaca e à Bolívia foram cheios de contrastes. Começaram com vinte e duas horas de autocarro, de Ayacucho a Andahuayllas, com mudança de paisagem e de bus, até Cusco.

                Chegámos a Cusco às seis da manhã e foi uma emoção estar na capital do antigo império inca. O nosso objectivo era o Lago Titicaca, em cuja rota Cusco foi apenas uma paragem técnica, e por isso não fizémos os expectáveis passeios pelo Vale Sagrado e não fomos a Machu Pichu (para surpresa e admiração dos inúmeros operadores turísticos que nos interpelavam na Plaza de Armas). Mas as dezassete horas que passámos nesta bela cidade (a mais bela do Perú?) foram inesquecíveis. Passeámos pelas ruazinhas íngremes e estreitas da época inca, ao estilo tão surpreendentemente familiar das cidades medievais europeias, descubrimos as praças e os mercados, as ruínas incas sob os edifícios coloniais, vimos um jogo de basketball feminino, vimos lamas na cidade. Fomos de passeio a cavalo pelas montanhas, e jantámos (às cinco da tarde) numa típica tasca peruana descoberta por acaso, e sem turistas! E fugimos da chuva para assitir, confortavelmente sentadas e quentinhas, a um concurso de danças tradicionais da universidade local. Cusco é turística, talvez até demais, mas tão amigável e “user friendly” que foi com pena que a deixámos para apanhar o autocarro nocturno para Puno, na margem do lago. Segunda noite consecutiva passada em bus.

Cusco - Plaza de Armas


Um lama chamado Pablito


Os telhados de Cusco

                Em total contraste, Puno é uma cidade portuária feia. Nem a Plaza de Armas atrai. O interesse de chegar aqui é chegar ao Titicaca. Com uma sorte de minutos tivémos tempo para um pequeno-almoço apressado no porto antes de apanharmos o barco para as ilhas. A nossa tentativa de fugir aos tours organizados foi totalmente frustada, porque os percursos turísticos no lado peruano do Lago Titicaca estão muito condicionados e neste período de época baixa não há barcos suficientes para irmos por nossa conta. Assim, sem querer, vimo-nos integradas numa excursão com direito a guia bilingue (o “nosso amigo” Hermógenes), cuja primeira paragem foi nas ilhas flutuantes dos Uros.

                Os Uros são uma comunidade Aymara que vive em ilhas artificiais feitas de juncos, a uma hora de Puno. Vivem há seculos quase totalmente isolados da civilização, conservam o seu modo de vida ancestral e mostram aos visitantes apenas uma pequena parte da sua comunidade. Os juncos que crescem nos baixios do lago são a base da sua sobrevivência, pois utilizam-no para construir as casas, os barcos e as próprias ilhas, e também para comer (mas na verdade não tem nenhum sabor). Vivem da pesca, da venda de artesanato e do turismo, para o qual estão tão orientados que se torna decepcionante. Estivémos nestas ilhas apenas duas horas, visitámos apenas duas das inúmeras ilhas que compõe a comunidade, e vimos o que eles nos queriam mostrar, não o que individualmente nos poderia apetecer ver. Valeu a pena pela paisagem deslumbrante do lago, pela curiosidade e surpresa de descubrir pessoas com um estilo de vida tão antigo e arcaico, valeu a pena pela diferença. Mas foi uma desilusão para as minhas expectativas.

Lago Titicaca - Ilhas dos Uros







A vida é feita de coincidências (há quem lhes chame destino), e quando viajamos aumentamos exponencialmente as probabilidades de acontecerem coisas. Coisas boas e claro, coisas menos boas. Mas acontecem muitas coisas quando viajamos, simplesmente porque levantamos o nosso rabiosque preguiçoso da nossa vida confortável e nos pomos a mexer. E quando nos mexemos, tudo à nossa volta se mexe também. A nossa integração involuntária na tour organizada acabou por ter consequências surpreendentes. Conhecemos a Julia e o Miguel, um casal de designers gráficos espanhóis da nossa idade que fugiu da crise e anda a viajar pela América Latina há cinco meses, em modo backpacker low-cost, parando para trabalhar onde encontram alguém que precise de uma página de internet ou de algum trabalho de publicidade, em troca de alojamento e comida (trabalharam em Cuba, no Ecuador, e estão neste momento a trabalhar na Bolívia). E com eles estava o Alejandro, irmão da Julia, jornalista recentemente desempregado, que também fugiu da crise e veio ter com eles para viajar um mês pelo Perú e pela Bolívia. Quando começámos os cinco na conversa durante a viagem de barco não podíamos imaginar a empatia brutal que íamos ter, nem que íamos querer passar juntos os dias seguintes, como uma pequena família feliz.

Dos Uros seguimos para a ilha Amantaní, a quarenta e cinco kilómetros de Puno (três horas de barco) e durante a viagem descubrimos com algum desconcerto que também aí a nossa permanência já estava bastante organizada. O sistema de alojamento é familiar, ou seja, em casa das pessoas que vivem na ilha, inclui dormida e três refeições, e funciona por rotação, de modo que todas as famílias recebam turistas. A atribuição dos visitantes às famílias é feita previamente, durante a viagem de barco. Até aqui tudo bem. Mas o tempo de permanência na ilha é de uma tarde e uma noite (creio que em época alta é possível ficar mais noites), porque no dia seguinte o barco segue para Taquile, a outra ilha visitável do lago. E nessa ilha iríamos ficar apenas três horas, porque só há um horário por dia de regresso a Puno. Ou seja, quase só faltava dizerem-nos quando podíamos respirar e fazer xixi. Tudo o resto estava bastante condicionado. A esta organização nós chamávamos-lhe carinhosamente “O Plano”.

Chegámos a Amantaní a meio do dia e fomos encaminhados os cinco para a casa da Sra. Clara. Eu e a Celsa íamos mortinhas por uma banhoca, mas claramente “o plano” não era esse. Na ilha Amantaní as pessoas não têm água canalizada em casa, muito menos água quente, as sanitas funcionam a balde e os dentes lavam-se com água de garrafa. Mais um dia sem duche. Salvavam-nos temporariamente as toalhitas dodot e as infindáveis camadas de roupa sobrepostas, por causa do frio. Nunca tive tanto frio na minha vida, nem nos acampamentos de escuteiros.

As refeições incluídas no alojamento são constituídas pela comida habitual das pessoas na ilha. E na ilha não há muita variedade. O almoço foi batatas, cenouras, arroz e queijo de vaca (carne é luxo), com chá de folhas de coca e de muña (uma plantinha de folhas pequeninas que cresce nas alturas e cheira a menta). E o jantar foi a mesma coisa, antecedido de uma sopa quentinha de…batatas, cenouras e arroz. Pois claro :) Durante a tarde “o plano” era subir às colinas da ilha. Em vão tentámos rebelar-nos, não ser mais cinco ovelhas no rebanho, e fazer outra coisa qualquer só para contrariar, mas não havia mais nada para fazer na ilha e, na verdade, a subida à colina PachaMama (Terra Mãe) revelou-se uma das caminhadas mais bonitas da nossa viagem. Eu parecia um velhote asmático, pois padeci da altura com muita intensidade e sentia que o meu corpo não me correspondia. O Lago Titicaca está a três mil e oitocentos metros acima do nível do mar, e a subida a PachaMama são p’raí uns duzentos metros, pelo que os meus pulmões suplicavam por oxigénio com uma aflição que eu não esperava. Era a última do grupo! Para uma escuteira sentia-me bastante envergonhada, mas decidi disfarçar a lentidão com paragens para fotografar.

E o esforço valeu muito a pena. A ilha está coberta de terraços cultivados à mão e salpicados de ovelhas e vaquinhas. As pessoas vivem de um modo autênticamente rural. No topo da colina tínhamos vista a trezentos e sessenta graus para o lago e as ilhas circundantes. E apesar de estar muito vento e um “frío de cojones”, como dizem os meus amigos, ficámos por ali sentados em silêncio durante um bom bocado simplesmente a observar. Simplesmente a ser, a estar, e a apreciar a paisagem, a boa companhia e a sorte que tínhamos em poder estar ali.


Lago Titicaca - Ilha Amantaní

Subindo à colina PachaMama (Mãe Terra)



Alejandro, Julia, Celsa, Miguel e eu no cimo da colina. Uma pequena família feliz :)

De regresso à aldeia parámos na praça central para algo que todos estávamos desejando intensamente há meses e que é típicamente mediterrânico, mas nada latino: umas cervejas na esplanada ao fim da tarde. O único café da aldeia não tinha esplanada (esse costume os colonizadores não conseguiram transmitir aos latinos, muito menos nesta ilha gelada) mas nós pedimos para trazer uma mesa cá para fora e ficámos na conversa, a falar de Espanha e de Portugal, da crise económica e da crise existencial, das alternativas e das possibilidades da vida, até ser de noite e estarmos congelados. Em Amantaní não há iluminação pública, e a Mami Clara tinha-nos dito pelo menos cinco vezes para voltarmos antes de anoitecer senão íamos perder-nos. E também porque ali janta-se às sete. Esse era “o plano”. Mas distraímo-nos com as cervejas e apesar de bastante cedo já era bem escurinho quando regressámos, contando as casas, os muros, as ovelhas e os burrinhos para nos orientarmos. Nessa noite deitámo-nos a horas de bébé e eu dormi com toda a minha roupa vestida, dentro do saco-cama e debaixo das várias mantas da cama. Acordei exactamente na mesma posição em que adormeci.

No dia seguinte a viagem de barco para Taquile durou uma hora e a visita à ilha decorreu sem grande histórias. É uma ilha completamente rural como Amantaní, e as pessoas também falam Quechua (a língua dos incas) entre si, e só usam o espanhol para os turistas. A única aldeia da ilha é amorosa, o mercado ocupa apenas meia rua e na praça central as vistas do lago são fabulosas. Mas não ficámos tempo suficiente para conhecer, apenas o tempo para ver, e ver é muito pouco quando se está perante uma realidade diferente. Ver é superficial, e o que eu sinto da visita a estas três ilhas no lado peruano do Lago Titicaca é que foi muito superficial. Mas foi a visita possível.

Lago Titicaca - Ilha Taquile






Regressámos a Puno a meio da tarde, eu e a Celsa íamos em quatro dias sem tomar banho e já não pensávamos noutra coisa. Graças aos nossos amigos fomos direitinhas, sem mais procuras, a um hostel onde eles tinham estado uns dias antes de nos conhecermos. Eles os três seguiram nessa tarde para Copacabana, na margem boliviana do lago, e nós tínhamos planeado ir para lá no dia seguinte, porque daí saem os barcos para a Ilha do Sol, e então combinámos encontrar-nos na ilha. Contudo, sem telemóveis nem certezas de nada, despedimo-nos calorosamente com a esperança de nos voltarmos a encontrar mas sem nenhuma garantia de que isso fosse acontecer. E a noite em Puno foi de um contraste extraordinário, porque da casa de adobe na ilha rural onde amanhecemos nesse mesmo dia, passámos para um hostel com luz e ÁGUA QUENTE, fomos ver as montras ao centro comercial que havia ali ao lado e adormecemos a ver séries na televisão do quarto. Priceless!

Atravessar a fronteira do Perú com a Bolívia na rota de Copacabana é uma experiência. A viagem desde Puno, na manhã seguinte, tinha sido deslumbrante, percorrendo a margem ocidental do lago ao longo de uma planície imensa de campos cultivados, casas de adobe e muitas vacas, ovelhas e burrinhos. E a fronteira passa-se a pé. Por isso descemos do bus para coleccionar os nossos carimbos de autorização de saída no passaporte e trocar dinheiro (duas experiências há muito esquecidas graças à União Europeia) e percorremos caminhando esses duzentos metros de “terra de ninguém”. Eu estava emocionada. Estou na BOLÍVIA! E o meu passaporte está marcado. Depois voltámos a entrar no bus para os últimos kilómetros até Copacabana.

Há um Perú para cada um


Passando a fronteira a pé


Copacabana. Ai, Copacabana. Foi amor à primeira vista. O centro é uma rua cheia de bares e restaurantes que desce direitinha ao lago. Parece a Rua dos Pescadores na Costa da Caparica. E o ambiente é muito parecido, assim com um espírito veraneante e festivo. A maior diferença? Copacabana é um destino turístico completamente hippie. É esse o ambiente. Música reaggae em todos os bares, grupos de backpackers à procura de um hostel ou a tomar uma cerveja numa esplanada, rastas e muito “peace and love”. Ficámos a duas sideradas e já não queríamos sair dali. E só sairíamos para apanhar o barco para a Ilha do Sol, que ainda é mais hippie e muita gente nos tinha contado maravilhas. Pois estávamos nós numa esplanada com um sol maravilhoso de meio-dia, a decidir se ir para a parte sul ou norte da Ilha do Sol, e perguntando-nos em qual das partes estaríam os nossos amigos (pois em teoria já lá teriam chegado) quando os vemos aos três, mochilonas às costas, a descer a rua! Foi uma emoção! Foi um acaso muito feliz! Ou será que foi destino? :) Juntos apanhámos o barco para a ilha e decidimos ir para a parte norte, que nos disseram ser menos turística e mais natural. E os nossos planos de viagem começaram a mudar aqui.

 Copacabana



A Ilha do Sol é, de facto, muito natural. Conta a lenda que foi aqui que o Deus Sol criou os primeiros Incas, Manco Capac e Mama Ocllo, que deram origem ao império com capital em Cusco. Lendas à parte, esse é um lugar com uma energia muito especial, os visitantes que lá chegam vão num espírito muito particular e o ambiente que se vive é de um “peace and love” altamente contagioso. De fogueiras à noite na praia e tudo. Durante grande parte do dia não há água corrente, e a maioria dos hosteis são casas de adobe sem tomadas eléctricas. Há casa de banho e tem chuveiro, mas com que água? E com este frioooo? Deus me livre! Mais dois dias sem banho :) Ficámos alojados no hostal PachaMama e ao final da tarde demos uma volta pela zona norte da ilha. As vistas são de ficar sem fôlego. O lago é deslumbrante. Na praia há vaquinhas e porquinhos e burrinhos, e as colinas estão cobertas de campos cultivados e casinhas de adobe. Rodeada por tal natureza e em companhia tão feliz, tive um momento de “consciência plena” (como lhe chama a Celsa em termos técnicos de psicologia) na Ilha do Sol. E a nossa ideia de ficar só uma noite e partir no dia seguinte para o sul da Bolívia em direcção ao Deserto de Sal de Uyuni já se estava a desvanecer irreversivelmente. Queríamos ficar na ilha. Queríamos passar mais tempo com os nossos amigos, que iam ficar lá três ou quatro dias. Então decidimos ficar duas noites e depois logo se via o que fazíamos com o resto da viagem. Estávamos precisamente a meio, nesta altura, e foi nos dias em que fez dois meses que eu cheguei ao Perú.

Lago Titicaca - Ilha do Sol





Na Ilha do Sol há burrinhos que parecem alpacas

Muita gente chegou à Ilha do Sol no dia seguinte por ser o dia doze do mês doze do ano doze, e por ali ser um “lugar com uma energia muito especial” (não sei quantas vezes ouvi esta expressão durante esses dois dias), ideal para celebrar a data mística que marcava uma mudança de ciclo na vida da Terra (exacto…). As celebrações do dia doze seriam apenas um prelúdio da grande festança do dia vinte e um, o dia previsto pelos maias para o fim do mundo (pois…). Para nós, este dia amanheceu nublado e chuvoso e decidimos pensar no que fazer à volta de uma mesa de pequeno-almoço bem recheada. A ideia era fazer uma pitoresca caminhada de três horas que atravessa a ilha e chegar à comunidade no lado sul (esqueci-me de referir que na ilha não existem veículos motorizados, à excepção de barcos). Quando parou de chover pusémo-nos a caminho.

Foi um dejá-vu total dos meus tempos de escuteira. Atravessámos florestas, subimos ravinas, descemos à praia, passámos por campos cultivados e descampados despidos de vegetação, vimos os já habituais porquinhos, vaquinhas e ovelhas, assistimos a um casamento na praça do povoado central, passámos um frio de rachar e morremos de calor ao sol. Sempre com o lago em pano de fundo. Agradeço aos meus sapatos de trekking comprados antes de vir para o Perú, que se converteram nos meus companheiros de viagem mais fiéis. Às dozes horas e doze minutos decidimos entrar no espírito místico do dia e fazer uma homenagem a PachaMama, com um ritual improvisado de dança e sons em círculo durante um minuto. Mais tarde eu iria sentir que a Mãe Terra havia recebido com agrado a nossa homenagem e nos havia retribuído. Já vão perceber porquê.





O único problema da ilha do sol é o preço das coisas. Para nós, europeus, estamos a falar de valores irrisórios, mas aqui tudo custa o dobro em relação ao resto da Bolívia, e inclusive para passear na ilha e atravessar as suas três comunidades é preciso pagar bilhete de entrada em cada uma delas. Some-se isso à atitude pouco cordial dos bolivianos para com os turistas, a quem vêm unicamente como “sacos de dinheiro” e partem do pressuposto que são todos ricos por poderem viajar, e nós já estávamos um pouco saturados de abrir os cordões à bolsa a cada instante. As nossas bolsas são leves e têm de durar para muito tempo, pelo que qualquer tostão é dinheiro, por mais pouco que seja. Pagámos para fazer a caminhada que atravessa a ilha, mas quando chegámos à entrada da comunidade sul deparámo-nos com um casal de autóctones muito arrogantes e presunçosos e depois de uma troca algo intensa de galhardetes decidimos que não íamos pagar mais nada. Estamos a falar de um valor de cinquenta cêntimos de euro. Mas também foi uma questão de orgulho. E por isso fomos dar “uma ganda bolta” fora do trilho turístico, que nos custou mais duas horas, atravessando mais campos cultivados que não era suposto atravessarmos, e chegámos ao povoado sul pelo lado oposto da bilheteira. Pelo sim pelo não decidimos fingir que éramos americanos e não entendíamos bem espanhol, no caso de sermos interpelados por alguém que nos pedisse para mostrar o bilhete que não tínhamos. E a nossa frase de guerra era “Oh my God, quanta belleza” pronunciado à americana. Um fartote de riso.

O povoado da parte sul da Ilha do Sol é maior e mais desenvolvido que o da zona norte, com uma pracinha com a sua igreja, muitas casas e vários hosteis e restaurantes. Almoçámos às quatro da tarde debaixo de um sol esplendoroso, mas ao longe sobre o lago víamos claramente um nuvem de chuva intensa que se ia aproximando rapidamente da ilha. Muito rapidamente. Numa questão de meia hora passámos de sol a tempestade e a nossa ideia de voltar de barco para a zona norte foi involuntariamente abortada. O último ferry já tinha passado há várias horas, a hipótese era pagar a algum pescador que nos levasse no seu barco, mas com aquela borrasca ninguém ia lançar-se à água. Começámos a interiorizar a inevitabilidade de regressar caminhando. Mas estava a chover TORRENCIALMENTE. E só tínhamos duas horas de luz até ao pôr-do-sol (a caminhada durava pelo menos três). E não tínhamos lanternas. Por uns minutos, ficámos os cinco em silêncio a olhar lá para fora, entre o pânico e a incredulidade, sem saber o que fazer.

Não havia alternativa. Então artilhámo-nos o melhor possível com os nosso impermeáveis, gorros e cachecóis, atámos os sapatos com força e perante o olhar incrédulo dos outros turistas que estavam no restaurante, lançámo-nos à tarefa de regressar ao nosso hostel para dormir essa noite. É-me difícil descrever essa aventura. Não há fotografias dessas horas. Passou tudo muito depressa. Confesso que houve alturas em que tive medo, mas olhava para os meus companheiros e sentia-me protegida. Ficámos ensopados até à última camada de roupa pela tempestade que nos acompanhou. Fomos por atalhos para cortar caminho e tentar chegar antes de anoitecer. Descemos uma ravina de rocha tão alta que quando chegámos cá abaixo eu me assustei ao olhar para cima. Atravessámos mais bosques e campos. E fomos desembocar à praia onde tínhamos feito o ritual de homenagem a PachaMama nessa manhã. Obrigada!

O último troço do caminho foi feito quase a correr e chegámos ao povoado norte com o último raio de lusco-fusco. Tempo total: duas horas!! Estávamos exaustos mas eufóricos, e eu tinha vontade de correr e saltar e parar as pessoas na rua para lhes contar o que tínhamos acabado de fazer. Sentíamo-nos heróis (uma parvoíce, eu sei, mas foi uma descarga enorme de adrenalina). Nessa noite, depois de vestir roupa lavada e quentinha (mas sem banho, claro) acabámos à mesa do bar Inca Uta com um grupo de viajantes que não conhecíamos, a contar histórias de viagens, a falar do fim do mundo e da suposta visita de Manu Chao para um concerto ali na ilha no dia vinte e um. Não cheguei a saber se esse concerto aconteceu, mas a Ilha do Sol é a ilha dos rumores e muitas coisas ouvimos dizer durante os dois dias que lá estivémos e que não se concretizaram. Acho que faz parte do seu misticismo, e uma parte de mim podia habituar-se facilmente àquele ambiente.

Por esta altura já tínhamos decidido o próximo passo da nossa viagem. Os espanhóis falaram-nos da cidade de Coroico, a três horas de La Paz e no meio da selva boliviana, e como tínhamos ainda cinco dias disponíveis (que já não chegavam para ir ao Salar de Uyuni, demasiado a sul) decidimos ir para lá no dia seguinte. E conseguimos convencê-los a alterar também os seus planos de viagem, pelo que ficariam apenas mais um dia na Ilha do Sol e viriam ter conosco a Coroico na nossa última noite lá. Combinámos jantar juntos. Seria a nossa despedida final. Então despedimo-nos mais uma vez temporariamente na expectativa do reencontro, desta vez com combinações mais concretas mas sempre com uma grande dose de incerteza, pois os planos podiam sair furados (em viagem tudo pode acontecer), e estando impossibilitados de comunicar havia um grande risco de não nos reencontrarmos.
Da Ilha do Sol a Coroico foi um dia inteiro de viagem. Fomos de barco para Copacabana e daí apanhámos um combi para La Paz. Esta rota passa pelo Estreito de Tuiquina, uma zona do Lago Titicaca que se atravessa de ferry, incluindo os carros, os combis e até os autocarros grandes. É uma visão muito engraçada. 

Estreito de Tiquina



Chegámos a La Paz à hora de almoço e foi um choque. É indescritível. Uma cidade enorme enclausurada num vale, apertada entre colinas cobertas de favelas. Um caos. Muuuuuuito pior que Lima. Estivémos aqui apenas o tempo necessário para passar de um combi ao outro (demorámos um hora a atravessar a cidade de táxi, por causa do trânsito, e nesse percurso não vi uma única coisa bonita) e a recordação que tenho é de sufoco e claustrofobia. Foi um alívio apanhar o combi para Coroico, apesar de serem mais três horas de viagem apertada entre bolivianos.

La Paz

Combi para Coroico

A longo do caminho fomos tirando sucessivas camadas de roupa e Coroico recebeu-nos com uma noite quente e húmida a recordar noites boas de Lisboa em Julho. Ai, Coroico. Que júbilo chegar aqui depois de nove horas de viagem e do frio do lago. É uma típica cidade veraneante que se enche ao fim de semana, com a particularidade de não ter mar mas ser no meio de montanhas cobertas de selva. E como agora é época baixa não estava invadida de turistas. Nessa noite adormecemos outra vez a horas de bébé, depois do tão desejado duche de água quente, num hostel aberto ao público mas ainda em construção.

No dia seguinte procurámos um hostel para os nossos amigos que iam supostamente chegar nessa noite (porque o nosso hostel só tinha quatro quartos habitáveis e estava cheio ahahah!) e apesar de estar a chover decidimos fazer o passeio turístico até umas cascatas que há ali a duas horas da cidade. É um passeio lindíssimo pela estrada de terra batida que vai contornando as montanhas cobertas de vegetação densa. Pode-se ir de combi, mas as nossas pernas gritavam por movimento depois da viagem do dia anterior. Ao longo do caminho pudémos ver e ouvir várias espécies de pássaros, muitas bananeiras e mangueiros, e o ar húmido foi uma benção para os nossos pulmões e a nossa pele queimada do frio. A estrada passa por várias aldeiazitas encavalitadas no meio das árvores e é incrível descubrir que há gente a viver naqueles lugares.

Coroico




Foi nesta caminhada que vivemos o único momento de risco da nossa viagem. Démos conta, a certa altura, que estávamos a ser seguidas por um homem. Não nos chamou a atenção antes porque ao longo do caminho havia várias pessoas caminhando, tanto turistas como autóctones. Mas tornou-se suspeito quando parou ao mesmo tempo que nós parámos, junto ao uma mercearia no meio do nada, e vendo que o olhávamos fixamente virou-se e pôs-se a observar a paisagem. E depois voltou para trás e subiu o morro que a estrada contornava, vindo outra vez na nossa direcção pelo meio da vegetação. Nesse momento passou-me um calafrio pela barriga e tive a clara noção de que ele nos ia assaltar mais à frente onde a estrada ficava deserta no meio da selva e não havia ninguém naquele momento. Foi um minuto de pânico e de perfeita previsão do futuro. Então decidimos esperar junto à mercearia (que estava aberta, sorteeee!) até passar um combi, e assim fizémos o resto do percurso até às cascatas. Depois do momento de susto senti-me revoltada, até então tínhamos sido sempre prudentes e não tinha passado nada ao longo da viagem, pelo contrário. Andámos sempre tranquilas e contentes a disfrutar de um país tão bonito como é a Bolívia, tinha de vir este matrafão arruinar-nos a tranquilidade e assustar-nos!

Mas ao chegar à cascata de San Rafael varreu-se-nos o susto da memória perante o espectáculo impressionante da natureza em todo o seu esplendor: uma cascata que nascia no topo da montanha e caía abruptamente através de muitos metros de selva luxuriante. Também aqui ficámos algum tempo em silêncio simplesmente a apreciar e a ouvir o ruído de trovão da água caindo desde as alturas.

Cascata de San Rafael

De regresso a Coroico apanhámos um combi e o motorista tinha um filho bébé que o acompanhava, e é provavelmente a criança mais feliz que conheci desde que cheguei à América Latina. Foi uma viagem inesquecível, com a paisagem deslumbrante, o sol na cara e os guinchos do bébé ao ritmo da música do rádio.

Um bébé feliz

Pela tarde decidimos subir ao monte Uchumachi, que coroa Coroico a mil setecentos e oitenta e nove metros de altura. Foi incrivelmente rápido e fácil de subir, depois da aventura da Ilha do Sol sentíamo-nos bastante alpinistas. Do topo do monte, coberto de prado e flores silvestres, tínhamos uma vista a trezentos e sessenta graus das montanhas em redor, de Coroico mais abaixo, e ao longe podíamos ver a cascata onde tínhamos estado de manhã. Esta foi a nossa última tarde de passeio, pois no dia seguinte iniciaríamos as nossas quarenta e oito horas de regresso a Ayacucho. E foi uma tarde genial, deitadas ao sol no monte, com a Bolívia aos nossos pés.

 Monte Uchumachi (1789 msnm)


Carretera de la muerte - antiga estrada de terra batida de La Paz a Coroico

No final dessa tarde pusémo-nos de cervejas num bar da praça central à espera dos nossos amigos para jantar. Não tínhamos ideia a que horas chegariam, sabíamos apenas que iriam fazer o mesmo percurso que nós tínhamos feito na véspera (mas em viagem tudo pode acontecer), pelo que escrutinávamos ansiosamente cada combi que chegava. E chegaram imensos, porque à sexta-feira os habitantes de La Paz fogem para Coroico para passar o fim de semana. Assim que chegou imensa gente, mas nem sinal deles. Decidimos esperar até termos fome, e nessa altura iríamos jantar e depois logo se via. Como dizia a Celsa: “Conhecemo-nos por acaso e encontrámo-nos por acaso de novo em Copacabana; também aqui nos reencontraremos se assim tiver de ser.” Nesta altura já era de noite, a praça estava cheia de famílias a comer gelados e crianças a jogar à bola, já tínhamos dado três voltas à vila (que é grande, como podem imaginar…) e estávamos questionando os nossos estômagos quanto à fome, quando os vemos aos três, mochilonas às costas qual dejá-vu, a atravessar a praça.

Se o encontro em Copacabana tinha sido emocionado, este foi o triplo, com direito a “quase-lágrimas”. E depois do merecido banho no hostel que lhes tínhamos reservado, fomos jantar como velhos amigos que se reencontram depois de muito tempo. E acabámos a noite no único bar da cidade à conversa com um rapaz americano que entretanto eu e a Celsa tínhamos conhecido na praça, a contar as nossas aventuras dos dois dias que passámos separados, de viagens passadas e das nossas vidas. O momento inevitável da despedida final chegou sem que ninguém pudesse impedi-lo, e foi terrível. Cinco dias de amizade viajante chegavam ao fim e não consigo descrever como foi difícil para mim separar-me deles. Foi uma empatia brutal e um clima tão fácil de viagem em conjunto que eu não queria deixá-los e não queria iniciar a viagem de regresso.

No dia seguinte chorei durante grande parte da viagem de combi de Coroico para La Paz. Por uma questão de tempo decidimos não voltar a Copacabana (eu poderia não ter conseguido sair de lá!) e reentrámos no Perú pelo lado sul do Lago Titicaca, na vila decrépita e desolada de Desaguadero. Carimbos e vistos, Olá Perú outra vez, que bom é estar em casa. Depois da fronteira apanhámos um combi para Puno, e daí outro para Juliaca, onde chegámos ao final do dia e de onde apanharíamos avião para Lima no dia seguinte. Foram quatro combis, um táxi e dez horas de viagem desde Coroico até Juliaca, e eu já não era pessoa. O hostal que encontrámos era super decrépito mas limpo, seguro e com água quente. O meu estado de espírito cansado e triste contrastava completamente com o caos eufórico das pessoas na rua em sábado à noite e vésperas de Natal. Nessa noite nem jantámos e adormecemos a ver um filme péssimo na televisão.   

Desaguadero - Fronteira Bolívia - Perú

                O último dia da nossa viagem, domingo dezasseis de dezembro de dois mil e doze, foi tão contrastante como todos os outros, e foi um longo regresso a Ayacucho. Fomos de avião de Juliaca a Lima, e eu já não estava habituada a tanto conforto e luxo. Tivémos direito a lanchinho e tudo. Em Lima estava um calor infernal debaixo do céu perenemente nublado, e as nossas forças estavam a chegar ao fim. Depois de comprarmos o bilhete para o autocarro dessa noite fomos almoçar a um centro comercial perto do terminal e vimo-nos involuntariamente imersas no caos consumista de um domingo à tarde em vésperas de Natal. Das ilhas rurais do Lago Titicaca para um almoço de fast-food num centro comercial limenho. Oh my God, quanto contraste! Mas ainda tínhamos muitas horas para esperar até ao bus e muito pouca energia para nos mexermos. Decidimos cometer um pequeno luxo e fomos ao CINEMA (em Ayacucho não há cinemas nem centros comerciais) ver The Hobbit: voaram-nos a horas que faltavam e fomos para o bus emocionadas e sonhadoras. A última noite na estrada teve um sabor de lugar comum (dormir num bus já nos é familiar) e passou depressa porque nem me lembro de adormecer. Voltei a mim já era de manhã e estávamos a chegar a Ayacucho, pela paisagem conhecida das montanhas.

                Foi um regresso difícil. A despedida dos nossos amigos e a viagem de regresso despertaram em mim os sentimentos avassaladoramente saudosistas que vivi nos primeiros tempos de Perú. Durante toda essa semana alternei entre saudades de Lisboa e saudades do lago, saudades vossas e saudades deles, e não queria estar em Ayacucho. Além disso, chegámos a uma segunda-feira de manhã, a nossa porta de casa tinha sido trancada por segurança pelo pessoal da associação (mas não nos tínham avisado) e tivémos de esperar para tomar o nosso desejado duche. Mas não havia luz, e então a comida que deixei no congelador estava estragada, e tive de tomar banho de água fria. Fui directa trabalhar. Cheguei à reunião semanal completamente lerda e escutava a todos como se estivesse dentro de uma bolha de água. Durante vários dias tive um único pensamento: QUERO VOLTAR PARA A ILHA!

Como disse o Miguel a certa altura, viajar abre portas. E eu digo que quando te pões ao caminho para conhecer outros lugares e te afastas durante algum tempo da tua realidade pões em marcha mecanismos de energia dos quais não tens sequer noção. Estes nove dias que pareceram noventa abriram-me horizontes de possibilidades inesgotáveis, encheram-me os olhos de paisagens indescritíveis e trouxeram para a minha vida pessoas que me deixaram marcas indeléveis em tão pouco tempo de convívio. Sinto que já não sou a mesma que era antes do Lago Titicaca. Se voltasse a ser criança e me perguntassem o que queria ser quando fosse grande, agora responderia sem pestanejar: “Quero ser viajante!”


Ilha do Sol a cinco - Miguel, Julia, eu, Celsa e Alejandro, neste pequeno pedaço de paraíso.
Foto by Out The Studio (www.outthestudio.com)

PS: Perdoem-me o testamento. Foi muito difícil resumir esta viagem, demorei cinco dias para escrever este post. Se chegaram até aqui são amigos muito pacientes e gostam muito de mim. Obrigada!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

DIA 55 – MUDAR DE VIDA


                Desde muito nova que eu queria fazer voluntariado. Inspirada por uma série de motivações diferentes, mas sobretudo pelo sentido de injustiça da vida e a dependência do dinheiro. Com o passar dos anos este sonho foi posto de lado, na verdade não sei bem porquê. Talvez por ter começado a trabalhar, ter alugado uma casa que adorava, ter criado uma vida pessoal e social que me faziam sentido e tudo isso se ter tornado, pouco a pouco, um “percurso de vida normal” que a cada ano me parecia menos sensato abandonar. Então, fazer voluntariado foi-se tornando numa nuvem utópica e vaga para a qual eu já olhava de longe e sentia que já tinha passado o tempo de o fazer.

                É muito curioso pensar nas decisões que tomamos, porque as tomamos e onde nos levam. Quando olho para trás sinto que a minha decisão de abandonar o percurso de vida que estava a seguir parece muito repentina, e de certa forma foi. Em três meses passei de uma conversa abstracta à mesa de um café para uma busca intensiva e para a concretização da partida. Mas simultaneamente não foi uma surpresa. E de facto quase nenhum de vocês reagiu com incredulidade à minha notícia. E agora quando penso nisso, à distância de vários meses desde o momento da decisão, cada vez me parece mais que eu estava mesmo à espera disto. Apesar de não o saber.

               Agora que estou aqui no Perú há quase dois meses, e que “esta vida” já se converteu na minha vida quotidiana, e em que o que está desse lado do Atlântico, apesar de suspenso à minha espera, se vai tornando pouco a pouco numa “vida passada” (porque depois de eu voltar nada será como era antes de eu partir) sinto que se há decisões que mudam a nossa vida definitivamente, vir para o Perú fazer voluntariado vai mudar a minha vida. Definitivamente.

              Ainda não sei dizer como, nem em quê. Ainda sou a mesma Sílvia que saiu de Lisboa (com a diferença de estar quase a fazer vinte e nove anos, e isso é muito estranho). Mas em cada dia nesta realidade tão diferente abro os meus horizontes para as inúmeras possibilidades desta vida que nunca antes tinha sequer imaginado. Tenho conhecido gente de diferentes partes do Perú e do mundo com empregos deveras interessantes, que não passam oito horas por dia fechados num escritório atrás de um computador, a olhar para o relógio desejando que as horas passem, que não têm uma vida aborrecida. Pessoas de várias idades que desempenham funções úteis e produtivas para outras pessoas com necessidades reais, e que são pagas para isso. Pessoas cujo trabalho é mesmo importante, e muda a vida de outras pessoas para melhor. É inacreditável o valor que os europeus e americanos com formação superior têm aqui. É inacreditável a quantidade de ONG’s que existem neste país, abarcando as mais variadas áreas de trabalho, que procuram profissionais qualificados para suprir as mais variadas necessidades (básicas e menos básicas) que neste país as pessoas têm. É inacreditável. E é revoltante olhar para o meu país e para o meu continente e constatar que tenho de vir tão longe para ser tão valorizada, quando em casa sou “mais uma”.

                Na verdade eu não me posso queixar. No último ano antes de vir para cá tive a sorte de o meu trabalho ser valorizado e as minhas qualidades profissionais e pessoais serem reconhecidas. E isso não dependia só do meu mérito, mas também do bom fundo dos meus interlocutores. O que estou a descubrir agora é que a vida não tem de ser aborrecida. De facto, a vida é demasiado curta e efémera para que possamos aceitar que seja aborrecida! O António Variações cantava: “Muda de vida se não vives satisfeito, estás sempre a tempo de mudar.” E eu vim para o Perú descubrir que nós temos, efectivamente, o poder de a mudar! Temos mesmo! *

Fotos tiradas durante um concurso de skate no centro Mama Alice no bairro Keiko Sofia 









PS: Vou estar ausente por uns dias. Vou ali num instante ao Lago Titicaca e à Bolívia festejar dois meses de Perú.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

DIA 50 – UM SUCESSO INTERNACIONAL


                As aulas de música têm corrido a um ritmo meio irregular. Com as crianças de Educação Individual, às segundas e terças feiras na sede Mama Alice, é bastante fácil: dois grupos de seis miúdos, num ambiente controlado, e com a presença das duas professoras que trabalham com eles. Eles vêm a todas as aulas, conheço-os pelo nome e aprendem com bastante facilidade porque não há confusão e sou uma professora para seis alunos. Um luxo.

                Nos bairros a história é outra. Não há obrigatoriedade de presença (não há como obrigá-los), um dia vêm uns outro dia vêm outros, um dia não vêm porque têm de ficar em casa a tomar conta do irmão bébé, outro dia é porque se esqueceram das horas e chegaram no fim da aula, outro dia ainda é simplesmente porque o baloiço ou os matraquilhos são mais apetecíveis e dizem-me sem pudor: “Professora hoje não quero.”. Das cerca de trinta crianças que tive em cada centro nas primeiras aulas passei para dez ou quinze nas últimas semanas. E eu andava desanimada. Mas em cada viagem de autocarro, questionando-me quantas crianças iria ter nesse dia, pensava sempre que mesmo que fossem só três ou quatro valeria a pena ir por elas. E a verdade é que tenho alguns pouquinhos alunos fiéis, que vêm sempre, que chegam antes, que quando me vêm chegar já perguntam o que vamos fazer hoje, e que quando eu chamo para a aula (qual vendedora de mercado: “Clase de música ahorita, vamos empezar!”) deixam o baloiço, as bonecas e os matraquilhos e vêm correndo. Não se pode agradar a todos, mas se agrada a alguns, já vale a pena. E confesso que quandos as aulas correm bem nestes centros dos bairros, são muito mais entusiasmantes e divertidas que as de Educação Individual.

                Hoje tive uma surpresa feliz. No bairro de Keiko Sofia a sala de aula encheu como não enchia desde a primeira aula. Quase não cabíamos todos. Estavam os meus alunos fiéis e alguns novos. A aula correu maravilhosamente bem. Ensinei-lhes o que são sons graves e agudos e aprenderam logo à primeira. Participaram entusiastas e fartámo-nos de rir juntos. E como estamos a ensaiar a canção de Natal que eles vão cantar na Festa de Natal Mama Alice, eu decidi fazer um vídeo do ensaio para lhes mostrar como já cantam bem. O resultado foi este, e eu estava à beira das lágrimas.



                Depois pediram-me para cantarmos a Canção do Leão (Canción del León, na versão peruana). Esta foi a primeira canção que lhes ensinei quando comecei a trabalhar aqui. E tal como para os meus alunos do ano passado na Escola Primária de Vale Flores, também aqui a Canção do Leão é um sucesso. E agora é um sucesso internacional.
                


                 Porque as crianças são crianças em qualquer lugar do mundo, e não há criança que não goste de cantar.




quarta-feira, 21 de novembro de 2012

DIA 39 – AS CIDADES E AS PESSOAS QUE AS HABITAM

                Fim de semana em Lima é como “ir a casa”. Reconheço a mesma sensação de quando ia passar um fim de semana a casa dos meus pais na Caparica, durante os três anos que vivi em Lisboa. A sensação de sair do meu ambiente quotidiano e passar dois dias noutro lugar que também é a minha casa e onde está a minha família. É isto que eu sinto na casa dos Missionários Combonianos em Lima.

             Já vos contei da recepção que tive por parte dos combonianos. Desde o primeiro momento em que me conheceram receberam-me como membro da família e atribuíram-me, com uma generosidade impagável, uma “propriedade honorária” do quarto onde dormi pelo período da minha permanência no Perú, para voltar as vezes que quiser e ficar o tempo que quiser. Desta vez não foi diferente. Pelo contrário. Cheguei à casa comboniana com a familiaridade de quem chega à sua própria casa e todos se alegraram com a minha visita depois de um mês de ali ter estado, fizeram-me mil perguntas curiosas sobre a minha experiência em Ayacucho e convidaram-me a partilhar das suas actividades de fim de semana.

            Durante a semana os seminaristas combonianos frequentam a universidade de teologia e têm um estilo de vida típico de estudante universitário. Aos fins de semana dividem-se por várias paróquias da cidade e fazem trabalho pastoral. As paróquias onde vão estão localizadas nas zonas mais pobres de Lima, nas favelas periféricas que cobrem as colinas que rodeiam a cidade, onde as casas são feitas de contraplacado, onde não há água canalizada nem esgotos, não há estradas asfaltadas e só há pouco mais de dois anos começou a chegar a electricidade. Aproveitei a possibilidade de conhecer uma realidade tão radicalmente diferente da minha e fui com eles visitar duas favelas: uma na zona de Chorrillos e outra na zona de Pamplona.

É difícil descrever a extrema pobreza em que os habitantes das favelas limenhas vivem. Pobreza física e pobreza intelectual. Trabalham todos os minutos do dia, todos os dias da semana, porque quando não trabalham não comem. Usam a mesma roupa até estar demasiado suja para ser suportável. Só têm um par de sapatos. Não têm casa de banho, e a água chega diáriamente através de camiões cisterna. Têm de trepar encostas íngremes de colinas de areia ou rocha cobertas de pó para chegar a casa. E têm de viajar todos os dias em combis minúsculos, baixos e apertados durante mais de uma hora para chegar ao centro da cidade onde vão vender nos mercados e fazer outros trabalhos precários. O único objectivo de vida aqui é trabalhar para comer e ter o essencial para sobreviver. Sobreviver. Considero um milagre que as crianças que aqui crescem tenham desejo de ir à escola e de estudar, vivendo no meio de tal desolação.

Favela de Chorrillos



Escadas de acesso às casas 

Casas de contraplacado e chapa de zinco



 Cão de raça peruana (preto e sem pelo) vestido com roupinha



Chorrillos by night

                Fui com dois seminaristas combonianos visitar uma senhora que tem dois filhos adolescentes com um grau intermédio de paralesia cerebral. Ela e o marido trabalham no mercado central de Lima, a Parada (onde há cerca de duas semanas houve motins e confrontos que duraram vários dias e morreram muitas pessoas) e deixam os dois rapazes trancados em casa o dia todo para que não fujam. Há poucos dias a senhora ficou ferida porque um mototaxi lhe passou em cima do pé. Como é diabética teve problemas de cicatrização e tiveram de lhe amputar um dedo. Agora a senhora não pode caminhar e passa o dia fechada em casa com os dois filhos enquanto o marido vai trabalhar. Quando fomos visitá-la não podia sequer abrir-nos a porta porque não consegue sair da cama, e falámos com ela pela janela. Ao lado da cama tinha a “sanita”. E a casa não devia ser limpa há meses. E o pé, envolto em ligaduras e sacos de plástico, deixava intuir um aspecto horroroso. O que é que se pode dizer de consolo a uma mulher jovem a viver nestas condições??? Eu só pensava na sorte tremenda, enorme, inesgotável e às vezes desapreciada que eu tenho em não ser ela e ser eu. Em ser eu todos os dias da minha vida, desta vida simples e às vezes precária mas tão boa, tão boa, tão boa que é a minha vida.


Favela de Pamplona


                A natureza dotou as crianças da inconsciência e da imaginação.  É por isso que as crianças vivem brincando, jogando e SORRINDO no meio da pobreza e da desolação. Mas os traumas que guardam dentro acompanham-nas para sempre e transformam-nas em adultos que vão perpetuar o ciclo vicioso da vida desolada e violenta das favelas. Por isso a educação das crianças é tão essencial. Porque é muito difícil mudar os adultos. Mas às crianças podemos ajudá-las abrindo-lhes a mente e os horizontes, mostrando-lhes outras possibilidades para a sua vida que não sejam só trabalhar e ter filhos, e dar-lhes os instrumentos para que alcancem essas possibilidades.




                Foi um fim de semana intenso e cansativo, dois dias que pareceram uma semana. É bom sair de Ayacucho, mudar de ares, ver o mar (mesmo que seja este Pacífico cinzentão) e sentir este aconchego familiar que me surpreende ao pensar que estou no Perú. Sinto-me em casa no Perú.

O mais curioso é que Lima é, provavelmente, a cidade mais feia que eu conheço. Os lugares interessantes contam-se pelos dedos de uma mão e não me entusiasmam por aí além. E eu que adoro cidades! Mas apesar da sua imensidão caótica, da paisagem desolada e do centro histórico com pouca piada, esta cidade inspira-me um sentimento de ternura surpreendente. Talvez seja da sensação de conquista de já me orientar nas diferentes zonas, de saber onde está o quê, de saber como ir para onde, de me sentir tranquila e à-vontade nos combis (acreditem, é um conquista de valor!). Mas não é só isso. É que Lima é uma cidade feia feita de pessoas bonitas. Talvez tenha sido uma grande coincidência e sorte minha, mas até agora só conheci gente boa nesta cidade e de cada vez que cá venho custa-me mais ir embora.

Ah, lembram-se do taxista Júlio? Que me levou ao autocarro quando vim para Ayacucho a primeira vez e me enganei nas horas? Ele tinha-me deixado o número dele para quando voltasse a Lima e precisasse de um táxi. Resolvi ligar-lhe para me levar de novo ao autocarro. E ele não só se lembrava de mim como vinha, juntamente com a esposa, cheio de perguntas e curiosidade sobre a minha vida em Ayacucho. E, tal como os combonianos, perguntou-me quando planeio voltar a Lima e quando nos voltamos a ver. E eu por agora não sei. Mas fico com vontade que seja para breve.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

DIA 31 – UM MÊS DE PERÚ

                O tempo passa demasiado depressa. Por mais incrível que pareça, já estou aqui há um mês. E para mim dizer “Um mês de Perú” inclui vários dias diferentes. No dia nove de Novembro fez um mês que me despedi da minha Lisboa. No dia dez, um mês que cheguei a Lima, que pousei pé numa nova cidade, num novo país, num novo continente, num novo hemisfério. E no dia treze fará um mês que cheguei a Ayacucho.

                Quando penso na passagem do tempo, e quando começa a fazer uma semana, um mês, um ano que certos acontecimentos marcantes ocorreram, tenho sempre duas sensações contraditórias: por um lado, parece que as coisas aconteceram ontem, tal a intensidade com que ainda as sinto apesar do tempo que passou; por outro lado, parece que já foi há muito mais tempo, considerando a avalanche de outras coisas que entretanto aconteceram. Agora aqui, no Perú, sinto as mesmas duas contradições com muita força: parece que foi ontem que me despedi de vocês com o coração apertadinho e um nó na garganta, tal é a falta que me fazem e as saudades que sinto de Lisboa; ao mesmo tempo, parece que foi quase numa outra vida, tal tem sido a minha imersão nesta nova vida, a habituação ao lugar, às pessoas, aos costumes.

       Estou há um mês no Perú. Ainda tenho muito para aprender sobre este país, muitas pessoas para conhecer, muitas crianças para ensinar, muitas viagens para fazer. Mas já me estou a habituar, já me sinto menos gringa e menos extra-terrestre. Já sinto Ayacucho um bocadinho minha. E confesso que agora os dias são mais fáceis e felizes do que quando cheguei. Sinto que, se num mês cheguei até aqui, em mais nove vou sentir-me totalmente em casa e amar este país tão diferente do meu, e quando voltar para Lisboa vou deixar aqui um bocado do meu coração.

          Tenho uma intuição previsiva de que, aconteça o que acontecer, nunca me vou esquecer do que vivi no Perú. Porque no Perú tudo pode acontecer. E até agora muito tem acontecido! *



Spot promocional Turismo Marca Perú 2012

Miradouro Acuchimay - Ayacucho

Ayacucho vista de cima

Miradouro Acuchimay com Willie e Tânia

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

DIA 23 – A PRIMEIRA VIAGEM: PARACAS e HUACACHINA – UM OÁSIS NO DESERTO


                Adoro road trips. Viajar pela estrada tem uma certa aura romântica, permite ver a paisagem, observar as suas alterações ao longo do caminho, e o tempo que forçosamente se perde ajuda a desapegar progressivamente do lugar de onde se parte e aproximar do lugar para onde se viaja.

                A road trip para a região de Ica, no fim de semana grande do feriado de Todos-os-Santos, teve vários adjuvantes a estas vantagens iniciais: a estrada desde Ayacucho passa no meio das montanhas, sobe aos quatro mil metros de altura e a paisagem é deslumbrante. Desde penedos escarpados e áridos a planaltos verdejantes e cultivados, passando por rios e cascatas. Apanhámos frio e neve pelo caminho, e também sol e calor. E vento. E muitos rebanhos de ovelhas, de lamas e de alpacas, que são dos quadrúpedes mais fofos que já vi nesta vida.




O meu primeiro rebanho de lamas 



                Outra vantagem desta road trip foi o facto de termos viajado em carro próprio, e não de autocarro. Nestas circunstâncias o carro torna-se uma espécie de casa móvel, lugar conhecido e refúgio permanente numa jornada em que a paisagem em redor muda a cada instante. E também depósito de bagagens e da imensa tralha que se vai acumulando ao longo dos vários dias. Este não era um carro qualquer: era uma carrinha jipe da Cruz Vermelha Internacional. Motorista oficial: Otchoa; tripulação: Sílvia, Celsa, Juan e Willie, que acumulavam à vez a função de co-piloto e zelador do i-pod ligado ao rádio.

Willie, Otchoa, Celsa, Juan e eu, com a nossa casa móvel da Cruz Vermelha Internacional

                Chegámos à vila piscatória de Paracas na sexta-feira ao final da tarde. A estrada para a costa atravessa um deserto imenso de dunas e montanhas áridas, casinhas baixas e mal acabadas, e chega ao mar. As praias da costa sul do Perú não são em nada superiores à minha Caparica e a água é pouco mais quente, mas foi uma emoção ver o mar, depois de quase um mês rodeada de montanhas. Paracas é minúscula e demasiado turística, e interessa apenas por duas razões: as viagens de barco às Islas Ballestas, património natural protegido onde não é permitido desembarcar, e onde se pode observar uma imensidão de espécies animais marinhas – focas, pinguins, pelicanos, gaivotas, entre muitas mais; e a entrada na Reserva Natural de Paracas – o verdadeiro deserto do Saara no Perú. Outra das vantagens de irmos de jipe foi podermos percorrer as dunas fora dos caminhos traçados e subir as encostas íngremes sem risco de atolar. Nunca tinha estado num deserto e não consigo descrever a sensação com justiça. O mais aproximado que posso dizer é que me senti um grãozinho de areia nesta imensidão dunosa. E as praias são muuuuuuito bonitas. E desertas. Mas infelizmente no sábado o céu esteve nublado todo o dia, e apesar de não estar propriamente frio a temperatura ambiente não convidava ao banho. Bolas!

Baía de Paracas

Islas Ballestas






Reserva Natural de Paracas - entrada no deserto




                Depois do deserto de Paracas seguimos para sul, em direcção a Ica, e fomos dormir à Lagoa de Huacachina. É um oásis no deserto. No verdadeiro sentido da palavra. Dunas e mais dunas, areia e pó, e de repente uma lagoa, rodeada de hosteis, restaurantes e bares. A-DO-REI. Outra vez indescritível. As minhas duas penas em relação a este lugar foi termos ficado apenas uma noite e não termos tido tempo de fazer sandboard – o ex-libris desta região. Mas tivémos tempo para um mergulho na piscina antes de jantar, e para passear à volta da lagoa, e para provar a bebida típica da zona – o Pisco Sour – e para dar um pézinho de dança na discoteca local. Huacachina tem muitos turistas e peruanos que vêm passar o fim de semana e fazer sandboard. Eu sonhava com uma festa com fogueira à beira da lagoa, mas em vez disso vi o amanhecer da encosta de umas das dunas que rodeiam o oásis. E quando partimos no domingo de manhã, eu e a Celsa tínhamos a mesma sensação: havemos de cá voltar.

 Lagoa de Huacachina - um oásis no deserto

O amanhecer a meio da duna

                A viagem de regresso foi interminável e muito cansativa. Outra vez as montanhas, os rios, as lamas e as alpacas. Quando cheguei a Ayacucho já estava nostálgica do deserto e do mar. Foi um fim de semana muito especial, por todos os lugares incríveis que vi, pelas refeições deliciosas de peixe e marisco que comi, e pelo convívio e galhofa que se gerou na nossa casa móvel, aumentando o à-vontade e confiança com algumas das pessoas que já conheço aqui e que comecei a frequentar.

                E agora a próxima viagem, quando é? :D

DIA 18 – UMA ROTINA SEMANAL


                As minhas semanas em Ayacucho começam com a reunião de coordenação que acontece todas as segundas-feiras às oito da manhã na sede da Mama Alice. Cada um dos grupos de trabalho – Educação, Assistência Psicológica e Social, Saúde e Bem-Estar, Educação Técnica e Direcção - reúne-se para avaliar a semana que passou e programar a semana que vai começar, discutir problemas e preparar actividades. Esta reunião é a oportunidade de interagir com todos os membros do grupo de Educação, ao qual pertenço, pois durante a semana estamos espalhados pela sede e pelos dois centros e nunca nos encontramos todos. Normalmente a reunião começa sempre com uma dinâmica de grupo, organizada pela coordenadora, que pode ser um pequeno jogo de equipas, uma conversa a pares ou uma tarefa qualquer, para fomentar o espírito de grupo e o à-vontade entre todos os educadores. Faz-me lembrar os escuteiros. Devia fazer-se mais disto, semanalmente, nas empresas.

                Para mim é puxadote ter uma reunião logo à segunda-feira assim tão cedo. Mas aqui é perfeitamente normal. O sol nasce às seis da manhã e a partir dessa hora começa o barulho de gente e trânsito na rua. Aliando o ruído à ausência de estores nas casas, o que faz com que (mesmo com cortinas escuras) a luz invada o meu quarto sem qualquer pudor, leva a que eu acorde invariavelmente entre as seis e meia e as sete da manhã. Sem despertador. Às segundas-feiras levanto-me para a reunião. Nos outros dias viro-me para o outro lado e fico mais um bocado na ronha. Mas só um bocadinho, porque pelas oito e meia já parece que o dia vai adiantado tal é a azafama das pessoas no seu ir e vir, e quando me levanto depois desta hora fico sempre com a sensação que é quase hora de almoço (e até é, pois aqui almoça-se ao meio-dia).

                Tenho as restantes manhãs da semana livres. Aproveito para preparar as aulas, ir às compras, limpar a casa, ir ao “meu escritório” na associação para me ligar à net e comunicar convosco. E quando não tenho nada para fazer, vou passear pelas ruas do centro da cidade. Agora descubri que há uma piscina municipal e vou começar a ir nadar.

                Pelas tardes, a partir das três, tenho as aulas de inglês e de música. Segundas e terças-feiras fico na sede, a trabalhar com as crianças de Educação Individual (dois grupos de seis meninos e meninas, uma turminha pequenina, muito familiar) e nos restantes dias apanho um microbus a rebentar de gente pelas janelas e vou para os bairros onde estão os dois centros Mama Alice (com a minha viola às costas; não bastasse ser gringa, o que já faz com a que as pessoas fiquem a olhar para mim, quando vou com a viola no bus sinto-me um autêntivo freak show. E efectivamente, sou).

Sala de Educação Individual - sede Mama Alice

Nos bairros tenho turmas maiores, entre vinte e trinta miúdos, muito sujinhos, muito pobrinhos, mas extremamente interessados, ávidos e desejosos das aulas. Até agora têm corrido muito bem, à parte a desorganização e o caos típicos sul-americanos, ao qual me vou habituando pouco a pouco. Ao contrário do que acontece com as crianças de classe média das escolas portuguesas, aqui não passo metade da aula a mandar calar, puxar orelhas ou pôr de castigo. Aqui as crianças precisam de algumas regras firmes (não só de abraços, beijinhos e festinhas na cabeça) mas têm tal carência de presença e acompanhamento adulto que são extremamente agradecidas e muito respeitadoras. E ficam histéricas quando chego, e fazem fila para me cumprimentar. É comovente :)

 Centro Mama Alice no bairro de Keiko Sofia




Centro Mama Alice no bairro de 11 de Junio



Quando regresso a casa pelas sete da tarde já está escuro como breu e normalmente acabo o meu dia a ver um filme ao jantar e a deitar-me às dez da noite. Inacreditável, pois é. Mas o ritmo aqui é deitar cedo e cedo erguer, sobretudo não tendo televisão nem internet em casa, e acordando (involuntariamente) tão cedo, ao chegar ao fim do dia já estou de rastos. Boa noite! *